Com investimento estimado em R$ 1 bilhão, infraestrutura deverá realizar 7,2 quintilhões de operações por segundo e atender empresas, universidades, centros de pesquisa e órgãos públicos de todo o país
Da Redação
O anúncio da instalação de um supercomputador no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, no Rio Grande do Norte, colocou termos como petaflops, processamento de alto desempenho e soberania digital no centro do debate. Mas o que essa máquina fará, por que precisa de tanta energia e como sua implantação poderá afetar a vida de quem não trabalha diretamente com tecnologia?
As informações constam em comunicado divulgado pelo Governo Federal em 19 de agosto e foram detalhadas durante a visita do Presidente Lula ao parque tecnológico. Na cerimônia, realizada na quinta-feira (20), representantes dos governos federal e estadual assinaram o acordo de cooperação técnica que dará suporte à implantação e à operação da infraestrutura.
A primeira informação importante é que o supercomputador ainda não está em funcionamento. O Governo Federal anunciou a abertura do processo para sua aquisição, por meio de edital competitivo. A previsão é que as operações comecem no fim de 2027.
O investimento estimado é de aproximadamente R$ 1 bilhão, com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. A execução ficará sob responsabilidade do Laboratório Nacional de Computação Científica, e a instalação está prevista para o Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
O que é um supercomputador?
Um supercomputador é uma estrutura formada por milhares de processadores trabalhando simultaneamente. Diferentemente de um computador doméstico, utilizado para acessar a internet, escrever textos ou executar programas comuns, esse tipo de equipamento realiza quantidades muito maiores de cálculos em períodos extremamente curtos.
A máquina prevista para o Rio Grande do Norte deverá alcançar cerca de 7.200 petaflops em operações de inteligência artificial. Isso corresponde, segundo o Governo Federal, a aproximadamente 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo.
Petaflop é uma unidade usada para medir a capacidade de processamento de computadores de alto desempenho. Um petaflop representa um quadrilhão de operações por segundo. No caso do equipamento anunciado, a medição considera cálculos com precisão FP16, bastante utilizados no treinamento de modelos de inteligência artificial.
O governo estima que a máquina poderá figurar entre os dez maiores supercomputadores do mundo em capacidade de processamento voltada à IA.
Na prática, isso significa que tarefas que exigiriam anos de trabalho em equipamentos convencionais poderão ser realizadas em períodos muito menores. A capacidade será empregada para analisar grandes bancos de dados, fazer simulações científicas e treinar modelos de inteligência artificial.
Para que o equipamento será usado?
O supercomputador não terá apenas uma função. Ele poderá atender pesquisas e projetos relacionados à saúde, agricultura, previsão climática, prevenção de desastres, indústria e serviços públicos.
Na medicina, a infraestrutura poderá auxiliar na análise da interação entre milhões de moléculas e proteínas do organismo. Esse tipo de estudo é importante para identificar substâncias capazes de atuar contra determinadas doenças e pode acelerar o desenvolvimento de medicamentos e tratamentos.
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, apresentou esse exemplo durante a cerimônia.
“Em vez de décadas de pesquisa, podemos analisar enormes quantidades de informações em muito menos tempo, e o benefício chegará à população em novos medicamentos, tratamento de doenças raras e materiais mais eficientes”, afirmou.
Na agricultura, a máquina poderá processar dados sobre solos, clima, produção e ocorrência de pragas. Os resultados podem ajudar a reduzir perdas, melhorar o uso de recursos naturais e elevar a produtividade.
Na área climática, a supercomputação permite desenvolver modelos mais detalhados para antecipar chuvas, secas e eventos extremos. Essa capacidade pode contribuir para o planejamento das cidades e para a prevenção de desastres.
O equipamento também poderá apoiar aplicações para o Sistema Único de Saúde, otimizar serviços públicos, desenvolver soluções industriais e treinar modelos de inteligência artificial adaptados à realidade brasileira.
“O supercomputador não serve apenas para fazer conta mais rápido. Ele serve para transformar problemas que levariam décadas para resolver em soluções para o dia a dia”, explicou Luciana Santos.
Quem poderá utilizar o supercomputador?
Apesar de ser financiado pelo Governo Federal, o equipamento não será de uso exclusivo da administração pública. Ele foi apresentado como uma infraestrutura nacional, destinada a projetos de empresas, startups, universidades, instituições científicas e governos estaduais e municipais.
O acesso não deverá ocorrer de forma irrestrita. Um modelo de governança ainda será estabelecido para selecionar os projetos e definir prioridades de utilização. Questões como relevância científica, impacto social, segurança dos dados e interesse estratégico nacional deverão orientar essa escolha.
Uma universidade poderá solicitar capacidade de processamento para pesquisar novos medicamentos. Uma startup poderá apresentar um projeto de inteligência artificial em português. Um órgão público poderá utilizar a estrutura para estudar mudanças climáticas ou melhorar determinado serviço.
A ideia é compartilhar uma infraestrutura que dificilmente poderia ser adquirida isoladamente por pequenas empresas, grupos de pesquisadores ou governos locais.
Por que o Brasil precisa de uma máquina desse porte?
O desenvolvimento de sistemas avançados de inteligência artificial depende de três elementos básicos: dados, profissionais qualificados e capacidade de processamento. O Brasil possui instituições de pesquisa, universidades e grandes bancos de informações, mas ainda enfrenta limitações para realizar cálculos em larga escala dentro do território nacional.
Quando uma empresa ou universidade brasileira precisa treinar um modelo de maior porte, pode ter de contratar infraestrutura localizada no exterior. Além do custo, essa dependência sujeita o projeto às regras, aos prazos e à disponibilidade estabelecidos por fornecedores estrangeiros.
Em alguns casos, dados brasileiros precisam ser enviados para processamento fora do país. Isso cria preocupações sobre segurança, privacidade e controle de informações estratégicas.
Segundo Luciana Santos, aproximadamente 60% do processamento relacionado à inteligência brasileira ocorre atualmente no exterior.
“Não falta inteligência real. Falta capacidade computacional para a gente pegar essa inteligência e colocar a serviço da nossa gente”, declarou a ministra.
O Governo Federal cita como estratégicos os dados produzidos pelo SUS, pela Embrapa, pela Fundação Oswaldo Cruz, pelo Instituto Butantan, pela Receita Federal e pelas universidades. A instalação de maior capacidade computacional no país pretende permitir que esses conteúdos sejam processados sob normas brasileiras.
O que é soberania digital?
Soberania digital é a capacidade de um país controlar seus dados, desenvolver tecnologias próprias e decidir como suas infraestruturas serão utilizadas. Isso não significa interromper relações com empresas ou governos estrangeiros, mas reduzir dependências que possam comprometer decisões nacionais.
O Brasil utiliza equipamentos, serviços de nuvem, sistemas operacionais e componentes produzidos por poucas empresas internacionais. Essa concentração pode deixar órgãos públicos, pesquisadores e negócios brasileiros sujeitos a mudanças contratuais, sanções, interrupções ou decisões tomadas fora do país.
Durante o evento no Rio Grande do Norte, o governo apresentou a supercomputação como parte de uma política destinada a aumentar as opções disponíveis. A estratégia combina aquisição internacional de equipamentos, transferência de tecnologia, participação de empresas brasileiras e formação profissional.
“Soberania digital não significa fazer sozinho. A gente quer interagir com o mundo todo, defender o interesse nacional, aprender e dominar”, afirmou Luciana Santos.
A ministra acrescentou que a intenção é evitar que o país simplesmente substitua uma dependência por outra. Para isso, os projetos preveem diversidade de fornecedores e exigências relacionadas ao conhecimento transferido ao Brasil.
Por que o supercomputador ficará no Rio Grande do Norte?
A localização foi escolhida por fatores científicos, energéticos e regionais. O Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo está situado em uma área próxima a universidades e instituições de pesquisa. O Rio Grande do Norte também possui grande disponibilidade de energia eólica e solar.
Supercomputadores consomem muita eletricidade. Além dos milhares de processadores, é necessário manter sistemas de refrigeração para controlar a temperatura dos equipamentos. A disponibilidade de energia renovável, portanto, foi considerada uma vantagem técnica.
A instalação no Nordeste também pretende descentralizar a infraestrutura científica brasileira, ainda muito concentrada no Sudeste. Embora fique fisicamente em Macaíba, a máquina deverá receber projetos de todo o país.
Presidente do Conselho de Administração do parque, Ângela Maria Paiva Cruz afirmou que o projeto reconhece a capacidade científica acumulada no estado.
“A instalação do supercomputador no Rio Grande do Norte contribui para reduzir as desigualdades regionais e demonstra que a ciência brasileira se fortalece quando alcança diferentes territórios, mobiliza talentos e transforma conhecimento em oportunidades”, declarou.
A governadora Fátima Bezerra também destacou que a escolha permite criar oportunidades para estudantes e pesquisadores sem exigir que eles deixem o estado.
“Isso significa oportunidade para quem está na universidade, para quem pesquisa, para quem empreende e para quem está começando uma carreira na tecnologia”, disse.
Quais contrapartidas serão exigidas?
O edital não prevê apenas a compra e a instalação do equipamento. A empresa selecionada deverá cumprir exigências relacionadas à transferência de tecnologia, capacitação profissional, pesquisa, desenvolvimento e participação de fornecedores brasileiros.
A previsão é capacitar 5 mil brasileiros ao longo de cinco anos. O objetivo é formar profissionais capazes de operar a infraestrutura e desenvolver novas aplicações, evitando que o país adquira uma máquina sem construir conhecimento interno sobre sua utilização.
Também haverá exigências de conteúdo local. Isso deverá abrir espaço para empresas brasileiras participarem do fornecimento de produtos e serviços associados ao projeto.
O Presidente Lula afirmou que o investimento pretende criar oportunidades para que pesquisadores e profissionais permaneçam no Brasil.
“Nós estamos fazendo isso aqui para que vocês não saiam do Brasil. Vocês prestem serviço no Brasil, ganhem dinheiro aqui no Brasil. A oportunidade para vocês está aqui no Brasil”, declarou.
Ao abordar a concentração internacional da inteligência artificial, Lula defendeu a capacidade científica brasileira.
“Nem chinês, nem americano é melhor do que nós. Nós vamos entrar nesse mercado. Nós vamos provar que os brasileiros, que os nossos acadêmicos e que a nossa juventude não devem nada a ninguém. Eles só precisam de oportunidade”, disse.
O equipamento produzirá inteligência artificial sozinho?
Não. Um supercomputador oferece capacidade para fazer cálculos e processar grandes volumes de informação, mas não desenvolve projetos por iniciativa própria.
São pesquisadores, programadores, empresas e instituições públicas que definem os problemas, selecionam os dados e criam os modelos. A máquina oferece a potência necessária para executar essas tarefas em escala maior.
Ela pode ser comparada a uma infraestrutura compartilhada. Assim como uma usina fornece energia para diferentes atividades, o supercomputador fornecerá capacidade de processamento para projetos de pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico.
Os resultados dependerão da qualidade dos dados, da formação das equipes, das regras de acesso e das prioridades estabelecidas para o uso da máquina.
Como o projeto se relaciona com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial?
O supercomputador faz parte do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, lançado em 2024. O programa prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028 para ampliar a infraestrutura, formar profissionais e desenvolver aplicações nacionais de IA.
A estratégia possui três rotas tecnológicas. A primeira é a aquisição do equipamento que será instalado no Rio Grande do Norte. A segunda envolve uma cooperação com as empresas chinesas Huawei e iFlytek para implantar outra infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro.
O projeto do Rio de Janeiro terá investimento estimado em R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos e deverá começar a operar em julho de 2027. A parceria prevê o desenvolvimento de modelos de linguagem em português, transferência de tecnologia e capacitação de 3 mil brasileiros.
Somadas as duas iniciativas de supercomputação, estão previstas 8 mil capacitações em cinco anos.
A terceira rota está voltada ao desenvolvimento de chips baseados na tecnologia RISC-V. Trata-se de uma plataforma aberta, que permite criar e adaptar componentes sem depender exclusivamente de sistemas controlados por poucas companhias. Essa frente será desenvolvida em cooperação com instituições de Barcelona, na Espanha, e possui horizonte de dez a 15 anos.
Qual é a diferença entre o projeto do RN e o do Rio de Janeiro?
O equipamento do Rio Grande do Norte será adquirido por edital competitivo e funcionará como uma infraestrutura nacional compartilhada. Sua capacidade poderá ser utilizada por governos, universidades, instituições científicas, empresas e startups.
A estrutura do Rio de Janeiro faz parte de uma cooperação tecnológica com empresas chinesas. Ela deverá ser usada prioritariamente para desenvolver modelos gerais de linguagem e sistemas de inteligência artificial destinados a setores específicos.
Os dois projetos também possuem valores e capacidades diferentes. O edital do equipamento potiguar prevê investimento de cerca de R$ 1 bilhão. A cooperação no Rio de Janeiro tem custo estimado de R$ 1,276 bilhão em cinco anos.
A existência das duas frentes procura evitar a dependência de uma única tecnologia ou empresa. Enquanto o projeto do Rio Grande do Norte amplia a capacidade imediata de processamento, a cooperação no Rio busca combinar infraestrutura com desenvolvimento conjunto de programas e modelos em português.
O que é a Nuvem Brasileira?
A Nuvem Brasileira é outra iniciativa anunciada pelo Governo Federal. Seu objetivo é desenvolver no país os sistemas necessários para armazenar e processar dados, reduzindo a dependência de grandes provedores estrangeiros.
Computação em nuvem não significa que as informações estejam em um espaço abstrato. Elas ficam armazenadas em servidores físicos, localizados em centros de dados e operados por empresas responsáveis pelos programas que controlam o serviço.
Desde 2023, o governo transfere dados sensíveis para a chamada Nuvem de Governo. Nela, tecnologias de empresas internacionais são instaladas em centros de dados administrados pelo Serpro e pela Dataprev, dentro do território nacional.
A Nuvem Brasileira pretende avançar para outra etapa: desenvolver no país o software necessário para operar esse tipo de serviço. O projeto será estruturado pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, pelo Serpro e pelo BNDES.
“A gente quer criar uma capacidade nacional de fazer o serviço de nuvem e ter uma nuvem brasileira soberana”, afirmou a ministra Esther Dweck.
O Estado deverá utilizar seu poder de contratação para garantir demanda e estimular empresas brasileiras a desenvolverem os componentes. A intenção é atender tanto instituições públicas quanto clientes privados.
Quem verificará os riscos desses sistemas?
O pacote prevê a criação do Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável, que será implantado pelo Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Minas Gerais.
O centro deverá desenvolver pesquisas e ferramentas para avaliar sistemas de inteligência artificial. O trabalho envolverá transparência, segurança, explicabilidade, identificação de riscos e possíveis discriminações produzidas por algoritmos.
A instituição terá função técnico-científica. Ela não substituirá os órgãos legalmente responsáveis pela fiscalização ou pela aplicação de sanções.
A criação do centro procura responder a uma questão que acompanha a ampliação da inteligência artificial: não basta aumentar a capacidade de produzir sistemas. Também é necessário compreender como eles tomam decisões, quais dados utilizam e se seus resultados reproduzem erros ou preconceitos.
Quando o supercomputador começará a funcionar?
A previsão do Governo Federal é que o supercomputador instalado no Rio Grande do Norte comece a operar no fim de 2027. Antes disso, será necessário concluir o edital, contratar a empresa fornecedora, preparar o local, instalar os equipamentos e realizar testes.
Portanto, o ato realizado em Macaíba marcou a formalização da cooperação e o início do processo de aquisição. Não se tratou da entrega de uma máquina pronta.
Quando estiver em funcionamento, a infraestrutura deverá servir a projetos de todo o Brasil. A forma de acesso, os critérios de seleção e a distribuição do tempo de processamento ainda serão definidos pelo modelo de governança.
O alcance do projeto dependerá dessa regulamentação e da capacidade de transformar processamento em pesquisas, serviços e produtos. A máquina fornece a base material. Os benefícios sociais virão dos projetos escolhidos, das equipes formadas e das soluções desenvolvidas a partir dela.





