Depoimento usado para sustentar suposta armação contra Alfredo Gaspar partiu de bolsonarista que já atribuiu falsamente a Lindbergh Farias participação no atentado de 2018
Da Redação
A acusação de estupro de vulnerável contra o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, ganhou um novo capítulo com a divulgação do depoimento de um homem que afirma ter existido uma armação para incriminar o parlamentar. O relato foi compartilhado por Carlos e Eduardo Bolsonaro como prova de que Gaspar teria sido vítima de uma operação política.
O caso, porém, está longe de esclarecido. Conforme revelou a Revista Fórum, o autor do depoimento, Luiz Antônio Lopes, é um apoiador de Jair Bolsonaro que já divulgou outras acusações sem fundamento, entre elas a afirmação falsa de que o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) teria sido um dos mandantes do atentado a faca sofrido por Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018.
Há, portanto, duas apurações diferentes em curso. Uma trata da suspeita de estupro de vulnerável atribuída a Alfredo Gaspar. A outra envolve a alegação de que essa denúncia teria sido fabricada para atingir o deputado. Até agora, nenhuma das duas versões foi comprovada pelas autoridades.
Como surgiu a acusação contra Alfredo Gaspar
Em março, Lindbergh Farias e a senadora Soraya Thronicke apresentaram uma notícia-crime à Polícia Federal após receberem o relato de que Alfredo Gaspar teria estuprado e engravidado uma adolescente que, na época dos fatos, teria 13 anos.
Os parlamentares também pediram a investigação da informação de que pessoas ligadas a Gaspar teriam pago R$ 70 mil e negociado outros R$ 400 mil para assegurar o silêncio sobre o caso. A apresentação de uma notícia-crime não significa que os autores tenham confirmado a ocorrência do delito. Trata-se de uma comunicação formal para que as autoridades verifiquem se existem elementos que justifiquem a abertura ou o prosseguimento de uma investigação.
Como Gaspar é deputado federal e possui foro por prerrogativa de função, o caso foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal. O ministro Gilmar Mendes ficou responsável pela relatoria e solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República. A Polícia Federal pediu autorização para realizar diligências.
Gaspar nega a acusação e afirma ser vítima de uma denúncia falsa. Sua defesa disponibilizou material genético para a realização de exame de DNA e pediu à PGR e ao STF rapidez na conclusão da apuração. O deputado também apresentou ações contra Lindbergh e Soraya por crimes como calúnia e denunciação caluniosa.
De onde veio a versão da armação
A narrativa de que a acusação teria sido inventada surgiu a partir de Luiz Antônio Lopes. Ele procurou o gabinete de Alfredo Gaspar e afirmou possuir informações sobre uma operação organizada para atribuir falsamente o estupro ao deputado.
Luiz prestou depoimento à Polícia Legislativa da Câmara em abril. Segundo sua versão, uma mulher chamada Marcela Maria Mendes teria recebido dinheiro para se apresentar a uma jornalista com o nome falso de Jailma. Ela deveria dizer que havia sido abusada sexualmente por um político durante a adolescência e que uma criança teria nascido em consequência desse crime.
O depoente declarou que foram pagos R$ 16,5 mil para sustentar a narrativa. O relatório remetido ao STF, entretanto, contém dois comprovantes de transferências, um de R$ 10 mil e outro de R$ 2,5 mil, realizados em nome de terceiros. Os documentos demonstram que houve pagamentos, mas, isoladamente, não comprovam quem determinou as transferências nem qual teria sido sua finalidade.
Luiz atribuiu parte do dinheiro ao presidente da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais, Carlos Roberto Ferreira Lopes, investigado pela CPMI do INSS. A defesa do dirigente negou qualquer participação no financiamento de uma acusação falsa e informou que pretende prestar esclarecimentos à Polícia Federal.
Por que Lindbergh questiona o depoente
Lindbergh afirma que as declarações de Luiz Antônio Lopes são “absolutamente falsas”. O parlamentar pediu ao STF a suspensão da apuração conduzida pela Polícia Legislativa, sob o argumento de que o órgão teria ultrapassado suas atribuições.
Aliados do deputado petista apresentam uma versão diferente para a participação de Luiz no caso. Segundo eles, foi o próprio homem quem procurou pessoas ligadas à CPMI do INSS dizendo conhecer a suposta vítima e possuir elementos capazes de comprovar a acusação contra Gaspar. Depois, ele teria modificado o relato e procurado diferentes envolvidos em busca de dinheiro.
A credibilidade do depoente também passou a ser questionada pela existência de vídeos anteriores nos quais ele atribui a Lindbergh participação no atentado contra Jair Bolsonaro. A investigação oficial sobre o ataque de 2018 não encontrou qualquer vínculo do deputado petista com o crime.
Procurado pela Folha de S.Paulo, Luiz não respondeu às mensagens nem às ligações. A ausência de sua manifestação impede que ele esclareça as mudanças apontadas entre os relatos e a relação entre os pagamentos apresentados e a suposta armação.
Por que Carlos e Eduardo Bolsonaro entraram no caso
Carlos e Eduardo Bolsonaro divulgaram o depoimento de Luiz como evidência de uma operação política contra Alfredo Gaspar. A movimentação procura proteger o candidato a vice de Flávio Bolsonaro em um momento no qual a acusação de estupro passou a acompanhar publicamente a chapa do PL.
A divulgação, no entanto, apresenta como conclusão aquilo que ainda é uma hipótese investigada. O depoimento não encerra a suspeita contra Gaspar e tampouco comprova a participação de Lindbergh ou de qualquer outra pessoa na fabricação de uma denúncia.
A Câmara enviou o material ao STF para que seja incorporado às apurações. Caberá à Polícia Federal verificar a identidade das mulheres mencionadas, a origem e a finalidade dos pagamentos, a existência da suposta vítima, as diferentes versões apresentadas e a eventual participação de terceiros.
O que está comprovado até agora
Alfredo Gaspar foi citado em uma notícia-crime apresentada à Polícia Federal, mas não foi condenado nem teve culpa reconhecida. Ele nega o relato e pede que o exame de DNA seja realizado.
Também existe um depoimento que atribui a denúncia a uma armação política, mas essa versão não foi confirmada. Os comprovantes entregues não demonstram por si sós que houve pagamento para produzir uma acusação falsa.
O caso reúne relatos conflitantes, acusações cruzadas e interesses eleitorais evidentes. A conclusão dependerá das diligências conduzidas pela Polícia Federal, da análise da PGR e das decisões do STF. Até que essas etapas sejam concluídas, tanto a denúncia de estupro quanto a tese de armação devem ser tratadas como alegações sob investigação, não como fatos estabelecidos






