Atitude Popular

“É n4zism0: não existe mais respeito à lei”

Enfermeira e ativista Myriam Marques relata escalada de violência do ICE, mortes em protestos e um “momento de inflexão” nos EUA, enquanto movimentos sindicais e redes comunitárias organizam resistência nas ruas

A edição desta segunda-feira do Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, reuniu Sara Goes e Sandra Helena para uma conversa com Myriam Marques, enfermeira e ativista que atua entre o Brasil e Nova York, sobre as mobilizações de norte-americanos por direitos trabalhistas e sociais e a reação nas ruas às políticas de Donald Trump. A entrevista foi transmitida ao vivo e está disponível no YouTube, no canal TV Atitude Popular.

Com o tema “Norte-americanos reagem, nas ruas, contra políticas de Trump”, o programa mergulhou nas denúncias de precarização do trabalho, organização sindical, atuação de movimentos de base e o impacto político de uma onda de protestos que, segundo a convidada, tem sido marcada por método, solidariedade e escalada repressiva. Logo na abertura, Sara Goes descreveu duas características que lhe chamaram atenção ao acompanhar as manifestações: a violência de agentes de imigração e o comportamento “não errático” dos manifestantes, que se ajudam, registram ações e transformam o registro audiovisual em instrumento de defesa.

Myriam, apresentada como liderança do coletivo DDB New York (Defend Democracy in Brazil Committee) — criado em 2016 e voltado à defesa da democracia e da justiça social — também relatou atuação recente em redes de defesa de imigrantes e em coletivos de profissionais de saúde pela Palestina. “Sou uma enfermeira brasileira, trabalhei 17 anos no SUS… e nos Estados Unidos nos últimos 15 anos”, disse, ao situar sua trajetória. Ela citou ainda participação em coalizões internacionalistas, solidariedade a movimentos sociais e envolvimento no grupo “Nurses for Palestine”.

“Gestapo”: medo, retaliações e o alvo sobre ativistas

A conversa ganhou densidade quando Sandra Helena questionou se imigrantes — inclusive legalizados — e militantes de esquerda vêm sofrendo retaliações, citando perseguições em universidades e casos envolvendo pessoas em situação regular. Myriam respondeu que, embora seja cidadã norte-americana, não enxerga segurança para ninguém no atual cenário. “Eu acredito que a situação não tá segura para ninguém… É uma insegurança total”, afirmou. Ao nomear o que considera uma ruptura institucional, foi direta: “É nazismo. Não existe mais respeito à lei, a nenhuma lei.”

A convidada descreveu a atuação do ICE (controle de imigração e alfândega) como um aparato que teria endurecido suas ações, sobretudo após mudanças na direção do órgão. “É uma coisa de gestapo mesmo que tá acontecendo”, disse, ao comentar prisões, uso de gás lacrimogêneo e o medo que se espalha inclusive em ambientes de saúde. “Eles invadem os hospitais… as pessoas têm medo de ir pra emergência, com medo de ser pego”, relatou.

Mortes em protestos e o “ponto de inflexão”

Um dos trechos mais fortes do programa foi quando Myriam mencionou mortes associadas às operações e protestos, falando em assassinatos “na rua” e mortes sob custódia. Ela citou casos ocorridos em Minnesota e destacou a execução de um enfermeiro identificado por ela como Alex Pretty. “Ele foi executado com nove tiros… isso é uma execução”, afirmou, dizendo que ele teria sido morto após defender uma mulher derrubada por agentes, enquanto filmava a ação. A entrevistada chamou atenção para o simbolismo: um profissional de saúde ligado ao atendimento de veteranos de guerra. “O fato de ter morrido um enfermeiro de CTI… é outro nível”, disse, acrescentando estar “de luto”.

Ao avaliar se os protestos tendem a crescer, Myriam respondeu que o país vive uma encruzilhada. “Eu acho que a gente tá no momento de inflexão. Ou o pêndulo vai pendar para cá ou para lá”, declarou. Na leitura dela, a repressão pode buscar produzir medo e recuo — “eles querem chegar num ponto que as pessoas parem de se manifestar de medo” — mas também pode gerar capilaridade e reação em massa, com movimentos se reorganizando. Em um comentário no programa, surgiu inclusive a hipótese de endurecimento institucional e estado de exceção, enquanto Myriam ponderou que as próximas semanas serão decisivas.

Mandani, esquerda local e esperança em Nova York

Ao ser questionada sobre o ambiente político e a movimentação de grupos como os Democratas Socialistas (DSA/DSI) e a cena ligada a Bernie Sanders, Myriam descreveu Nova York como uma cidade “progressista” e com tradição de movimentos sindicais, feministas e LGBT, além de ampla rede de organizações. Ela citou dois polos que considera influentes no momento: PSL (Party for Socialism and Liberation) e os democratas socialistas que atuam no interior do Partido Democrata.

Myriam também comentou a eleição do prefeito Zohran Mamdani (mencionado no programa como “Mandani”) como “respiro” e recado político, sobretudo por recolocar a palavra “socialismo” no debate público. “A eleição dele trouxe… a palavra socialismo na boca do povo”, afirmou. A convidada mencionou gestos simbólicos do prefeito, como apoio a greves e composição feminina na transição: “Toda a equipe de transição dele foi coordenada só por mulheres… e agora o governo tem mais de 60% de mulheres”, disse.

Mídia, Fox News e a guerra das imagens

Sandra Helena trouxe ainda uma comparação com o Brasil: como a grande mídia narra a escalada autoritária? Myriam respondeu que o ecossistema de comunicação nos Estados Unidos é mais diverso, com grande peso de TVs locais e comunitárias, além de veículos nacionais. Ela citou a Fox News como polo trumpista e a existência de mídias progressistas — como Democracy Now — que dialogam com setores organizados.

Um ponto chamou atenção: mesmo canais conservadores estariam exibindo cenas duras por força do volume de imagens que circulam. “Até a Fox tá fazendo short… mostrando os horrores… porque tá uma situação impossível de não se falar dela”, disse, relatando surpresa ao ver a Fox exibindo integralmente o vídeo do caso do enfermeiro. Para Myriam, filmar e disseminar virou tática central dos protestos: “Isso é uma das táticas do movimento, filmar e disseminar.”

A resistência pragmática e a geração que “não compra mais”

Nos minutos finais, a convidada descreveu uma engrenagem de resistência cotidiana, com cartilhas, treinamentos e ações coordenadas. Ela contou que manifestantes teriam mapeado hotéis usados por agentes, organizando vigílias barulhentas e pressão em locais frequentados pelo aparato repressivo. Na leitura dela, a resposta popular combina indignação e pragmatismo: “Eles são muito organizados… fazem cartilhas, falam o que as pessoas podem fazer.”

Myriam também apostou na politização de jovens, argumentando que a geração Z não “compra mais” a mitologia de excepcionalismo norte-americano e reage à deterioração material: altos custos de saúde, dívidas estudantis, dificuldade de moradia, crise climática. “As pessoas estão descobrindo que foram enganadas”, resumiu, ligando a revolta ao próprio funcionamento do capitalismo contemporâneo.

Ao encerrar, Sara Goes agradeceu e indicou que o programa deve voltar ao tema, na expectativa de que um novo encontro ocorra em contexto menos sombrio. Myriam, por sua vez, reforçou a esperança e o alerta: a força do inimigo é grande, mas “a única esperança” segue sendo a resistência do povo.

📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89

compartilhe: