Vitor Marques e Sandra Helena analisam a escolha de Lula pelo Flow, a influência de Trump sobre a disputa brasileira e os riscos de um Congresso ainda mais conservador
A reta final das eleições foi tema do episódio especial do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, que reuniu o professor da UFABC Vitor Marques e a professora de Filosofia Sandra Helena para discutir os acontecimentos políticos que marcaram o período. A conversa partiu da entrevista concedida pelo Presidente Lula ao Flow Podcast e avançou sobre a disputa presidencial, a atuação das grandes plataformas digitais, a influência política dos Estados Unidos e o cenário esperado para o Congresso Nacional. As declarações foram feitas durante o programa transmitido pela Atitude Popular.
A escolha do Flow para a entrevista presidencial provocou críticas em setores do campo progressista, mas Vitor Marques avaliou que a decisão foi acertada exatamente porque permitiu a Lula alcançar um público que não necessariamente acompanha veículos identificados com a esquerda. Para o professor, a estratégia tinha importância eleitoral e política por ampliar o alcance da mensagem presidencial sem limitar a conversa a uma audiência já convencida.
“Eu acho primeiro, Sandra, que a estratégia do presidente foi acertada. Eu acho que ela foi taticamente acertada e eu acho até que ela foi moralmente acertada”, afirmou Vitor. Na avaliação dele, um presidente em exercício precisa considerar a dimensão institucional do cargo ao decidir em quais espaços irá participar durante o primeiro turno.
O professor também argumentou que a escolha do Flow permitiu uma comunicação mais próxima do nível de compreensão de uma parcela ampla dos brasileiros. Em vez de uma entrevista marcada por perguntas altamente especializadas, Lula encontrou um ambiente no qual poderia responder a questões formuladas em uma linguagem mais próxima daquela utilizada pelo público do podcast.
“Era importante que o Lula chegasse até onde pudesse chegar no nível da audiência. Mas também eu acho que era importante não ser um canal marcado por uma proximidade ideológica com o nosso campo”, disse Vitor. Ele comparou a estratégia à decisão de políticos progressistas de outros países que procuram programas de grande audiência fora de seus espaços tradicionais para conversar com públicos que não frequentam os mesmos circuitos políticos.
Sandra Helena apresentou avaliação semelhante. Para ela, a dimensão da audiência deveria ser considerada na análise da entrevista, sobretudo em um cenário eleitoral no qual a disputa pela atenção se tornou parte importante da campanha. A professora observou que a opção pelo Flow poderia ser compreendida como uma tentativa de dialogar com um público mais amplo, sem depender exclusivamente de veículos já associados a determinada posição política.
Vitor também avaliou positivamente o desempenho de Lula durante a entrevista. Mesmo sem ter acompanhado toda a transmissão, ele destacou o domínio demonstrado pelo Presidente Lula ao tratar de temas relacionados ao próprio governo e sua capacidade de manter uma conversa fluida.
“Eu acho que de maneira geral, não tendo assistido toda, eu acho que foi um desempenho bastante formidável”, afirmou. Segundo ele, Lula apareceu como um político seguro, capaz de articular dados e informações sobre o governo e, ao mesmo tempo, manter uma conversa informal.
Para Vitor, esse comportamento teria relevância em comparação com o cenário observado na política norte-americana. Ele chamou atenção para a capacidade de Lula de responder rapidamente às perguntas, recuperar informações e demonstrar conhecimento sobre as ações de seu governo. Na avaliação apresentada no programa, essa disposição também estaria associada a uma postura de campanha que não se limita a defender o que já foi realizado.
“Um Lula ainda impaciente, insatisfeito com o que ele foi capaz de fazer, querendo fazer mais”, afirmou. Para o professor, a mensagem eleitoral deveria ser orientada pela ideia de continuidade de um projeto político, com a redução das desigualdades e a ampliação da renda e do emprego como objetivos ainda não concluídos.
A entrevista também abriu espaço para uma discussão sobre a Rede Globo e o tratamento dado à campanha eleitoral. Sandra Helena chamou atenção para as diferenças de abordagem entre os veículos de comunicação e mencionou a repercussão internacional da eleição brasileira. Entre os veículos citados durante o programa estava o The Guardian, que publicou editorial sobre a disputa brasileira.
A discussão sobre a cobertura televisiva levou Vitor a diferenciar uma posição editorial favorável a determinado candidato de uma cobertura que, na sua avaliação, pode produzir efeitos eleitorais por meio da escolha dos assuntos que recebem maior atenção. Ele afirmou que, quando Lula é submetido a forte cobrança enquanto outros candidatos recebem menor exposição crítica, o resultado pode produzir um desequilíbrio na percepção do eleitor.
Outro eixo importante da conversa foi a dimensão internacional da eleição brasileira. Vitor argumentou que a disputa ultrapassou os limites da política doméstica e passou a ser observada por setores democráticos de outros países diante do avanço da extrema direita em diferentes regiões.
Para o professor, uma eventual vitória de uma candidatura alinhada ao bolsonarismo poderia fortalecer movimentos reacionários que já atuam internacionalmente. Ele também relacionou o cenário eleitoral brasileiro à disputa geopolítica envolvendo o governo de Donald Trump e às questões ambientais, especialmente diante do papel do Brasil na preservação da Amazônia.
“Tem muita coisa em jogo, desde o fortalecimento de um movimento global de natureza populista reacionário ou até fascista”, afirmou. Na leitura apresentada por Vitor, a eleição brasileira passou a ser acompanhada por grupos políticos estrangeiros interessados tanto nos rumos democráticos do país quanto nas consequências ambientais e geopolíticas de uma eventual mudança de orientação do governo.
Sandra Helena acrescentou à discussão a questão tecnológica. Ela mencionou o desenvolvimento de novas tecnologias militares nos Estados Unidos e relacionou o tema à disputa pelo controle de recursos estratégicos. Também chamou atenção para a decisão das grandes empresas de inteligência artificial de defenderem a autorregulação do setor, sem uma regulação externa mais ampla.
A professora classificou o cenário como uma concentração de poder econômico e tecnológico capaz de tensionar os próprios fundamentos democráticos. A discussão retomou um dos temas recorrentes do programa: o papel das grandes plataformas digitais na formação da opinião pública e na disputa política contemporânea.
Vitor avançou nesse ponto ao afirmar que a influência norte-americana sobre a eleição brasileira não precisaria ocorrer apenas por meio de declarações públicas de autoridades. Para ele, as plataformas digitais e seus algoritmos também podem desempenhar papel político relevante.
“A intromissão do Trump já está acontecendo”, afirmou. Segundo Vitor, a mudança de posicionamento político de grandes empresários do Vale do Silício teria alterado o ambiente das plataformas digitais em relação ao primeiro mandato de Trump. Ele sustentou que seria necessário observar como essas empresas tratam diferentes campanhas e conteúdos políticos.
O professor também mencionou a presença de recursos estrangeiros e de especialistas ligados à inteligência norte-americana no Brasil, apresentando esse conjunto como parte de uma disputa mais ampla em torno da democracia brasileira.
A conversa passou então para a força eleitoral do bolsonarismo. Vitor reconheceu que havia feito uma previsão equivocada ao imaginar que uma candidatura considerada por ele frágil poderia provocar uma fragmentação do eleitorado de direita. O resultado observado, segundo sua análise, demonstraria que a força política do bolsonarismo não depende exclusivamente da figura individual do candidato.
“Mostra que o bolsonarismo tem uma força infelizmente tem uma força real na sociedade brasileira”, afirmou.
Para Vitor, uma vitória de Lula seria importante, mas não suficiente para eliminar a extrema direita. O fenômeno, segundo ele, possui raízes sociais que ultrapassam um ciclo eleitoral. O professor relacionou o caso brasileiro a uma tendência internacional de articulação entre diferentes movimentos de extrema direita.
A avaliação levou a uma conclusão central para a análise eleitoral apresentada no programa: a disputa presidencial já estaria fortemente concentrada em Lula e Flávio Bolsonaro. Vitor afirmou que os demais candidatos não apresentariam, naquele momento, capacidade semelhante de alterar o quadro.
“Essa eleição de primeiro turno já tem cara de segundo turno”, disse.
A partir dessa leitura, Vitor sustentou que a possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno não deveria produzir acomodação entre seus apoiadores. Segundo ele, o cenário ainda apresentava indefinições e exigia mobilização eleitoral até o último momento.
“Nós temos que tentar fechar a fatura imediatamente”, afirmou.
O professor também chamou atenção para uma dimensão menos discutida da eleição: a baixa presença das campanhas nas ruas. Ele comparou o ambiente daquele pleito com outras eleições que acompanhou ao longo da vida e afirmou ter percebido menos carros adesivados, bandeiras e manifestações públicas de apoio aos candidatos.
A ausência de uma mobilização ostensiva, na sua avaliação, não significaria necessariamente ausência de força eleitoral. O cenário que mais o preocupava era a possibilidade de um Congresso Nacional ainda mais conservador, capaz de dificultar a implementação de uma agenda popular mesmo diante de uma eventual vitória de Lula para a Presidência.
“Eu temo que ela vai retornar um Congresso ainda mais conservador, ainda mais à direita”, afirmou.
Nesse contexto, Vitor defendeu atenção especial às escolhas para Câmara dos Deputados e Senado. A campanha de Flávio Bolsonaro pelo Senado, segundo ele, estaria diretamente associada à estratégia de construir uma base parlamentar capaz de pressionar o Supremo Tribunal Federal e sustentar uma agenda de oposição ao governo.
“Preste atenção na sua chapinha inteira”, afirmou, ao defender que o eleitor considerasse também os candidatos ao Legislativo.
No Ceará, Vitor avaliou que a disputa estadual apresentava características semelhantes às observadas no cenário nacional. Segundo ele, as pesquisas indicavam uma disputa apertada, mas sua percepção era de vantagem para a candidatura apoiada por Lula.
“Eu acho que aqui no Ceará uma situação até parecida com a situação nacional. Nós temos uma campanha muito acirrada”, afirmou. O professor disse acreditar na vitória da candidatura do campo lulista e na reeleição do governador Elmano de Freitas.
Na parte final do programa, a discussão ganhou um tom mais pessoal ao abordar a frustração de militantes progressistas diante da permanência do bolsonarismo como força eleitoral. Vitor descreveu uma sensação de tristeza provocada pela percepção de que, apesar dos acontecimentos políticos dos últimos anos, uma parcela significativa do eleitorado continuava disposta a votar em uma candidatura ligada à família Bolsonaro.
Ele comparou esse sentimento à reação de alguém que acompanha uma pessoa próxima em uma relação marcada por violência e, depois de todo o esforço para ajudá-la, vê essa pessoa retornar ao relacionamento. A comparação foi usada para expressar a dificuldade de compreender a permanência do apoio eleitoral ao bolsonarismo.
Vitor afirmou ainda que o desencanto não deveria produzir desistência da política. Para ele, uma eventual vitória de Lula poderia abrir espaço para uma reorganização democrática, mas não resolveria sozinha as condições sociais que permitiram o crescimento da extrema direita.
A transmissão terminou com a exibição de um vídeo do comunicador PJ Brandão, que questionou a reação de parte dos eleitores diante das pesquisas que mostram a permanência de uma parcela expressiva do eleitorado ao lado de Flávio Bolsonaro. O vídeo defendeu que a tristeza e a confusão diante desse cenário fossem substituídas por disposição política para a disputa eleitoral.
A conversa do Democracia no Ar deixou como questão central o que acontece depois da eleição. A vitória de Lula, na análise apresentada por Vitor Marques, seria uma condição importante para interromper o avanço institucional da extrema direita, mas não encerraria o conflito político. O resultado das urnas para o Congresso teria peso decisivo para determinar as condições de governabilidade e para estabelecer os limites de uma agenda de transformação social.
O episódio especial, portanto, tratou a reta final da eleição como uma disputa que envolve mais do que a escolha para a Presidência. A entrevista de Lula no Flow, a cobertura dos grandes veículos, a atuação das plataformas digitais, a influência política dos Estados Unidos e a composição do Legislativo foram apresentados como partes de um mesmo cenário eleitoral, no qual o resultado brasileiro também pode produzir consequências para a política latino-americana.
Referências
The Guardian. Veículo de imprensa britânico citado durante o programa em referência à cobertura internacional das eleições brasileiras.
PJ Brandão. Vídeo publicado nas redes sociais e exibido no encerramento do programa, com reflexão sobre o sentimento de eleitores diante da permanência do bolsonarismo nas pesquisas.
Fausto Nilo. Entrevista mencionada durante o programa como parte de uma série de diálogos sobre a geração dos anos 1980.

