Atitude Popular

“Economia solidária não é só trabalho, é troca de saberes”

Programa Bancos da Democracia discute acessibilidade e direitos das pessoas com deficiência e mostra como PcDs, mães atípicas e empreendimentos populares reinventam o cuidado e a autonomia

Garantir que a Economia Solidária seja um espaço real de inclusão passa, necessariamente, por colocar as Pessoas com Deficiência (PcDs) no centro do debate sobre trabalho, renda e cuidado. Foi exatamente isso que fez o Programa Bancos da Democracia, da rádio e TV Atitude Popular, na edição desta segunda-feira (1º), dedicada ao tema “Acessibilidade e Direitos das Pessoas com Deficiência (PcD) na agenda da Economia Solidária”.

Ao longo de quase uma hora, com apresentação de Sara Goes, o programa recebeu Ana Paula Feminella, secretária nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania; Joana Mota, da coordenação executiva do Fórum Paraense de Economia Popular Solidária; e Ana Lourdes de Freitas, da Vila de Poetas (Maranguape/CE) e da Rede Cearense de Socioeconomia Solidária (RCSES). A conversa, transmitida pela TV Atitude Popular e por mais de 30 rádios comunitárias, serviu como preparação para o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, lembrado em 3 de dezembro.

Logo no início, Sara lembrou que qualquer pessoa pode se tornar PcD ao longo da vida — por acidente, doença, envelhecimento ou violência — e que, apesar disso, a deficiência segue cercada de tabus, discursos religiosos infantilizantes e capacitismo. A proposta do programa foi justamente enfrentar esse silêncio dentro de um campo que costuma se apresentar como sinônimo de autonomia: a Economia Solidária.

Deficiência não é “defeito”: é barreira social

Coube a Ana Paula Feminella abrir o debate explicando o conceito de deficiência pela perspectiva dos direitos humanos. Ela rejeitou a visão estritamente biomédica, que enxerga a deficiência como um problema individual, e defendeu o modelo social:

“A deficiência é uma construção social em torno de um corpo que foge dos padrões considerados normais pela sociedade.”

Segundo a secretária, não basta apontar uma característica física ou sensorial e rotular alguém como pessoa com deficiência. É preciso olhar para as barreiras que esse corpo encontra no mundo: arquitetônicas, urbanísticas, comunicacionais, culturais e atitudinais. São essas barreiras, e não o corpo em si, que produzem desigualdade:

“O que nos impede de participar da sociedade, ter equidade social e ter os mesmos direitos é o preconceito, é a discriminação que a gente sofre.”

Ela lembrou que pessoas com deficiência sempre existiram ao longo da história — de faraós a presidentes —, mas foram sistematicamente invisibilizadas ou escondidas, como o ex-presidente norte-americano Franklin Roosevelt, que ocultava o uso de cadeira de rodas por conta do estigma.

Ana Paula também chamou atenção para um fenômeno que tende a se intensificar no Brasil: o processo de “deficientização” da população. Num país que envelhece rapidamente, com condições desiguais de moradia, mobilidade, saúde e trabalho, cresce o número de pessoas que adquirem deficiência ao longo da vida por acidentes, doenças, violências urbanas, rurais ou de gênero:

“Não são poucas as mulheres com deficiência que se tornaram mulheres com deficiência, assim como Maria da Penha, sobreviventes de feminicídio.”

Gênero, cuidado e empobrecimento: quando a família adoece junto

Um dos pontos fortes da intervenção de Ana Paula foi a conexão entre deficiência, gênero e cuidado. Ela lembrou que, quando nasce uma criança com deficiência, quase sempre mães e avós assumem a responsabilidade cotidiana pelo cuidado. Muitas são obrigadas a deixar o trabalho formal pela falta de políticas públicas, creches, escolas acessíveis, transporte adaptado e serviços de saúde:

“Muitas vezes é a mãe ou a avó que fica responsável pelo cuidado dessa criança e tem que sair do mercado de trabalho. A falta de acessibilidade e de políticas públicas acaba levando ao empobrecimento dessa família.”

É nesse ponto que a Economia Solidária aparece como alternativa concreta. Ao criar empreendimentos autogestionários, com tempos mais flexíveis, redes de apoio e partilha de saberes, ela pode funcionar como um espaço estratégico para PcDs e para famílias cuidadoras:

“Falar em economia solidária e relacionar pessoas com deficiência à produção econômica, ao trabalho, é ainda outro desafio. Mas a economia solidária é um meio de oportunidades, não só para quem tem deficiência, como para familiares de pessoas com deficiência.”

“Eu me tornei deficiente em 1994”: a trajetória de Joana Mota

Se Ana Paula trouxe o olhar institucional, Joana Mota falou a partir da experiência de quem vive, na pele, as contradições entre deficiência, trabalho e autonomia. Empreendedora nata, criada por uma mãe que trabalhava coletivamente com outras mulheres, Joana sofreu um acidente de moto em 1994 e perdeu o braço esquerdo:

“Eu me acidentei em 1994, não era deficiente até um acidente de moto. Sempre fui empreendedora, nasci no empreendedorismo.”

Hoje, ela integra e coordena uma central de confecções, uma rede com grupos organizados por bairros em Belém (PA), e atua na executiva do Fórum Paraense de Economia Popular Solidária. Sua cooperativa tem um objetivo claro: priorizar PcDs e mães atípicas, muitas delas mulheres solo que criam filhos com deficiência após serem abandonadas pelos companheiros:

“Hoje a cooperativa que eu faço parte tem um objetivo maior, que é trabalhar com as pessoas com deficiência, as mães atípicas, que além delas serem atípicas, ainda são mães solos.”

Joana denuncia a invisibilidade desse público, inclusive em espaços que deveriam ser de vanguarda. Ao comentar a realização da COP 30 e da Cúpula dos Povos em Belém, ela foi dura com a própria Economia Solidária:

Relatou que, apesar da presença de empreendimentos na comercialização, faltou articulação nacional para garantir um território, rodas de conversa e incidência política à altura da importância do evento:

“Eu vi a economia solidária muito distante. […] Para mim foi uma deficiência do Fórum Brasileiro de Economia Solidária e eu me incluo dentro.”

Ao falar diretamente da realidade das PcDs, Joana resumiu o potencial transformador da Economia Solidária:

“Nós não somos mais invisíveis, nós estamos participando, trabalhando, comercializando. Economia solidária não é só trabalho, é troca de saberes, é até o conhecimento.”

Ela criticou o fato de muitas pessoas com deficiência sobreviverem exclusivamente de benefícios previdenciários enquanto poderiam estar produzindo e vendendo, com apoio adequado. E lembrou a situação das mães atípicas que, mesmo com o benefício do filho, destinam todo o dinheiro ao cuidado da criança, sem recursos para si:

“É por isso que é importante estar dentro dos empreendimentos da economia solidária, que elas têm um dinheiro a mais para se cuidar, porque nós precisamos nos cuidar, não só trabalhar.”

Da horta à rede de apoio: cuidado também é política

A fala de Joana também trouxe a dimensão afetiva e simbólica da Economia Solidária. Ela contou que, após se separar com três filhos, contou com essa rede para “botar o pirão” na mesa, formar os filhos e seguir atuando no movimento:

“Hoje eu digo assim para as mulheres: eu quero sim estar na economia solidária, eu quero fazer pela economia solidária por gratidão. Hoje já precisei da economia solidária para botar o pirão na minha mesa. Agora são meus filhos que me bancam no movimento social.”

Para ela, ficar na base, com os grupos, é também um jeito de cuidar da própria saúde mental:

“Eu preciso sim de dinheiro, mas eu preciso mais estar nesses espaços para também me sentir bem cada vez mais, porque é um espaço que nos ajuda e nós ajudamos o outro.”

“Eu esqueci de tudo”: memória, poesia e acessibilidade com Ana Lourdes

Do Cariri cearense, Ana Lourdes de Freitas trouxe outro fio fundamental do debate: o de quem se torna pessoa com deficiência na vida adulta e precisa reaprender a cidade, o corpo e os vínculos. Há cerca de oito anos, ela passou por um grave problema de saúde, ficou dois meses em coma e voltou à consciência com sequelas neurológicas importantes:

“Eu esqueci tudo: economia solidária, família, eu esqueci de tudo. Eu esqueci de mim mesma. E depois, quando eu acordei, foi começar de novo.”

Nesse processo, a rede da Economia Solidária e o companheiro, o poeta Reginaldo, foram decisivos: grupos se revezavam diariamente para ficar com ela, enquanto ele trabalhava. A partir daí, o casal passou a olhar a cidade com outros olhos e a disputar mudanças concretas em espaços de cultura e formação, como o Centro de Pastoral em Fortaleza e o Theatro José de Alencar:

“Antes, para mim, era tudo ótimo, fácil. Depois que eu cheguei lá, depois da deficiência, eu vi que não era nada daquilo. […] Conseguimos rampas, elevador que não tinha também. No Theatro José de Alencar, um funcionário me botou no braço para subir para o segundo andar. Agora eles fizeram um elevador.”

De volta a Maranguape, ela segue à frente do Templo da Poesia – Residência Artística, Ponto de Cultura, vinculado à Economia Solidária, e insiste que o cotidiano da PcD é também um exercício permanente de proposição:

“Em tudo a gente tem que estar propondo o que pode ser bom pra gente e pode ser bom também para outras pessoas.”

Ao final do programa, Reginaldo, “voz da consciência” que aparecia fora de quadro, tomou o microfone para defender que os homens têm muito a aprender com as mulheres no trabalho de cuidado e para ler um poema escrito originalmente para a filha, mas que acabou dialogando com toda a pauta daquele dia. Em um dos versos, ele sintetiza a utopia que atravessa a Economia Solidária e a luta das PcDs:

“Esse mundo diferente já está dentro da gente.”

Autonomia, não heroísmo

Entre uma intervenção e outra, Sara lembrou que a Economia Solidária, mais do que uma forma alternativa de geração de renda, é um campo político que disputa sentidos para trabalho, consumo, cuidado e cidade. Ao abrir espaço para PcDs, mães atípicas, cuidadoras e coletivos de base, o Bancos da Democracia mostrou que inclusão não é caridade nem heroísmo individual, mas direito, política pública e prática cotidiana.

Falar de acessibilidade na Economia Solidária, como deixaram claro Ana Paula, Joana e Ana Lourdes, é falar de:

desenho universal de políticas, editais e programas de fomento;
projetos específicos para PcDs e suas famílias;
formação acessível, tecnologias assistivas e apoio técnico;
combate ao capacitismo e ao preconceito religioso ou moral;
reconhecimento de que cuidar também é trabalho e precisa ser cuidado.

A luta, como lembrou o programa, é grande. Mas ela já está em curso — nos grupos de costura do Pará, nas redes de poesia de Maranguape, nos fóruns de Economia Solidária, nas famílias que se reorganizam depois de um acidente, na caneta de quem elabora políticas públicas. E também nas rádios e TVs comunitárias que se recusam a tratar pessoas com deficiência como “minorias invisíveis” e as convocam a ocupar o centro do debate.

📺 Programa Bancos da Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 8h30 às 9h30
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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