Presidente Lula defende a reeleição de Elmano, vincula disputa estadual à eleição nacional e cobra renovação do Senado durante convenção governista em Fortaleza
Da Redação
A convenção partidária que oficializou a candidatura de Elmano de Freitas à reeleição ao Governo do Ceará transformou-se, na noite desta sexta-feira, 31, em uma demonstração de unidade da base governista e no primeiro grande ato eleitoral do Presidente Lula no estado. Diante da militância reunida no Centro de Eventos do Ceará, Lula pediu votos para Elmano e Cid Gomes, associou diretamente as eleições estadual e nacional e afirmou que pretende impedir o retorno da extrema direita ao comando do país.
As declarações foram feitas durante discurso transmitido pelo canal da Atitude Popular no YouTube. Antes dele, Elmano apresentou Gabriella Aguiar como candidata a vice-governadora, confirmou Cid Gomes na disputa pelo Senado e concentrou sua fala na defesa das políticas de educação, saúde, emprego e segurança desenvolvidas por seu governo e pelas gestões anteriores do mesmo grupo político.
Lula evitou dedicar o discurso à própria candidatura, que ainda passará por atos nacionais de lançamento. No Ceará, preferiu assumir o papel de principal cabo eleitoral da chapa governista.
“Hoje é a convenção do Elmano, a convenção do Cid, a convenção da chapa. Eu vou pedir voto para cada um deles”, declarou.
O Presidente Lula apresentou uma orientação clara para a campanha. Em sua avaliação, candidatos à reeleição não devem sustentar seus discursos apenas em promessas, mas demonstrar o que já realizaram.
“Quem é governador e quem é presidente não pode fazer uma campanha falando apenas do futuro, fazendo promessa, sem convencer as pessoas daquilo que já foi feito. O que faz um candidato à reeleição ter credibilidade não é o que ele vai prometer, é o que ele já fez”, afirmou.
Lula une as campanhas nacional e estadual
O Presidente Lula defendeu que a campanha no Ceará trate a eleição nacional e a estadual como partes de um mesmo projeto. Segundo ele, os candidatos da base precisam apresentar à população as ações realizadas em parceria pelos governos federal e estadual.
“Quem vota no Lula vota no Cid. Quem vota no Cid vota no Lula. Quem vota no Lula vota no Elmano. Quem vota no Elmano vota no Lula”, disse.
A estratégia também foi defendida por Elmano. O governador afirmou que a disputa terá dois campos políticos principais e convocou a militância a repetir a mobilização de 2022, quando iniciou a campanha com baixos índices nas pesquisas e venceu no primeiro turno.
Elmano declarou que pretende garantir ao Presidente Lula a maior votação já recebida por ele no Ceará. “A eleição é no Brasil e é no Ceará. O Ceará vai eleger o time de Lula, o time de Elmano, o time de Camilo e o time de Cid”, afirmou.
Gabriella Aguiar é apresentada como candidata a vice
Elmano interrompeu a sequência inicialmente prevista dos discursos para chamar ao palco a atual vice-governadora Jade Romero e, depois, apresentar Gabriella Aguiar como sua nova companheira de chapa.
Ao agradecer a Jade, o governador dirigiu uma mensagem à militância que defendia maior participação feminina na composição governista.
“Nós acreditamos nas mulheres nos espaços de decisão política, como vice-governadora, como secretária das Mulheres, como secretária da Proteção Social. Não é para enfeitar cargo, é para tomar decisão em favor do povo”, declarou.
Na sequência, apresentou Gabriella como “jovem médica” e agradeceu por ela ter aceitado integrar a chapa. Atual vice-prefeita de Fortaleza, Gabriella Aguiar é filha do ex-vice-governador Domingos Filho e pertence ao PSD.
A fala ocorreu em meio ao impasse sobre a segunda candidatura governista ao Senado. Embora Cid Gomes tenha sido apresentado como candidato, o outro nome da chapa não foi anunciado durante a convenção.
Lula fala em candidato “invisível” ao Senado
O Presidente Lula tratou publicamente da vaga ainda indefinida. Sem mencionar nomes, afirmou que trabalhará pela eleição de Cid Gomes e do segundo candidato que vier a ser escolhido.
“O que eu puder fazer para eleger esse companheiro, eu vou fazer. E o que eu puder fazer para eleger o outro senador, que ainda não está aqui, porque eu não sei quem é, eu vou fazer. Tem um senador que está invisível, mas vai aparecer”, declarou.
A afirmação foi recebida como uma referência direta à disputa interna da base governista pela segunda vaga. A deputada federal Luizianne Lins conta com apoio de setores do PT e de parte expressiva da militância, mas ainda não foi confirmada na chapa.
Lula justificou a preocupação com a composição do Senado ao afirmar que a Casa precisa ser renovada para permitir a aprovação de projetos apresentados pelo governo.
“Nós precisamos de senador. O Senado tem metade apodrecida e nós precisamos fazer o Senado fazer as coisas corretas”, afirmou.
Educação domina o discurso de Lula
A educação ocupou a maior parte da fala presidencial. Lula relacionou a instalação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica no Ceará ao desempenho educacional do estado e recordou a criação da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas.
Segundo o presidente, a escolha do Ceará para receber a nova unidade do ITA não ocorreu por amizade com dirigentes políticos locais, mas pelo reconhecimento da capacidade demonstrada por estudantes e educadores cearenses.
“Eu não trouxe o ITA para cá pela minha amizade com Camilo, com Cid ou com Elmano. Eu trouxe em respeito à competência do povo cearense”, afirmou.
Lula relatou que a expansão das olimpíadas científicas para as escolas públicas nasceu após um encontro com estudantes premiados do Ceará e do Piauí. Para ele, os resultados ajudaram a enfrentar o preconceito contra a capacidade intelectual dos alunos nordestinos.
“Essa coisa marcou muito a minha vida, tentar provar para o Brasil que o Nordeste não era inferior a ninguém”, declarou.
O presidente também criticou setores das elites políticas e econômicas por terem restringido historicamente o acesso de trabalhadores à educação.
“Eu tenho pena da elite brasileira. Eles esperaram mais de 500 anos para que fosse necessário um metalúrgico sem diploma universitário fazer pela educação aquilo que eles tinham obrigação de fazer e não fizeram”, disse.
Em outro momento, afirmou que governar exige uma definição de prioridades sociais.
“Ninguém governa porque tem título universitário. Governar é definir de que lado você está, quem são aqueles que você precisa priorizar. É tomar decisão”, declarou.
Presidente defende investimentos em universidades e institutos federais
Lula afirmou que pretende ampliar o número de universidades, institutos federais e cursos nas áreas de engenharia, matemática e inteligência artificial. Segundo ele, o investimento em educação deve ser tratado como parte de uma política de desenvolvimento e soberania.
“Fazer universidade não é gastar. Fazer Instituto Federal não é gastar. É investir”, afirmou.
O presidente também voltou a defender o Pé-de-Meia, programa federal que oferece incentivo financeiro a estudantes do ensino médio público. Lula atribuiu a criação da política a uma sugestão do ministro da Educação, Camilo Santana, diante do número de jovens que abandonavam os estudos para ajudar na renda familiar.
Dados oficiais divulgados pelo governo federal em abril de 2026 indicam que o programa atendia aproximadamente 391 mil estudantes no Ceará e que o abandono escolar no estado havia caído 36% após dois anos da iniciativa.
“Não vamos deixar essa meninada ir para o crime organizado por falta de oportunidade. Vamos pagar um auxílio para que eles estudem”, afirmou Lula.
Elmano apresenta educação como marca do grupo governista
Elmano também recorreu à trajetória familiar para defender os investimentos públicos em educação. Disse que o avô nunca frequentou uma escola e que o pai estudou somente até o quarto ano primário porque precisou trabalhar.
O governador afirmou que a expansão das escolas de tempo integral e do acesso ao ensino superior representa uma mudança concreta na vida das famílias de baixa renda.
“O Ceará é forte quando o filho da trabalhadora doméstica entra na faculdade. O Ceará é forte quando o filho do agricultor entra na faculdade. O Ceará é forte quando as pessoas melhoram de vida”, declarou.
Elmano atribuiu a expansão educacional a uma sequência de administrações iniciada por Cid Gomes, continuada por Camilo Santana e Izolda Cela e mantida em seu governo.
“Todos os jovens do Ceará vão estudar em uma escola de tempo integral. Nós temos que nos orgulhar disso”, disse.
Saúde pública aparece nos relatos pessoais
Ao tratar da saúde, Elmano recordou que seu pai perdeu a mãe porque a família não tinha dinheiro para pagar uma cirurgia. O governador relacionou a experiência pessoal à construção de hospitais regionais no interior do estado.
“A vida da minha família é a vida das famílias cearenses. Meu pai chorou porque não tinha dinheiro para pagar a cirurgia da minha avó, como tantas pessoas também não tinham”, afirmou.
Elmano citou o atendimento de uma criança do Crato que nasceu com uma cardiopatia grave e precisará passar por quatro cirurgias no Hospital Universitário do Ceará. Segundo o governador, os procedimentos custariam cerca de R$ 2 milhões na rede privada.
Ele também mencionou os hospitais regionais de Itapipoca e Acaraú e as unidades em construção ou conclusão em Crateús, Baturité e Iguatu.
Lula reforçou o tema ao relatar uma visita realizada no Rio de Janeiro a unidades móveis de saúde e atendimento odontológico. O presidente defendeu o Brasil Sorridente e afirmou que a recuperação dos dentes não envolve apenas alimentação, mas convivência social, autoestima e dignidade.
“Só sabe o que significa não ter dentes quem é pobre e passou por isso. É dar uma prótese com respeito para a pessoa sorrir, comer, conversar e não ter vergonha de rir”, declarou.
Segurança pública entra no centro da campanha
Lula afirmou que pretende apresentar durante a campanha uma proposta de maior participação do governo federal na segurança pública. Ele citou a PEC da Segurança Pública, aprovada pela Câmara dos Deputados em março de 2026 e encaminhada ao Senado. O texto amplia a coordenação nacional das políticas do setor e estabelece novas competências para a União.
O presidente declarou que, após a aprovação da proposta, pretende criar o Ministério da Segurança Pública.
“O dia em que for aprovada a PEC, eu anuncio a criação do Ministério da Segurança Pública para que o governo tenha uma atuação mais forte”, disse.
Lula afirmou que a prioridade deve ser o enfrentamento aos responsáveis pelo financiamento e comando das organizações criminosas, e não apenas operações policiais nas periferias.
“Não é para matar pobre. Nós queremos combater o crime organizado, o responsável pela venda de drogas, pela roubalheira e pelo contrabando”, afirmou.
A proposta aprovada pela Câmara seguiu para análise do Senado, conforme informação oficial da própria Casa legislativa.
O presidente também citou o programa Celular Seguro, criado para bloquear aparelhos roubados ou furtados e dificultar sua revenda.
Elmano, por sua vez, afirmou que o Ceará ampliou a contratação de policiais, os serviços de inteligência, a atuação da Polícia Civil e o uso de tecnologia. Segundo ele, o estado registrou redução nos indicadores de violência, embora ainda enfrente níveis elevados de criminalidade.
Obras federais ganham destaque
Lula disse que pretende voltar ao Ceará para inaugurar duas obras consideradas prioritárias: a Ferrovia Transnordestina e o Cinturão das Águas.
“Eu só vou me sentir realizado quando puder vir aqui definitivamente inaugurar o Cinturão das Águas e a Transnordestina”, declarou.
O governo federal havia estabelecido como meta a conclusão do principal trecho da Transnordestina entre o fim de 2026 e o início de 2027. Um relatório do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional registrava, ao final de 2025, execução próxima de 90% na primeira etapa do Cinturão das Águas, com previsão de entrada em operação em 2026.
O presidente também afirmou que analisará a construção de dois trechos rodoviários reivindicados por lideranças cearenses. Uma das obras citadas teria 145 quilômetros e custo estimado em R$ 1 bilhão.
“Enquanto eu for presidente, o Ceará não sairá do mapa do Brasil. O Ceará não perderá importância”, afirmou.
Política para pessoas idosas será apresentada na campanha
Lula anunciou ainda que pretende apresentar uma política nacional voltada às pessoas idosas. Segundo ele, o projeto deverá criar espaços de convivência com atividades culturais, leitura, dança, lazer e acompanhamento adequado.
“Eu não quero um lugar para confinar pessoas idosas. Quero um lugar para elas ganharem vida, com acesso à música, teatro, cinema, dança e leitura”, disse.
Ao falar sobre a própria idade, o presidente relacionou disposição física à permanência de uma causa política.
“Na minha cabeça, só fica velho quem não tem uma causa. Se a gente tiver uma motivação para lutar todos os dias, a gente não envelhece”, declarou.
Lula endurece discurso contra extrema direita e Trump
Na parte final do discurso, Lula elevou o tom contra a extrema direita e mencionou nominalmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente argentino, Javier Milei.
“Enquanto eu viver, a extrema direita não voltará a governar este país. Que venha ajudar quem quiser. Se quiser vir o Trump, que venha. Se quiser vir o Milei, que venha”, afirmou.
O Presidente Lula disse que não pretende buscar apoio externo para a campanha e que sua sustentação política virá dos eleitores brasileiros.
“Eu não quero ajuda de fora. A única ajuda que eu quero é a ajuda do povo brasileiro para manter a democracia deste país”, declarou.
O discurso terminou com uma defesa explícita da reeleição de Elmano e uma advertência aos adversários da chapa governista no Ceará.
“O que eu puder fazer para eleger esse companheiro, eu vou fazer. Enquanto eu for presidente, neste estado nenhum fascista mete a mão”, afirmou.
Antes de Lula, Elmano havia apresentado a disputa como um confronto entre realizações administrativas e ataques políticos. Ao convocar a militância para a campanha, o governador repetiu que a estratégia será vincular sua candidatura à do presidente.
O silêncio em torno de Luizianne
A ausência do nome de Luizianne Lins nos discursos de Elmano e do Presidente Lula chamou atenção em uma convenção que apresentou Cid Gomes como candidato ao Senado e deixou aberta a segunda vaga da chapa governista. A deputada federal não foi mencionada, embora sua candidatura tenha sido oficializada pela Rede Sustentabilidade na quinta-feira, 30, um dia antes do encontro no Centro de Eventos.
Durante a convenção da Rede, Luizianne afirmou que não abrirá mão da disputa, mesmo sem a confirmação de que será incorporada à chapa de Elmano. O partido também condicionou seu apoio à reeleição do governador ao respaldo à candidatura da parlamentar ao Senado.
No discurso de Elmano, a formação da chapa foi apresentada com Cid Gomes como candidato, mas sem qualquer referência à ex-prefeita de Fortaleza. Lula seguiu pelo mesmo caminho. Ao tratar da vaga ainda indefinida, recorreu à expressão “senador invisível”, sem dizer se defendia Luizianne ou outro nome.
O silêncio ganha peso diante da trajetória política compartilhada por Luizianne e Elmano. Ele foi secretário municipal da Educação durante a gestão dela na Prefeitura de Fortaleza, coordenou sua campanha de reeleição em 2008 e foi lançado por Luizianne como candidato à sucessão municipal em 2012. Em 2016, os dois voltaram a formar uma chapa, com Luizianne candidata a prefeita e Elmano a vice.
A omissão também contrasta com a mobilização promovida por setores da esquerda cearense em defesa da candidatura. A postulação de Luizianne conta com apoio de parte da militância petista, de movimentos sociais e de dirigentes que cobram uma representação mais claramente vinculada ao campo progressista na segunda vaga ao Senado.
Ao não mencionar Luizianne, Lula evitou intervir publicamente em uma negociação ainda em curso dentro da base governista. A escolha preserva, por enquanto, a unidade formal da aliança, mas não elimina o conflito. A candidatura já foi oficializada, e a Rede afirma que Luizianne disputará a eleição com ou sem o apoio de Elmano.
Assim, enquanto Cid Gomes ocupou o palco como candidato confirmado, Luizianne apareceu no evento pela ausência. O segundo nome da chapa permanece indefinido, mas deixou de ser uma questão secundária e passou a representar uma das principais tensões da campanha governista no Ceará.
A convenção consolidou a aliança entre PT, PSB e os demais partidos da base de Elmano, confirmou Cid Gomes como candidato ao Senado e oficializou Gabriella Aguiar na vaga de vice. A principal indefinição continua sendo o segundo nome governista para o Senado, tratado por Lula como um candidato que, por enquanto, permanece “invisível”.
Organização é alvo de críticas entre participantes
Apesar da grande mobilização e da presença de milhares de pessoas no Centro de Eventos do Ceará, a organização da convenção foi alvo de críticas de parte do público que acompanhou o ato.
Relatos de participantes apontam que o evento, marcado para as 17 horas, começou com grande atraso. O presidente Lula iniciou seu discurso apenas por volta das 21 horas, o que obrigou muitas pessoas a permanecerem em pé durante mais de três horas de espera.
A demora também afetou a permanência do público. Caravanas que vieram do interior e de bairros da periferia em ônibus fretados começaram a deixar o Centro de Eventos enquanto Lula ainda discursava, em razão dos horários previamente combinados para o retorno.

