“Está faltando político que venha da raiz”, afirma Luiz Sérgio

Candidato a deputado estadual defende maior participação das organizações comunitárias na formulação das políticas públicas e apresenta projetos voltados a crianças neurodivergentes, mães atípicas e jovens em busca do primeiro emprego

Da Redação

O vereador e candidato a deputado estadual pelo PSB, Luiz Sérgio, defendeu a ampliação das políticas sociais nas periferias e uma participação mais efetiva das organizações comunitárias na definição das prioridades do poder público. Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, ele apresentou projetos desenvolvidos pelo terceiro setor e criticou a distância entre gestores, instituições públicas e moradores das comunidades.

A conversa teve apresentação de Sara Goes e comentários do professor Osmar de Sá Ponte. Com uma trajetória de 37 anos no trabalho comunitário, Luiz Sérgio afirmou que as políticas públicas precisam ser formuladas a partir da realidade vivida nos bairros, com atendimento próximo às famílias e participação das organizações que conhecem as demandas de cada território.

“Está faltando político que venha da raiz, que venha dos movimentos sociais, que saia da periferia”, declarou. Para o candidato, lideranças comunitárias, associações e organizações da sociedade civil perderam espaço nos processos decisórios, enquanto partidos e estruturas institucionais passaram a concentrar indicações e recursos.

Segundo Luiz Sérgio, essa concentração dificulta o surgimento de candidaturas ligadas às comunidades e favorece grupos familiares ou políticos que já possuem mandatos, estrutura financeira e controle partidário. Ele defendeu a renovação das lideranças e a abertura de oportunidades para pessoas com experiência em movimentos sociais e projetos comunitários.

“Se Deus quiser, com 60 anos, a minha vontade é passar o bastão para alguém que pense igual a mim, mas dê ênfase e notoriedade aos novos que venham da periferia, que sejam líderes comunitários e que façam parte da sociedade organizada”, afirmou.

Atendimento às crianças neurodivergentes

Um dos principais temas da entrevista foi a ausência de uma rede suficiente para atender crianças neurodivergentes e suas famílias. Luiz Sérgio afirmou que o instituto no qual atua acompanha 720 crianças na educação infantil. Desse total, 68 teriam recebido diagnóstico relacionado à neurodivergência.

A identificação dessas demandas levou à criação do projeto Cores da Inclusão. De acordo com o candidato, a iniciativa conta com dez profissionais e realiza atendimentos que alcançam diretamente mais de 500 crianças.

“Nós montamos um núcleo, um projeto chamado Cores da Inclusão, que atende hoje mais de 500 crianças diretamente”, relatou. Ele acrescentou que ainda existe uma fila de espera e que a continuidade do trabalho depende de recursos, convênios e parcerias com o poder público.

Luiz Sérgio também apontou a necessidade de formação adequada para professores da rede pública e das creches conveniadas. Para ele, a inclusão não pode depender apenas do esforço individual dos profissionais ou das famílias. É necessário oferecer equipes multidisciplinares, acompanhamento permanente e serviços descentralizados.

O candidato citou ainda a situação do Instituto da Primeira Infância, o Iprede, que enfrentou dificuldades financeiras para manter os atendimentos. Segundo ele, a retomada foi possível após a abertura de um novo edital pela gestão do prefeito Evandro Leitão.

O relato também chamou atenção para o cotidiano das mães atípicas. A falta de atendimento próximo obriga muitas mulheres a realizar deslocamentos longos com os filhos. Crises durante o percurso podem provocar a perda de consultas e de dias de trabalho, agravando a sobrecarga financeira e emocional dessas famílias.

Serviços precisam estar perto das comunidades

O professor Osmar de Sá Ponte observou que as demandas das periferias se tornaram mais complexas ao longo das últimas décadas. Durante os anos 1970 e 1980, boa parte das mobilizações comunitárias estava concentrada na conquista da moradia, do saneamento, da energia elétrica, das escolas e dos postos de saúde. Atualmente, além dessas carências ainda presentes, os moradores reivindicam acesso contínuo e qualificado aos serviços públicos.

Para Osmar, a existência formal de um serviço gratuito não garante que a população consiga utilizá-lo. A distância, o custo do transporte e as condições familiares podem impedir o acesso.

“Se você não tem um atendimento próximo da comunidade, é a mesma coisa que não ter. As pessoas não têm recursos para se deslocar e, às vezes, têm o serviço gratuito, mas não têm como chegar lá”, afirmou.

O comentarista defendeu um planejamento de longo prazo para enfrentar as desigualdades existentes em Fortaleza. Esse planejamento precisaria considerar as diferenças de acesso à educação, à saúde, ao transporte, ao lazer e às oportunidades econômicas.

Osmar também ressaltou que o atendimento às pessoas neurodivergentes passou a ocupar um espaço mais relevante nas políticas públicas. Durante muitos anos, crianças e adultos com transtornos neurológicos ou psíquicos foram marginalizados ou tratados como problemas privados das famílias.

Hoje, segundo ele, há maior reconhecimento da responsabilidade do Estado e da sociedade. O avanço institucional, entretanto, ainda não foi acompanhado por uma rede capaz de absorver toda a demanda.

Lideranças comunitárias perdem espaço

Luiz Sérgio afirmou que o enfraquecimento das lideranças comunitárias não aconteceu espontaneamente. Em sua avaliação, mudanças promovidas pelas próprias instituições públicas reduziram a autonomia das associações e substituíram espaços de organização social por mecanismos de participação excessivamente vinculados a mandatos políticos.

“Quem ouve falar hoje em líder comunitário? O próprio sistema vai abafando e excluindo esse tipo de movimento”, criticou.

Ele mencionou os agentes de cidadania de Fortaleza. Embora tenham sido criados para acompanhar o orçamento e estabelecer uma interlocução entre moradores e poder público, esses representantes, de acordo com Luiz Sérgio, passaram a ser apresentados como parte da influência eleitoral de vereadores e deputados.

O candidato defendeu a recuperação de processos nos quais as próprias comunidades escolhiam suas lideranças. Em sua experiência, os representantes eleitos pelos moradores conheciam as famílias, as dificuldades locais e os serviços que precisavam ser cobrados.

Luiz Sérgio também recordou os Conselhos Comunitários de Defesa Social, os CCDSs, criados no Ceará durante o governo de Tasso Jereissati. Ele presidiu um desses conselhos durante vários anos e avaliou que o modelo poderia novamente contribuir para a prevenção da violência e para a articulação de atividades comunitárias.

“Cadê a atenção do Estado? Cadê as secretarias dando estrutura para esses conselheiros resgatarem crianças órfãs do crime e sem acesso a um projeto de basquete, karatê, capoeira ou outra atividade esportiva?”, questionou.

Na avaliação do candidato, a prevenção da violência requer presença pública permanente, participação social e oportunidades para crianças e adolescentes. Operações policiais isoladas não substituem projetos de educação, cultura, esporte e geração de renda.

Violência e ausência de oportunidades

Osmar de Sá Ponte considerou que a violência se tornou uma das questões centrais para as periferias das grandes e médias cidades. Além das dificuldades econômicas e da falta de serviços, moradores precisam conviver com a atuação de grupos armados que limitam a circulação, a organização política e a liberdade das comunidades.

O comentarista sustentou que o enfrentamento do problema não pode ser delegado a organizações paralelas. A sociedade e o poder público precisam retomar o controle dos territórios por meio de políticas que não se restrinjam à atuação policial.

“A violência não pode ser delegada a grupos paralelos da sociedade ou às políticas públicas. É necessário que a sociedade retome esse controle e se responsabilize por essas políticas”, disse.

Osmar apontou o Rio de Janeiro como exemplo das consequências de décadas de abandono e de uma presença estatal concentrada na repressão. Para ele, outras cidades brasileiras precisam agir antes que o controle territorial de grupos armados alcance níveis semelhantes.

Essa atuação envolve garantir liberdade para a organização comunitária. O domínio das facções interfere na possibilidade de moradores realizarem reuniões, reivindicarem direitos e participarem de movimentos sociais. A violência, portanto, não produz apenas vítimas diretas, mas também enfraquece a democracia nos bairros.

Habitação e participação das entidades

A política habitacional de Fortaleza também foi criticada por Luiz Sérgio. Segundo ele, mais de 120 mil pessoas aguardam uma moradia na capital. O candidato questionou a redução da participação das entidades comunitárias nos processos de seleção das famílias contempladas.

Para Luiz Sérgio, associações com atuação nos bairros possuem informações sobre quem paga aluguel, vive em ocupações ou enfrenta situações de maior vulnerabilidade. Ele argumentou que o modelo de sorteio não deveria excluir o conhecimento acumulado pelas organizações locais.

O candidato ponderou que a participação do terceiro setor precisa ser acompanhada por fiscalização e distribuição mais equilibrada dos recursos. Ele criticou a concentração de convênios milionários em poucas organizações, enquanto entidades menores, com trabalho reconhecido dentro das comunidades, enfrentam dificuldades para manter atividades básicas.

“Tem instituições que recebem volumes muito grandes de recursos, enquanto muitas outras não chegam a ter R$ 1 milhão por ano e realizam trabalhos mais sérios”, afirmou.

Luiz Sérgio defendeu critérios públicos para a celebração de convênios, acompanhamento dos resultados e oportunidades para organizações de diferentes regiões. A parceria com o terceiro setor, em sua avaliação, não pode ser confundida com a transferência indiscriminada de responsabilidades do Estado.

Trabalho e renda como políticas sociais

Osmar de Sá Ponte ampliou a discussão ao tratar das oportunidades econômicas. Ele recordou sua participação na criação da Incubadora de Cooperativas da Universidade Federal do Ceará, na década de 1990, inspirada pelo trabalho desenvolvido pelo economista Paul Singer.

A iniciativa buscava apoiar pessoas excluídas do mercado formal e contribuir para a criação de cooperativas. Osmar explicou que o acesso à educação, à saúde e ao transporte precisa caminhar junto com políticas de geração de trabalho e renda.

“Se você não resolver como as pessoas vivem, se sustentam e geram renda, tudo mais vai continuar parecendo incompleto”, avaliou.

O comentarista defendeu o conceito de empreendedorismo cooperativo e criticou visões que tratam qualquer iniciativa econômica individual ou comunitária como incompatível com projetos de esquerda. Para ele, empreender não se limita às relações tradicionais de compra e venda, pois também envolve organização social, comunicação, cultura e produção coletiva.

Osmar afirmou que as periferias já possuem uma economia diversificada, formada por pequenos comércios, oficinas, serviços de alimentação, atividades culturais e profissionais que trabalham por conta própria. Apesar dessa movimentação, as políticas de desenvolvimento econômico ainda alcançam pouco esses territórios.

“Sem economia, a solidariedade não se sustenta. É preciso produzir riqueza para que ela possa ser distribuída”, declarou.

Ele citou iniciativas da Central Única das Favelas, a CUFA, como exemplo de apoio à economia popular. Segundo Osmar, governos municipais, estaduais e federal precisam reconhecer a dimensão econômica das periferias e formular programas adequados às características dos pequenos negócios desses territórios.

A ausência de políticas de crédito, formação profissional, tecnologia e comercialização deixa empreendedores expostos à informalidade e, em alguns locais, ao controle financeiro exercido por grupos criminosos.

Primeiro emprego para os jovens

Luiz Sérgio apresentou ainda um programa de aprendizagem profissional desenvolvido pelo instituto no qual atua. A iniciativa capacita jovens de 16 a 29 anos e busca encaminhá-los ao mercado de trabalho para a primeira experiência profissional.

O candidato afirmou que o projeto precisa de maior cooperação do Ministério do Trabalho, dos governos e das empresas. O acesso a entrevistas e vagas ainda depende de articulações que organizações comunitárias, isoladamente, não conseguem realizar.

“A gente capacita o jovem e o coloca no mercado de trabalho, dando a oportunidade do primeiro emprego. Mas precisamos que o Ministério do Trabalho coopere e que o Estado facilite o acesso às empresas”, explicou.

A preocupação com a juventude também apareceu na análise de Osmar. Ele observou que a formação universitária já não oferece a segurança profissional experimentada por gerações anteriores. Muitos jovens concluem cursos superiores sem conseguir estágio ou trabalho na área em que estudaram.

Para o professor, essa insegurança ajuda a explicar o crescimento dos casos de ansiedade entre adolescentes e jovens adultos. O Estado precisa oferecer perspectivas concretas por meio da educação profissional, do apoio ao trabalho cooperativo, do estímulo aos pequenos empreendimentos e da criação de empregos.

Políticas construídas de baixo para cima

Ao encerrar a entrevista, Luiz Sérgio reafirmou que a sua candidatura pretende levar para a Assembleia Legislativa a experiência acumulada no trabalho comunitário e no terceiro setor.

“Não podemos viver só de apresentar e falar. Temos que colocar em prática. O que falta é a presença do Estado dentro das comunidades e das ações”, afirmou.

Para ele, programas concebidos exclusivamente pelos gestores costumam ignorar conhecimentos produzidos pelas organizações que atuam diariamente nos bairros. A elaboração das políticas deveria incluir escutas territoriais e acompanhamento permanente dos resultados.

“Eu tenho 57 anos e 37 anos de terceiro setor, ajudando e servindo. Isso é a minha vida”, declarou.

Luiz Sérgio encerrou sua participação afirmando que pretende defender a distribuição mais equilibrada dos recursos públicos e apoiar projetos voltados à infância, às pessoas neurodivergentes, às mães atípicas e à juventude. “A minha responsabilidade e a minha missão são servir, e não ser servido”, concluiu.

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