“É um divisor de águas entre soberania e submissão”

Leonardo Wexell Severo relata repressão aos protestos contra Milei, aponta perda de apoio do governo e alerta que o programa argentino serve de referência à extrema direita brasileira

Da Redação

“É um divisor de águas entre soberania e submissão, entre desenvolvimento e capitulação, entre valorização dos trabalhadores e escravidão.” A afirmação do jornalista Leonardo Wexell Severo resumiu sua análise sobre o governo de Javier Milei e as consequências eleitorais desse projeto para a América Latina.

Jornalista da ComunicaSul, Leonardo participou do programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas. Recém-chegado de uma série de coberturas em Buenos Aires, relatou mobilizações de aposentados, professores e movimentos contrários à estrangeirização das terras argentinas.

O entrevistado descreveu um país no qual o ajuste fiscal deixou de ser um conceito abstrato. Cortes na saúde, na educação, nas obras públicas e na previdência passaram a atingir serviços utilizados diariamente pela população. Ao mesmo tempo, o governo ampliou a repressão contra os setores que contestam essa política nas ruas.

“O que nós podemos sentir foi um imenso rechaço do povo argentino. A população está sentindo na carne o que significa essa política de corte de recursos”, afirmou.

Homenagem a Lejeune Mirhan

Antes de tratar da Argentina, Leonardo prestou homenagem ao professor Lejeune Mirhan, morto aos 73 anos. O jornalista recordou o convívio com o sociólogo e sua contribuição aos debates sobre soberania, democracia e relações internacionais.

“Era um grande companheiro em todos os sentidos. Brincalhão, com extensa capacidade teórica e de comunicação, também era um grande fazedor de amizades”, afirmou.

Leonardo contou que encontrou Lejeune pela última vez durante o lançamento de Stálin para principiantes, publicado pela Editora Apparte.

“Era uma pessoa muito gente fina. Vai fazer uma grande falta na nossa luta pela democracia e pela soberania nacional”, disse.

Mobilizações contra o ajuste

Leonardo acompanhou três frentes de mobilização em Buenos Aires. Uma delas reuniu aposentados e pensionistas contrários à redução de benefícios e ao corte de medicamentos. Outra envolveu professores e estudantes afetados pela diminuição dos investimentos na educação.

O jornalista também esteve em uma manifestação contra a ampliação dos limites para a compra de terras por estrangeiros. A medida permitiria que empresas transnacionais e grandes investidores aumentassem sua presença sobre o território argentino.

Esses protestos, segundo ele, possuem causas diferentes, mas compartilham uma insatisfação com o projeto econômico de Milei. O governo procura reduzir a presença estatal, cortar despesas públicas e facilitar o ingresso do capital estrangeiro em áreas consideradas estratégicas.

“O Milei assumiu o compromisso de devastar e desmontar o serviço público”, afirmou Leonardo.

Repressão diante do Congresso

A manifestação realizada diante do Congresso argentino terminou em confronto com as forças policiais. Imagens mostraram a utilização de canhões de água, gás, spray de pimenta e balas de borracha contra os participantes.

De acordo com Leonardo, aproximadamente 2 mil agentes foram mobilizados para impedir a aproximação dos manifestantes.

“Foi montado um aparato para tentar barrar a população. Houve jato de água fria contra aposentados e pensionistas, spray de pimenta, cassetete, bala de borracha e prisões”, relatou.

O jornalista afirmou que uma profissional da imprensa sofreu ferimentos na cabeça após ser atingida por disparos de balas de borracha. O número total de feridos ainda não estava consolidado no momento da entrevista.

“O governo Milei não quer que se documente o que está ocorrendo”, declarou.

Segundo Leonardo, os disparos foram realizados na direção da parte superior do corpo dos manifestantes, aumentando a possibilidade de ferimentos graves.

As imagens disponíveis confirmam o uso de balas de borracha, gás e jatos de água para dispersar os participantes, embora os balanços sobre feridos variassem nas primeiras horas posteriores ao protesto.

Aposentados mantêm protestos semanais

A mobilização dos aposentados não começou nesta semana. Os atos são realizados regularmente diante do Congresso e se transformaram num dos principais focos de resistência ao governo.

Leonardo disse ter acompanhado a 44ª manifestação organizada pelo segmento. Apesar da idade e das limitações físicas de muitos participantes, os protestos têm sido recebidos com operações policiais.

“O governo já desceu o cassetete em gente com cadeira de rodas e com bengala. É algo verdadeiramente estúpido”, afirmou.

O conflito ocorre num momento de deterioração do poder de compra. O valor mínimo das aposentadorias na Argentina foi estabelecido em 419.775,93 pesos para agosto de 2026, enquanto a Pensão Universal para o Adulto Maior ficou em 335.820,74 pesos, segundo a resolução oficial da Administração Nacional da Seguridade Social.

Leonardo afirmou que os cortes também atingiram a distribuição de remédios. Em seu relato, uma lista de dezenas de medicamentos anteriormente fornecidos gratuitamente teria sido reduzida de maneira drástica.

A consequência aparece nos relatos de idosos que precisam escolher entre alimentação, moradia e tratamento médico.

“Duas refeições por dia”

O jornalista rejeitou a ideia de que a redução da inflação representa, isoladamente, uma melhora nas condições de vida.

A inflação pode cair e, ainda assim, os preços permanecerem elevados diante de salários e aposentadorias enfraquecidos. Para medir o efeito de uma política econômica, é necessário observar o poder de compra, o emprego, o consumo e a qualidade dos serviços.

“O salário não foi reajustado na mesma proporção. O poder de compra está sendo achatado”, afirmou.

Leonardo relatou que argentinos disseram ter reduzido de três para duas o número de refeições diárias. Também citou casos de endividamento e famílias sem condições de custear as despesas básicas.

“A dimensão da desumanidade e da crueldade dessa política está aparecendo agora”, declarou.

Pesquisas recentes indicam que mais de 60% dos argentinos desaprovam o governo. A insatisfação está associada aos baixos salários, ao desemprego, à inflação acumulada e a denúncias de corrupção. Apesar dos indicadores oficiais de equilíbrio fiscal e redução da inflação, os ganhos não chegaram de maneira uniforme às famílias, enquanto comércio e construção enfrentaram dificuldades e o emprego informal aumentou. El País

Salário mínimo distante das necessidades

O salário mínimo argentino foi fixado em 376.600 pesos para agosto de 2026. O valor consta na escala oficial estabelecida pelo governo, que previa reajustes mensais desde o final de 2025. Governo da Argentina

A conversão para reais varia conforme a cotação utilizada e não permite comparar diretamente o custo de vida dos dois países. Leonardo ressaltou que o problema principal é a capacidade de comprar alimentos, pagar aluguel, transporte e serviços dentro da Argentina.

Para ilustrar a perda de valor do dinheiro, contou que comprou um pudim por 5 mil pesos no início da viagem. Poucos dias depois, o mesmo produto custava 6 mil.

“O salário permanece, mas o preço aumenta. As pessoas não conseguem chegar ao fim do mês”, disse.

O custo futuro dos cortes

Leonardo argumentou que parte dos efeitos do ajuste ainda não apareceu por inteiro. A interrupção de obras e da manutenção de estradas pode reduzir despesas no curto prazo, mas produz custos maiores no futuro.

Segundo ele, a Argentina precisava investir cerca de 2,5 bilhões de dólares por ano para manter a infraestrutura rodoviária. Sem manutenção, a recuperação posterior poderia exigir valores muito superiores.

O mesmo princípio se aplica a hospitais, escolas e equipamentos públicos. A economia obtida com a interrupção de serviços retorna na forma de deterioração, acidentes, queda na qualidade do atendimento e necessidade de reconstrução.

“Agora começam a aparecer os elevadores que não funcionam nos hospitais e os problemas provocados pelo corte dos medicamentos”, afirmou.

Menos investimento, menos consumo

Para o jornalista, o programa de Milei produz uma reação em cadeia. Quando o governo reduz salários e investimentos, diminui a renda disponível. Com menos dinheiro circulando, as famílias compram menos, as empresas vendem menos e o emprego é afetado.

“No momento em que você corta recursos da saúde, da educação e das obras públicas, impacta a geração de emprego. Quando reduz os salários, diminui o consumo”, explicou.

Leonardo definiu esse processo como um “círculo vicioso de degradação e empobrecimento”.

O diagnóstico contrasta com a versão de apoiadores de Milei, que atribuem o ajuste à necessidade de controlar as contas públicas e corrigir desequilíbrios acumulados por governos anteriores.

O jornalista não negou a existência desses problemas. Sua crítica concentra-se na escolha de transferir o custo do ajuste para aposentados, servidores, estudantes e trabalhadores.

Derrota nas urnas municipais

O descontentamento também começou a aparecer nas eleições locais. Na província de Santiago del Estero, o partido La Libertad Avanza não venceu nenhuma das 26 disputas municipais e conquistou apenas três das 194 cadeiras de vereadores.

Na soma provincial, a legenda de Milei obteve aproximadamente 8% dos votos, enquanto a Frente Cívica por Santiago alcançou 66%. Brasil 247

Leonardo reconheceu que Santiago del Estero possui uma tradição de oposição ao governo, mas ressaltou a dimensão da queda. Nas eleições anteriores, Milei havia alcançado uma votação significativamente maior na região.

“Ele perdeu nas 26 cidades. Das 194 vagas para vereador, conseguiu apenas três”, destacou.

O resultado não permite projetar automaticamente o comportamento do eleitorado nacional. Mostra, contudo, que a insatisfação pode produzir consequências eleitorais e dificultar a ampliação da presença parlamentar do governo.

A defesa das terras argentinas

Outra disputa envolve a estrangeirização do território. A legislação estabelecia limites para a aquisição de terras rurais por estrangeiros, mas mudanças defendidas pelo governo poderiam elevar a participação de investidores externos.

Segundo Leonardo, a pressão popular impediu temporariamente o avanço da proposta.

A mobilização ganhou força durante uma partida entre Argentina e Inglaterra, quando a seleção argentina exibiu uma mensagem sobre a soberania das Malvinas. A manifestação esportiva fortaleceu um sentimento nacional utilizado pelos movimentos sociais na disputa legislativa.

“Os cartazes diziam: ‘Senadores, façam como os jovens das Malvinas, não como os ingleses’”, relatou.

Para Leonardo, o episódio mostra que a defesa da soberania não pertence obrigatoriamente à direita. Na Argentina, a reivindicação das Malvinas, o controle das terras e a proteção da produção nacional também são pautas de organizações populares.

Confronto com o Brasil

Leonardo criticou as declarações de Milei contra o Presidente Lula e sua aproximação com Flávio Bolsonaro. Em agosto, o Brasil reduziu o nível das relações diplomáticas com a Argentina depois de novos insultos dirigidos ao presidente brasileiro. Reuters

O jornalista disse ter entrevistado eleitores de Milei que rejeitaram esse comportamento, mesmo mantendo apoio parcial ao governo.

“Ouvi gente dizendo: ‘Votei no Milei e acho que ele está fazendo um bom governo, mas o que fez em relação ao Presidente Lula é um horror’”, contou.

Outro entrevistado afirmou que a relação entre os países deve permanecer acima das divergências ideológicas porque o rompimento prejudica a economia argentina.

O Brasil é um dos principais destinos dos produtos industrializados argentinos. Uma crise diplomática pode atingir setores que ainda preservam empregos e capacidade produtiva.

“O setor industrial nacional não vê nenhuma vantagem nesse confronto com o Brasil. Pelo contrário, a economia argentina tende a perder”, analisou Leonardo.

Subordinação aos Estados Unidos

Enquanto confronta o Brasil, Milei aprofunda sua relação com Donald Trump. Leonardo classificou essa postura como submissão aos interesses norte-americanos.

O jornalista mencionou acordos que facilitariam a entrada de produtos dos Estados Unidos e reduziriam o processamento realizado dentro da Argentina. Na cadeia da carne, por exemplo, a exportação de animais vivos diminuiria a atividade de frigoríficos e outros estabelecimentos responsáveis por agregar valor ao produto.

Para Leonardo, vender apenas o animal significa transferir empregos e renda que poderiam permanecer no país.

Ele também relacionou a agenda de Milei ao Fundo Monetário Internacional e a um projeto continental de redução do Estado, privatização e abertura de áreas estratégicas ao capital estrangeiro.

Um aviso ao Brasil

Leonardo afirmou que a situação argentina precisa ser observada pelos brasileiros porque propostas semelhantes aparecem na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.

A imagem da motosserra utilizada por Milei foi substituída pela tesoura, mas o significado político seria o mesmo: cortar serviços públicos, reduzir investimentos e apresentar o Estado como obstáculo.

“Milei assumiu o compromisso de desmontar o serviço público. É o significado da motosserra, que aqui o Flávio Bolsonaro reproduz com a tesoura”, afirmou.

O jornalista considera que as eleições brasileiras terão uma dimensão superior à disputa entre candidaturas nacionais. O resultado influenciará as relações do país com os Estados Unidos, o papel do Brasil no Sul Global e a capacidade de proteger recursos naturais e empresas estratégicas.

Apoio à reeleição de Lula e crítica ao ajuste fiscal

Leonardo defendeu a reeleição do Presidente Lula como resposta à ofensiva da extrema direita. Também afirmou que o governo brasileiro precisa rever políticas econômicas que limitam os investimentos sociais.

“É fundamental reelegermos Lula. Para isso, o governo também precisa reformar algumas de suas políticas, como o ajuste fiscal”, declarou.

O jornalista criticou a transferência de uma parcela elevada do orçamento ao sistema financeiro por meio dos juros da dívida pública. Para ele, recursos destinados aos bancos deixam de financiar saúde, educação e desenvolvimento.

A defesa de Lula, portanto, não foi apresentada como aprovação irrestrita do governo. Leonardo reivindicou uma mudança econômica capaz de diferenciar com maior clareza o projeto progressista daquele implementado na Argentina.

“Soberania ou submissão”

Na avaliação de Leonardo, a queda do apoio a Milei mostra que a extrema direita pode conquistar o governo com promessas de ruptura, mas passa a ser julgada pelas consequências de suas decisões.

O equilíbrio das contas públicas não encerra o debate quando aposentados perdem medicamentos, escolas ficam sem recursos e salários deixam de acompanhar o custo de vida.

Para o jornalista, as mobilizações argentinas demonstram que a resistência saiu dos setores partidários e alcançou categorias atingidas diretamente pelo ajuste.

“Estamos diante de uma eleição decisiva do ponto de vista geopolítico mundial”, afirmou ao relacionar a experiência argentina à disputa brasileira.

“É um divisor de águas entre soberania e submissão, entre desenvolvimento e capitulação, entre valorização dos trabalhadores e escravidão”, concluiu.

Referências

Guatemala e Palestina sob o tacão genocida de Israel: uma história silenciada pela mídia hegemônica | Leonardo Wexell Severo | 2026
Stálin para principiantes | Lejeune Mirhan | 2023

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