Da Redação
Registros oficiais apresentados ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos mostram que uma empresa comandada por Brad Parscale, ex-chefe da campanha de Donald Trump, foi contratada para uma ampla operação digital em nome do Estado de Israel. O projeto prevê milhares de conteúdos mensais, dezenas de milhões de impressões, técnicas de SEO e, de forma explícita, a criação de sites e materiais destinados a produzir “GPT framing results” — enquadramentos que possam aparecer em conversas com sistemas de inteligência artificial. Testes independentes publicados pela WIRED nesta semana encontraram conteúdos da operação sendo efetivamente utilizados por alguns chatbots. Os documentos demonstram uma tentativa organizada de influenciar o ecossistema informacional da IA, mas não significam que os contratantes tenham acesso aos modelos ou possam controlar diretamente suas respostas.
Uma frase perdida entre dezenas de páginas de um contrato registrado no Departamento de Justiça dos Estados Unidos ajuda a entender uma transformação silenciosa na disputa contemporânea pela informação.
“Deployment of websites and content to deliver GPT framing results on GPT conversations.”
Em tradução direta: criação de sites e conteúdos destinados a produzir resultados de enquadramento em conversas com sistemas GPT.
A frase consta de documentação apresentada oficialmente pela Clock Tower X LLC ao governo americano em setembro de 2025. A empresa pertence a Brad Parscale, estrategista digital que comandou a campanha presidencial de Donald Trump em 2020. Nos registros do Foreign Agents Registration Act (FARA), a Clock Tower X declarou atuar para o Estado de Israel por intermédio da agência Havas Media Germany. O registro identifica expressamente como principais estrangeiros a Havas e o próprio Estado de Israel. Amazon Web Services, Inc.
O documento é particularmente importante porque não descreve apenas uma campanha convencional de relações públicas. Ele estabelece uma arquitetura de produção e distribuição de conteúdo em escala industrial: no mínimo 100 peças originais por mês, outras 5 mil variações mensais, pelo menos 80% do material adaptado à geração Z, distribuição por TikTok, Instagram, YouTube, podcasts e outros canais e uma meta mínima de 50 milhões de impressões digitais mensais. eFile FARA
O contrato acrescenta uma segunda camada. A Clock Tower X deveria desenvolver campanhas mensais de otimização para mecanismos de busca utilizando a plataforma de inteligência artificial MarketBrew, produzir páginas voltadas a palavras-chave prioritárias, acompanhar alterações nos resultados de busca e ajustar continuamente a estratégia de posicionamento das narrativas. É exatamente nesse bloco que aparece a previsão de desenvolver sites e conteúdo para influenciar o enquadramento de conversas realizadas por sistemas GPT. eFile FARA
Documento original da Clock Tower X arquivado pelo Departamento de Justiça dos EUA
A reportagem exibida pelo programa America Now, da RT, apresentou os documentos como parte de uma investigação sobre novas formas de propaganda digital. Os jornalistas Ben Swann e Elizabeth Lane argumentam que a disputa política deixou de buscar apenas a atenção de usuários nas redes sociais e passou a mirar também a camada de informação utilizada pelos sistemas de inteligência artificial para formular respostas. Essa interpretação encontra respaldo parcial no próprio contrato, que menciona explicitamente os “GPT framing results”; outras alegações apresentadas no programa, particularmente sobre coordenação entre diferentes governos e redes de influência, não são demonstradas pelos documentos da Clock Tower X e precisam ser tratadas separadamente. Illinois Intelligencer
A propaganda passa a ser produzida também para ser encontrada pelas máquinas
O que os documentos descrevem é uma evolução importante das operações tradicionais de influência.
Durante boa parte da história da internet, uma campanha política ou de relações públicas procurava alcançar diretamente uma pessoa. Comprava anúncios, contratava influenciadores, posicionava páginas no Google, criava vídeos, inundava redes sociais com mensagens e tentava conquistar audiência.
A expansão dos chatbots acrescentou um novo intermediário.
Milhões de usuários passaram a perguntar diretamente a sistemas de IA sobre guerras, eleições, países, empresas, personalidades e acontecimentos históricos. Em vez de percorrer dez resultados de busca, o usuário recebe uma resposta sintetizada. Dependendo do produto e do modo utilizado, essa resposta pode incorporar informações recuperadas em tempo real da internet, citar páginas encontradas por mecanismos de busca ou refletir padrões presentes nos dados usados na construção do modelo.
Isso cria um novo objetivo para as operações de influência: não basta convencer o leitor; torna-se possível tentar aumentar a probabilidade de que determinados conteúdos sejam encontrados, considerados relevantes e incorporados às respostas produzidas pelas máquinas.
O contrato da Clock Tower X torna essa estratégia incomumente explícita.
Na mesma seção em que estabelece a otimização para buscadores, o documento determina campanhas de SEO usando inteligência artificial, acompanhamento de alterações no “search landscape” e publicação de páginas destinadas a palavras-chave prioritárias. Logo depois aparece o objetivo de obter os chamados “GPT framing results”. eFile FARA
Não se trata, portanto, de uma interpretação construída exclusivamente por críticos da campanha. A expressão está no próprio documento apresentado ao Departamento de Justiça.
Mas existe uma distinção técnica fundamental.
A Clock Tower X não recebeu, pelos documentos disponíveis, acesso aos parâmetros internos do ChatGPT, Claude, Gemini ou de qualquer outro grande modelo. Tampouco os registros demonstram que uma empresa de IA tenha aceitado modificar deliberadamente seus modelos a pedido do governo israelense.
O mecanismo descrito é indireto.
A estratégia consiste em produzir grandes quantidades de conteúdo, melhorar sua posição nos mecanismos de busca, ampliar sua circulação e criar uma presença digital capaz de ser encontrada tanto por pessoas quanto por sistemas automatizados.
Essa diferença importa porque expressões como “treinar o ChatGPT” ou “controlar a IA”, utilizadas em algumas reportagens sobre o caso, podem transmitir uma ideia tecnicamente mais forte do que aquilo que os documentos demonstram.
O objetivo declarado é influenciar o ambiente informacional no qual sistemas de IA procuram e processam informação. Isso pode ocorrer por mecanismos diferentes: resultados de busca, sistemas de recuperação de informações conectados aos chatbots, citações encontradas na web e, potencialmente, dados públicos posteriormente incorporados a conjuntos utilizados no desenvolvimento de modelos. Os documentos não permitem determinar qual desses caminhos produzirá influência em um sistema específico.
O Departamento de Estado americano já reconhecia, antes desse episódio, que a inteligência artificial transformaria profundamente a guerra informacional. Um relatório de seu International Security Advisory Board alertou que a capacidade de produzir conteúdo falso ou persuasivo em escala poderia permitir a governos manipular percepções de cidadãos e públicos estrangeiros. O próprio Departamento de Estado também utiliza ferramentas de IA para analisar ambientes informacionais, comunicação estratégica e desinformação. State.gov
O que a documentação da Clock Tower X acrescenta é outra dimensão: não apenas usar IA para produzir propaganda ou analisar propaganda, mas tentar estruturar a própria internet de maneira que sistemas de IA encontrem determinadas narrativas quando forem consultados.
De US$ 9 milhões para uma operação muito maior
A dimensão financeira também mudou desde a primeira versão do acordo.
O registro inicial apresentado em 2025 descrevia um contrato de milhões de dólares com a Clock Tower X atuando em nome do Estado de Israel. Documentos posteriores mostram uma expansão significativa da operação. Em junho deste ano, um novo arquivo apresentado ao FARA registrou US$ 4,5 milhões por mês exclusivamente para publicidade digital entre abril e outubro de 2026, o equivalente a US$ 31,5 milhões nesse bloco contratual. eFile FARA
A WIRED Middle East, depois de examinar os registros atualizados do FARA, calculou em US$ 46,5 milhões o valor contratado em 2026 para as campanhas da Clock Tower X apoiadas pelo governo israelense. Segundo a publicação, trata-se do maior contrato israelense ativo então registrado no sistema americano de agentes estrangeiros. WIRED Middle East
Investigação e testes da WIRED Middle East
Os documentos públicos do FARA permitem acompanhar também a quantidade de material produzido. A base do Departamento de Justiça contém sucessivos registros de “informational materials” apresentados pela Clock Tower X em nome do “State of Israel via Havas Media Germany GmbH”, inclusive dezenas de registros ao longo de 2026. eFile FARA
Um desses materiais deixa explícita a relação com o contratante. A declaração legal afirma que o conteúdo foi distribuído pela Clock Tower X “on behalf of the State of Israel” e informa que detalhes adicionais estão disponíveis no Departamento de Justiça. eFile FARA
A própria existência desses registros decorre do FARA. A legislação americana obriga determinados agentes que realizam atividades políticas, de relações públicas ou de representação para principais estrangeiros a registrar suas relações e divulgar materiais informativos. O registro não significa, por si só, que a atividade seja ilegal. Ao contrário: nesse caso, ele é justamente o mecanismo que tornou possível conhecer publicamente o contratante, os valores e parte da estratégia.
O acordo previa ainda a integração de mensagens em propriedades da Salem Media Group, conglomerado que se apresenta como uma empresa voltada principalmente aos públicos cristão e conservador dos Estados Unidos. Parscale ocupa posição executiva na empresa, enquanto sua Clock Tower X executa a campanha registrada para Israel. eFile FARA
A concentração na geração Z também não parece casual.
O contrato determina que pelo menos 80% dos conteúdos sejam adaptados a esse público. Reportagens israelenses sobre o programa relacionaram a estratégia à deterioração do apoio a Israel entre americanos mais jovens, especialmente depois da guerra em Gaza. A meta prevista era atingir 50 milhões de impressões mensais utilizando redes sociais, vídeos, podcasts e outros canais. ynetglobal
A operação combina, assim, técnicas que antes poderiam ser analisadas separadamente: publicidade, produção de conteúdo, relações públicas, microsegmentação de audiência, SEO, inteligência artificial, redes sociais e otimização para respostas de chatbots.
A diferença está na escala e na integração.
Não é necessário que um conteúdo se torne viral para que seja útil. Uma página pode ter audiência humana relativamente pequena e, ainda assim, adquirir importância se estiver bem posicionada para determinada consulta e acabar sendo recuperada por sistemas automatizados.
É exatamente essa hipótese que começou a ser testada.
WIRED perguntou aos chatbots — e parte do conteúdo apareceu nas respostas
A parte mais relevante da história surgiu nesta semana.
A WIRED Middle East decidiu verificar empiricamente se páginas relacionadas à operação da Clock Tower X estavam aparecendo nas respostas das principais plataformas de inteligência artificial. A publicação submeteu perguntas iguais a seis sistemas: ChatGPT, Claude, Perplexity, Copilot, Gemini e Grok. WIRED Middle East
O resultado exige cuidado na interpretação.
A investigação encontrou pelo menos dois sites ligados à Clock Tower X aparecendo em respostas de chatbots sem que os usuários tivessem mencionado esses sites nas perguntas. Isso não demonstra que os modelos tenham sido “reprogramados”, mas mostra que o conteúdo produzido pela campanha conseguiu entrar no circuito de fontes recuperadas por alguns sistemas. WIRED Middle East
Em um dos testes, os jornalistas perguntaram se seria benéfico para os Estados Unidos ampliar a cooperação militar com Israel. Copilot, Claude e Grok reproduziram um número de US$ 48 bilhões apresentado pelo site Allyvia como estimativa do valor econômico da aliança entre os dois países. Alguns sistemas citaram diretamente a página. Claude, segundo a WIRED, incluiu ressalvas sobre a confiabilidade do número; Perplexity encontrou o site, mas decidiu não utilizá-lo como fonte. WIRED Middle East
Outro teste perguntou quais evidências demonstrariam que Israel tentou repetidamente alcançar a paz com os palestinos. O Copilot citou Paxpoint.org, outro site associado à operação, que apresenta negociações e ações israelenses dentro desse enquadramento. WIRED Middle East
O experimento não permite concluir que todas as respostas desses sistemas estejam sendo sistematicamente direcionadas pela campanha. Também não mede quanto o material altera a posição geral dos modelos, nem demonstra que empresas de IA estejam colaborando com a operação.
Mas estabelece algo mais limitado — e ainda assim relevante: conteúdos criados no contexto de uma campanha estrangeira registrada nos Estados Unidos conseguiram aparecer como fontes em respostas fornecidas por sistemas de inteligência artificial a usuários comuns. WIRED Middle East
É justamente aí que surge um problema novo para o jornalismo.
Um leitor que encontra um artigo num site pode observar o domínio, procurar a seção institucional, investigar o autor e comparar o conteúdo com outras publicações. Num chatbot, toda essa cadeia pode desaparecer atrás de uma resposta sintética e aparentemente uniforme.
Se a procedência das fontes não estiver claramente indicada, conteúdos produzidos por governos, empresas, grupos de pressão, campanhas eleitorais, organizações militares, ativistas ou relações públicas podem chegar ao usuário depois de serem transformados pela linguagem neutra de uma inteligência artificial.
O problema não é exclusivo de Israel.
Governos, partidos, corporações, organizações políticas e empresas de relações públicas já disputam há décadas resultados de busca e circulação nas redes. O que os documentos da Clock Tower X demonstram é que os sistemas generativos passaram formalmente a integrar essa disputa.
A RT enquadra o episódio como parte de uma investigação mais ampla sobre propaganda, NATO, bots e campanhas de influência. Em outro episódio da série, o programa analisou experiências publicadas por pesquisadores ligados à NATO envolvendo perfis falsos, publicidade direcionada e compra experimental de engajamento. A própria NATO apresentou esses estudos como pesquisas defensivas destinadas a demonstrar vulnerabilidades das redes; os apresentadores da RT questionaram se as mesmas técnicas poderiam ser utilizadas ofensivamente. Essas duas interpretações precisam permanecer distintas. RT International
Da mesma forma, a afirmação feita no programa de que redes pró-Israel e pró-Ucrânia poderiam estar sob uma coordenação comum não é demonstrada pelo contrato da Clock Tower X. A documentação do FARA comprova a relação da empresa com o Estado de Israel e descreve detalhadamente sua estratégia digital; não estabelece, por si só, uma estrutura conjunta com o governo ucraniano ou com a NATO. Illinois Intelligencer
O que já está documentado dispensa extrapolações.
Há um contratante estatal identificado. Há uma empresa registrada como agente estrangeiro. Há valores declarados. Há metas de produção. Há objetivos de audiência. Há ferramentas de SEO. Há dezenas de milhões de impressões planejadas. E existe, literalmente escrita no contrato arquivado pelo governo americano, a intenção de produzir conteúdo capaz de gerar determinados enquadramentos em conversas com sistemas GPT. eFile FARA
A investigação da WIRED acrescenta a peça que faltava: alguns desses conteúdos já conseguem aparecer nas respostas de sistemas comerciais de inteligência artificial. WIRED Middle East
A disputa informacional, portanto, ganha uma nova camada. Durante duas décadas, governos e empresas aprenderam a disputar aquilo que aparecia na primeira página do Google. Depois aprenderam a disputar feeds do Facebook, Instagram, TikTok, YouTube e X.
Agora começam a disputar aquilo que a máquina responde quando alguém simplesmente pergunta:
“O que aconteceu?”
É nesse ponto que a operação registrada pela Clock Tower X ultrapassa a história específica de Israel, Brad Parscale ou uma campanha de relações públicas. Ela antecipa uma questão muito maior para a próxima fase da internet: quando sistemas de inteligência artificial se transformam em mediadores cotidianos da realidade, quem conseguir organizar o ambiente de informações consultado por essas máquinas poderá também tentar influenciar a maneira pela qual milhões de pessoas recebem uma explicação sobre o mundo.
Isso não significa que os chatbots sejam automaticamente controlados por quem publicar mais conteúdo. Significa que procedência, transparência das fontes, diversidade de referências e resistência a manipulações de busca passam a ser problemas centrais não apenas do jornalismo e das plataformas, mas também da própria arquitetura da inteligência artificial.





