Convidado do Café com Democracia explica como reconhecer reações impulsivas, ampliar o autoconhecimento e procurar ajuda profissional diante de dificuldades persistentes
Da Redação
O equilíbrio emocional não representa uma condição permanente de serenidade nem exige que uma pessoa deixe de sentir raiva, medo ou tristeza. Para o terapeuta e escritor Lúcio Pessôa, ele deve ser compreendido como a capacidade de reconhecer as próprias emoções sem permitir que elas determinem, de maneira automática, comportamentos e decisões.
O assunto foi discutido nesta sexta-feira (11) no programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular. Em entrevista ao âncora Luiz Regadas, mestre em Políticas Públicas, cientista político e radialista, Lúcio abordou as relações entre emoção e razão, as respostas impulsivas do organismo, os efeitos de experiências traumáticas e a importância de procurar acompanhamento profissional quando as dificuldades ultrapassam a capacidade individual de enfrentamento.
“Equilíbrio emocional é sentir sem se deixar dominar pelo que está sentindo”, definiu o entrevistado. Segundo ele, a ideia de alcançar um estado de tranquilidade que permaneceria inalterado durante toda a vida deve ser abandonada.
“Equilíbrio emocional não é um estado fixo que a gente atinge e mantém para sempre. Pensar dessa forma é um mito. É uma habilidade”, afirmou.
Para Lúcio, essa capacidade pode ser desenvolvida por meio do autoconhecimento, da ampliação do repertório emocional e da prática cotidiana. O objetivo não seria evitar qualquer abalo, mas perceber mais rapidamente uma alteração emocional e encontrar meios de recuperar a estabilidade.
“Ninguém vive em paz 24 horas por dia. O que existe é uma capacidade de reconhecer quando eu saio do centro e ter uma habilidade de voltar mais rápido”, explicou.
Emoções também atravessam a convivência política
Ao apresentar o tema, Luiz Regadas questionou por que um programa voltado ao debate político deveria tratar de equilíbrio emocional. Lúcio respondeu que a participação na vida coletiva envolve contato permanente com opiniões, valores e experiências diferentes.
Essa convivência pode ser especialmente difícil em períodos eleitorais, quando as divergências políticas atravessam ambientes familiares, relações profissionais e situações comuns do cotidiano. Para o convidado, conhecer os próprios limites ajuda a evitar que qualquer discordância termine em agressão ou rompimento.
“Estar diante de outras pessoas e fazer parte de uma sociedade inevitavelmente vai exigir que a gente tenha um pouco mais de equilíbrio emocional, porque lidamos com divergências, ideologias e pensamentos diferentes”, disse.
O terapeuta observou que essas tensões não se limitam à política. Reações semelhantes aparecem em conflitos conjugais, nas relações entre pais e filhos, no ambiente de trabalho e em contatos ocasionais. O problema, segundo ele, surge quando uma provocação encontra uma vulnerabilidade para a qual a pessoa ainda não construiu formas adequadas de resposta.
Por que reagimos por impulso
Lúcio explicou que, diante de algo interpretado como ameaça, o organismo pode produzir reações físicas antes que a pessoa consiga avaliar racionalmente o acontecimento. A aceleração dos batimentos cardíacos, a mudança na respiração e a tensão muscular são alguns sinais dessa resposta.
“O corpo e a mente estão conectados. Emoção não é só pensamento, emoção também é fisiologia”, afirmou.
Essas alterações ajudam a explicar por que alguém pode agir impulsivamente e, pouco depois, arrepender-se do que disse ou fez. O entrevistado defendeu que a compreensão desse processo pode reduzir a culpa e permitir que a pessoa desenvolva recursos para interromper reações automáticas.
Um desses recursos é a respiração pausada. Lúcio também sugeriu adiar a resposta, pedir que o interlocutor repita o que disse ou interromper temporariamente uma conversa difícil.
“A gente cai na armadilha de pensar que, quando algo me afeta, preciso responder imediatamente. Ninguém é obrigado a responder logo depois de uma provocação que pode desequilibrar”, declarou.
Segundo ele, criar um intervalo entre o estímulo e a resposta oferece tempo para identificar a emoção e avaliar as consequências de uma reação. Em vez de responder sob o efeito imediato da raiva, a pessoa pode pedir um copo d’água, contar até dez ou propor que o assunto seja retomado em outro momento.
O papel da razão
Durante a entrevista, Lúcio sustentou que o chamado equilíbrio emocional poderia, em algumas situações, ser descrito como equilíbrio racional. O raciocínio não significa negar o que se sente, mas utilizar a reflexão para compreender a origem de uma reação.
“A gente costuma pensar que é o emocional que bagunça o racional, mas muitas vezes é a razão que devolve o equilíbrio”, afirmou.
Ao analisar racionalmente uma situação, a pessoa pode reconhecer que não controla as opiniões ou o comportamento dos outros. Também consegue distinguir aquilo que realmente lhe diz respeito do que resulta das dificuldades, limitações ou experiências do interlocutor.
“Não dá para controlar a emoção com mais emoção. Eu preciso de uma pausa racional para me reorganizar”, explicou.
Essa formulação não significa que todas as reações sejam produto de uma escolha consciente. Condições de saúde mental, experiências traumáticas e circunstâncias sociais podem interferir profundamente na capacidade de autorregulação. O próprio entrevistado reconheceu que certas situações exigem acompanhamento terapêutico, avaliação psiquiátrica ou a combinação de diferentes formas de cuidado.
Equilíbrio não é ausência de sentimentos
Lúcio rejeitou a interpretação de que uma pessoa emocionalmente equilibrada nunca chora, sente raiva ou fica triste. Para ele, tentar eliminar as emoções pode produzir anestesiamento, não equilíbrio.
“Nós não somos robôs. Equilíbrio é uma integração entre o sentir e o pensar. O problema não é sentir raiva, medo ou tristeza. O problema é ficar refém desse sentimento sem conseguir dar um passo para trás”, afirmou.
O convidado propôs que a pessoa procure nomear aquilo que está sentindo. Perguntas sobre a origem, a intensidade e as possíveis consequências de uma emoção podem ajudar a organizar a experiência.
“Uma pessoa emocionalmente equilibrada não é quem nunca se irrita. É quem consegue atravessar isso sem se perder de si mesma por muito tempo”, disse.
A duração do abalo, a intensidade da reação e a capacidade de recomposição seriam critérios mais realistas para avaliar o equilíbrio emocional. Alguém pode sentir raiva e, ainda assim, decidir não agredir. Pode ficar triste sem permanecer indefinidamente paralisado pela tristeza.
Discussões políticas no cotidiano
Luiz Regadas apresentou uma situação pessoal para perguntar como se preparar para entrar em um estabelecimento cujo proprietário costuma fazer provocações políticas. O âncora relatou que aprecia o serviço oferecido no local, mas encontra dificuldade para evitar discussões quando o comerciante faz ataques ao Presidente Lula.
Lúcio respondeu que a divergência do outro não precisa ser automaticamente incorporada como um conflito pessoal. Na avaliação dele, insistir em mudar a opinião de alguém em qualquer ambiente pode produzir desgaste sem gerar diálogo.
“É possível ter debates, discordâncias e concordâncias sem que eu me afete a ponto de sair do equilíbrio, xingar o outro ou falar coisas desagradáveis”, afirmou.
A orientação apresentada foi reconhecer antecipadamente a possibilidade da provocação, avaliar se existe interesse real em participar daquela conversa e estabelecer limites. A pessoa também pode optar por não responder ou conduzir o assunto de volta à finalidade do encontro.
Traumas podem reaparecer diante de novos estímulos
Uma pergunta enviada por um espectador abordou a dificuldade de manter o equilíbrio diante de experiências traumáticas. Lúcio definiu o trauma como um acontecimento de grande intensidade para o qual a pessoa não possuía recursos emocionais suficientes no momento em que ocorreu.
Como exemplo, mencionou alguém que sofreu um assalto cometido por um motociclista. Mesmo depois do episódio, a presença inesperada de outra motocicleta em uma rua vazia poderia desencadear medo, alterações físicas e lembranças associadas à violência.
Para o entrevistado, quando reações intensas aparecem repetidamente diante de situações relacionadas a uma experiência passada, o acompanhamento profissional pode ajudar a compreender suas causas.
“Quando o desequilíbrio surge a partir de traumas, é preciso tratar o trauma, porque ele está na raiz dessas questões”, disse.
Lúcio salientou que reconhecer a necessidade de ajuda não representa fracasso. A terapia pode oferecer um espaço para identificar padrões de comportamento, compreender experiências anteriores e desenvolver novas formas de reação.
“Reconhecer que sozinho às vezes não se dá conta e que se precisa de suporte não é fraqueza. Isso é maturidade”, declarou.
Autoconhecimento e novas experiências
Ao ser questionado sobre medidas práticas para desenvolver equilíbrio emocional, Lúcio apontou o autoconhecimento como um ponto inicial. Esse processo envolve identificar situações que despertam reações intensas, reconhecer comportamentos repetidos e perceber fragilidades e capacidades pessoais.
“Autoconhecimento é entender quem eu sou, quais são os meus gatilhos, os padrões que repito e as reações que tenho quando sou exposto a determinada situação”, explicou.
O entrevistado também recomendou o contato com experiências diferentes, como conversar com outras pessoas, frequentar espaços culturais, assistir a filmes e conhecer novos assuntos. Essas atividades podem ampliar as referências utilizadas para interpretar acontecimentos e relacionamentos.
Para ele, não é necessário reservar o cuidado pessoal apenas para o fim de semana. Ouvir uma música, tomar um banho com calma, caminhar ou separar alguns minutos para respirar são medidas que podem ser incorporadas aos dias de trabalho.
Lúcio sugeriu ainda a prática de fazer perguntas a si mesmo. Antes de reagir, a pessoa pode avaliar por que determinada fala lhe causou desconforto, se a resposta pretendida contribuirá para resolver o problema e o que ela realmente deseja daquela conversa.
O cuidado de quem acompanha uma pessoa adoecida
Na parte final do programa, um espectador perguntou como cuidar da esposa, diagnosticada com transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade e depressão, sem abandonar a própria saúde emocional.
Lúcio destacou a necessidade de tratamento adequado, com acompanhamento médico e terapêutico compatível com cada diagnóstico. Ele também alertou que familiares e cuidadores não devem abandonar integralmente as demais dimensões da própria vida.
“Você não é só esposo. Também tem seus sonhos, seus interesses e suas necessidades. É importante não se perder nesse conjunto de papéis”, orientou.
O entrevistado sugeriu que o cuidador preserve, dentro das possibilidades existentes, atividades físicas, momentos de lazer e contatos sociais. Mesmo intervalos breves podem ajudar a reduzir a sobrecarga.
Em casos de sintomas persistentes, crises, risco de violência ou sofrimento intenso, a orientação segura é procurar profissionais habilitados e serviços de saúde. Alterações em medicamentos devem ser feitas somente sob acompanhamento médico.
Atendimento e oficinas
Lúcio informou que realiza atendimentos individuais e de casais nos formatos presencial e remoto. As consultas presenciais acontecem no Recife, e os contatos podem ser feitos por meio de seu perfil no Instagram, @luciopessoaterapeuta.
O convidado também anunciou oficinas de escrita terapêutica. A programação divulgada durante a entrevista inclui uma atividade em Fortaleza, no bairro Dionísio Torres, além de encontros no Recife e em Olinda.
Ao encerrar o programa, Luiz Regadas agradeceu a participação do entrevistado e dos espectadores. O âncora destacou que o equilíbrio emocional deve ser pensado como um aprendizado contínuo, atravessado pelas condições concretas da vida e pelas relações mantidas em diferentes espaços.
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