Eduardo Bolsonaro mira o Itamaraty e projeto de Flávio prevê realinhamento do Brasil aos Estados Unidos

Da Redação

Ex-deputado pretende assumir o Ministério das Relações Exteriores caso o irmão vença a eleição presidencial. A hipótese é coerente com posições já apresentadas pela candidatura de Flávio Bolsonaro, que propõe aproximação estratégica com Washington e Israel e saída do BRICS, mas uma eventual nomeação dependeria exclusivamente do presidente eleito e ainda não está formalmente definida.

A possibilidade de Eduardo Bolsonaro assumir o Ministério das Relações Exteriores em um eventual governo de Flávio Bolsonaro acrescenta uma dimensão concreta à disputa sobre qual será a posição do Brasil no sistema internacional depois das eleições de outubro. Segundo informação publicada pela coluna de Lauro Jardim e repercutida neste domingo (13) pelo Brasil 247, o ex-deputado pretende ocupar o comando do Itamaraty caso o irmão chegue ao Palácio do Planalto. A informação descreve uma intenção de Eduardo, não uma nomeação acertada ou consumada.

A hipótese, entretanto, não aparece isoladamente. Ela coincide com posições de política externa apresentadas pela própria candidatura de Flávio. Levantamento publicado neste domingo pela Folha de S.Paulo sobre as propostas dos presidenciáveis registra que Flávio defende alinhamento estratégico com Estados Unidos e Israel, retirada do Brasil do BRICS e retomada do processo de adesão à OCDE. Em outros momentos da campanha, o candidato também falou em ampliar a cooperação com Washington na área de minerais estratégicos e manifestou oposição ao crescimento da influência chinesa.

Uma eventual nomeação de Eduardo, portanto, teria significado maior do que uma simples troca de chanceler. Se as propostas atualmente defendidas fossem efetivamente implementadas, representariam uma mudança substancial em relação à política externa praticada pelo governo Lula e também alterariam alguns dos eixos históricos da diplomacia brasileira, tradicionalmente baseada na diversificação de parceiros, no multilateralismo e na tentativa de preservar margem de autonomia diante das grandes potências. O tamanho dessa mudança, porém, dependeria das decisões efetivamente tomadas por um eventual governo, e não apenas da identidade do ministro.

A relação de Eduardo com os Estados Unidos é central para compreender por que seu nome produz repercussão. Radicado nos EUA, o ex-deputado construiu canais com setores da direita norte-americana e tornou Washington uma plataforma importante de sua atuação política. Ainda nesta semana, afirmou que voltará à capital americana para conversar sobre a possibilidade de retomada de sanções da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes. Eduardo falou em “convergência de interesses”, mas não identificou seus interlocutores; portanto, não é possível afirmar, a partir dessa declaração, que as reuniões serão necessariamente com integrantes do governo Trump.

Essa atuação já provocou controvérsia política e jurídica. Eduardo foi condenado por coação no curso do processo em caso relacionado à sua articulação nos Estados Unidos durante a pressão tarifária sobre o Brasil, embora negue irregularidades. Ele também aparece nas investigações sobre o financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro: a apuração examina repasses feitos por Daniel Vorcaro a um fundo nos Estados Unidos administrado por pessoa próxima a Eduardo. André Mendonça homologou nesta semana a colaboração de Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado como participante dos repasses ao fundo. A homologação de uma colaboração, assim como a existência de uma investigação, não comprova por si só as acusações apresentadas pelo colaborador.

A aproximação política dos irmãos Bolsonaro com Washington também já interferiu na campanha. Em julho, Flávio e Eduardo participaram nos Estados Unidos de uma audiência sobre tarifas aplicadas ao Brasil. Na ocasião, Flávio argumentou que a sobretaxa poderia acabar fortalecendo Lula politicamente e defendeu uma negociação entre os dois governos. A participação dos irmãos foi criticada pelo governo e por representantes do setor produtivo, enquanto Flávio sustentou que viajava para defender os interesses econômicos brasileiros.

Há, inclusive, diferenças públicas entre os dois irmãos. Em entrevista ao Jornal Nacional, Flávio afirmou que Eduardo errou ao agradecer a Trump pela imposição de tarifas contra produtos brasileiros. O candidato, entretanto, rejeitou a acusação de que o irmão fosse responsável pelas medidas e atribuiu a decisão exclusivamente ao governo norte-americano. Essa divergência é importante porque impede tratar automaticamente todas as posições de Eduardo como programa oficial de Flávio.

A questão mais relevante passa a ser, portanto, o conteúdo da política externa defendida pela candidatura. Uma eventual saída do BRICS teria consequências que ultrapassariam a diplomacia simbólica. O grupo reúne alguns dos maiores parceiros comerciais do Brasil e tornou-se uma plataforma de cooperação financeira, energética e tecnológica entre economias emergentes. A China, além de integrante central do BRICS, ocupa posição decisiva no comércio exterior brasileiro. Deixar a organização não significaria necessariamente romper relações econômicas com Pequim, mas retiraria o Brasil de um dos principais fóruns em que participa da reorganização da governança internacional.

O movimento em direção aos Estados Unidos ocorreria justamente quando Washington procura ampliar sua influência sobre áreas estratégicas brasileiras. Minerais críticos, infraestrutura digital, inteligência artificial, big techs, segurança regional e cadeias de semicondutores passaram a ocupar posição crescente na agenda bilateral. Uma eventual parceria mais estreita pode produzir investimentos, acesso a mercados e cooperação tecnológica; ao mesmo tempo, seus termos concretos determinariam quanto controle permaneceria com o Brasil sobre recursos e infraestruturas considerados estratégicos. A própria cobertura sobre as propostas dos candidatos identifica minerais críticos, China, BRICS e regulação das plataformas digitais entre os grandes temas internacionais que o próximo governo enfrentará.

É nesse ponto que a eventual presença de Eduardo no Itamaraty adquiriria significado estratégico. Um chanceler não define sozinho a política externa: constitucionalmente, a orientação fundamental parte da Presidência da República, e a execução depende de uma estrutura diplomática profissional com interesses permanentes de Estado. Mas o ministro possui capacidade relevante para definir prioridades, interlocutores, linguagem diplomática e ritmo das negociações internacionais.

Também seria necessário observar como uma eventual administração conciliaria aproximação política com Washington e interesses econômicos brasileiros que apontam em várias direções. Estados Unidos continuam sendo parceiros fundamentais do Brasil, particularmente em investimentos e setores tecnológicos. A China, por sua vez, possui peso extraordinário no comércio brasileiro. União Europeia, Mercosul, Índia, Oriente Médio e demais economias asiáticas completam uma estrutura externa muito mais diversificada do que a existente algumas décadas atrás. Qualquer realinhamento diplomático teria de lidar com essa realidade material.

A eleição de 2026, assim, coloca diante do eleitorado projetos bastante diferentes de inserção internacional. Lula defende BRICS, Mercosul, multilateralismo e maior aproximação com o Sul Global, enquanto Flávio propõe maior alinhamento com Estados Unidos e Israel e a retirada brasileira do BRICS. Essas são propostas políticas em disputa, cujos custos e benefícios dependem de como seriam implementadas.

A informação de que Eduardo pretende comandar o Itamaraty torna essa divergência mais visível, mas ainda existe uma distância entre intenção pessoal, decisão eleitoral e política de governo. Flávio Bolsonaro precisaria primeiro vencer a eleição; depois, decidir se realmente nomearia o irmão; e somente então seria possível saber até que ponto as posições defendidas durante a campanha seriam convertidas em decisões concretas da diplomacia brasileira.

O que já está claro é que política externa deixou de ocupar posição periférica na eleição presidencial. BRICS ou afastamento do bloco, relação com China e Estados Unidos, minerais críticos, sanções, tarifas e autonomia diplomática passaram a fazer parte da própria disputa sobre qual posição o Brasil pretende ocupar num sistema internacional em rápida transformação.