Atitude Popular

“Eles não têm apenas um projeto religioso, têm um projeto político”

Romero Venâncio analisa a atuação da extrema direita católica nas redes digitais, o tradicionalismo juvenil, a disputa dentro da Igreja e os impactos políticos desse movimento no Brasil


A extrema direita católica nas redes digitais foi o tema da edição do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, com apresentação de Sara Goes, comentários de Fábio Sobral e participação do professor de filosofia Romero Venâncio, da Universidade Federal de Sergipe. A entrevista discutiu como setores conservadores ligados ao catolicismo têm utilizado plataformas digitais para ampliar influência política, formar militância religiosa e tensionar instituições tradicionais da Igreja, como a CNBB.

Romero Venâncio, pesquisador da relação entre religião, democracia e extrema direita, afirmou que o fenômeno não pode ser tratado apenas como uma onda de devoção ou retorno à fé. Para ele, há uma articulação ideológica, estética, financeira e política por trás da presença crescente de influenciadores, padres e grupos tradicionalistas no ambiente digital.

“Eles não têm apenas um projeto teológico, eles não têm apenas um projeto religioso. A direita católica também tem um projeto político”, afirmou o professor.

Segundo Romero, uma das marcas desse movimento é o que ele chama de “tradicionalismo juvenil”, expressão que, em outras décadas, pareceria contraditória, mas que hoje descreve uma parcela de jovens atraídos por símbolos, práticas e discursos anteriores ao Concílio Vaticano II.

“Há uma juventude que, e não é só no Brasil, é tradicionalista. Uma das características do tradicionalismo é a volta a uma experiência de Igreja pré-Concílio Vaticano II”, explicou.

Essa juventude, segundo ele, busca segurança em práticas como a missa tridentina, a hóstia na boca, o uso do véu, o rosário e uma concepção rígida de família e sexualidade. Romero ressaltou, porém, que não se trata de um fenômeno espontâneo ou isolado.

“Essa juventude encontra apoio numa certa Igreja Católica. Você tem padres tradicionalistas, bispos tradicionalistas. Então se cria um caldo cultural”, analisou.

Um dos pontos centrais da entrevista foi a capacidade desses grupos de combinar um conteúdo ultraconservador com uma atuação extremamente moderna nas redes sociais. Romero destacou que influenciadores e organizações católicas tradicionalistas utilizam equipamentos profissionais, domínio de plataformas, monetização, cursos, livrarias, canais fechados e comunidades fidelizadas.

“O discurso deles é conservador, mas o meio que eles utilizam é o mais avançado. Eles usam a melhor internet, a melhor câmera, o melhor som”, disse.

Para o professor, essa profissionalização ajuda a explicar por que a extrema direita chegou antes e com mais força ao ambiente digital. Ele citou grupos como o Centro Dom Bosco, o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira e o Instituto Borborema, além de figuras como padre Paulo Ricardo, Bernardo Küster, Frei Gilson e irmã Kelly Patrícia como parte de seu campo de observação acadêmica.

A pesquisa de Romero tem como recorte o período de 2013 a 2023. Segundo ele, 2013 é um ano decisivo por reunir dois acontecimentos fundamentais: as Jornadas de Junho, que abriram espaço para uma nova direita nas ruas e nas redes, e a chegada do Papa Francisco ao comando da Igreja Católica.

“O Papa Francisco será o foco de reação da extrema direita. Essa extrema direita tem sua carteira de identidade depois de 2013”, afirmou.

Romero também destacou a influência de Olavo de Carvalho sobre esse campo. Para ele, Olavo ofereceu “régua e compasso” para parte da direita católica tradicionalista, ajudando a estruturar uma linguagem anticomunista, antimoderna e antipetista.

O professor avaliou que esses setores apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff e viram na eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, uma alternativa ao PT e ao que chamam de comunismo.

“Bolsonaro era a alternativa a Lula. Bolsonaro era a alternativa ao comunismo. Eles são anticomunistas, antipetistas, veem comunista até debaixo da cama”, disse.

Na entrevista, Romero também chamou atenção para o papel de Damares Alves no governo Bolsonaro. Segundo ele, a ex-ministra foi subestimada por adversários políticos, mas tinha uma estratégia eficiente de atuação junto a setores religiosos conservadores.

“Para mim, ela era a figura mais inteligente daquele governo. Damares fez o trabalho”, afirmou.

O debate também abordou a canonização de Carlo Acutis, apresentado por setores da Igreja como uma espécie de “santo da juventude” e associado à internet. Romero afirmou que Acutis oferecia ao Vaticano um perfil simbólico muito forte: jovem, devoto, ligado à pesquisa sobre milagres eucarísticos e morto precocemente de leucemia.

“Para os marqueteiros do Vaticano, ele era um prato cheio. E foi. E está sendo”, avaliou.

Outro ponto discutido foi a diferença entre padres celebridades, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo, e os influenciadores da extrema direita católica. Para Romero, esses nomes pertencem a uma fase anterior.

“Eles são pré-extrema direita católica. Não são renovação carismática e ainda não são extrema direita católica. São celebridades católicas”, explicou.

Romero afirmou que esses padres não representam o núcleo mais radical do movimento tradicionalista e, em muitos casos, são rejeitados pela própria extrema direita católica.

“A extrema direita católica odeia eles. Eles não são a pior coisa na Igreja”, disse.

Fábio Sobral, comentarista do programa, relacionou o crescimento desses movimentos à crise de pertencimento provocada por décadas de neoliberalismo, individualismo e fragmentação social. Para ele, a extrema direita explora a necessidade humana de comunidade e pertencimento, oferecendo uma forma de tribalização política e religiosa.

“As pessoas vão e se juntam porque querem ser participantes de algo. Você explora essa necessidade humana para um objetivo político”, afirmou.

Na parte final da entrevista, Romero apontou que também há sinais de reação progressista dentro do catolicismo. Ele citou o padre e teólogo cearense Francisco Aquino Júnior como uma das principais referências contemporâneas da teologia da libertação no Brasil.

“Eu diria que há um pequeno renascimento da teologia da libertação no Brasil hoje por conta do crescimento de uma extrema direita católica”, afirmou.

Para Romero, a disputa religiosa no Brasil não pode ser separada da disputa política. A atuação da extrema direita católica nas redes digitais, segundo ele, mostra que a fé também se tornou campo de batalha simbólica, eleitoral e ideológica.


Referências

“O novo rosto do clero: Perfil dos padres novos no Brasil”
Agenor Brighenti. Editora Vozes, 2021

“Junho de 2013: A rebelião fantasma”
Breno Altman (org.). Boitempo Editorial, 2014

“Quem pagou a conta? A CIA na guerra fria da cultura”
Frances Stonor Saunders. Record, 2008

“Guerra cultural e retórica do ódio: Crônicas de um Brasil pós-político”
João Cezar de Castro Rocha. Caminhos, 2021

“Teologia da libertação: Novas e velhas gerações”
Francisco Aquino Júnior (org.). Paulinas, 2023

“Como a China escapou da terapia de choque”
Isabella Weber. Boitempo Editorial, 2021

“A macroeconomia da Federação Russa: do tratamento de choque à recuperação nacionalista – uma interpretação heterodoxa”
Franklin Serrano e Numa Mazat. Revista Tempo do Mundo, 2017

13º Encontro Nacional Fé e Política, “Fortalecer a Democracia, o Esperançar e o Bem Viver”
24 a 26 de abril em São Bernardo do Campo, ABC, SP
https://fepolitica.org.br/13-encontro-nacional/


📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
📲✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O

compartilhe: