Da Redação
Washington lança a “Operation Economic Outcast”, amplia o alcance potencial das sanções secundárias e mira petróleo, tecnologia, navegação, ativos digitais e cadeias de suprimentos iranianas. A ofensiva procura transferir a pressão do campo militar para o sistema financeiro internacional, mas coloca os Estados Unidos diante de um dilema: atingir grandes parceiros de Teerã, especialmente a China, pode também acelerar a construção de mecanismos comerciais fora do dólar.
Os Estados Unidos abriram uma nova etapa de sua ofensiva contra o Irã. Depois de meses de confronto militar, o governo de Donald Trump está deslocando parte central da pressão sobre Teerã para o terreno econômico e financeiro, utilizando aquilo que Washington ainda possui como uma de suas armas mais poderosas: a centralidade do dólar e do sistema financeiro norte-americano na economia mundial.
A Casa Branca batizou a iniciativa de “Operation Economic Outcast”. Nesta quinta-feira (27), Trump afirmou que os Estados Unidos não estão negociando com o Irã e que sua prioridade neste momento é ampliar a punição econômica contra o país e contra aqueles que continuarem mantendo negócios com Teerã. A porta-voz Karoline Leavitt disse que a campanha continuará até que o governo iraniano aceite voltar à mesa de negociações em condições consideradas significativas por Washington.
A ofensiva ganhou dimensão concreta nesta semana. O Departamento do Tesouro anunciou sanções contra quase 60 pessoas, empresas, embarcações e outras entidades vinculadas ao Irã, acusadas de participação em redes relacionadas aos programas nuclear e de mísseis, atividades cibernéticas, comércio de petróleo e estruturas associadas à Guarda Revolucionária. Empresas estabelecidas na China e em Hong Kong estão entre os alvos.
A estratégia, entretanto, é maior do que essa primeira relação de sancionados. Washington ampliou as bases jurídicas que poderão sustentar futuras sanções secundárias em setores como tecnologia, ativos digitais, ouro, aviação e navegação. Isso não significa que qualquer companhia estrangeira que negocie com o Irã será automaticamente punida. Significa que o governo norte-americano está construindo instrumentos para escolher quando, onde e contra quem utilizar a ameaça de exclusão do sistema financeiro americano.
É justamente aí que se encontra a força da operação.
Para um banco internacional, perder acesso ao sistema de compensação em dólares ou enfrentar restrições às suas contas correspondentes nos Estados Unidos pode produzir consequências muito maiores do que uma multa isolada. Washington pode, dessa maneira, pressionar empresas de países que não aderiram formalmente às sanções americanas a escolher entre continuar negociando com o Irã ou preservar seu acesso ao mercado financeiro dos Estados Unidos.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, advertiu nesta semana países e instituições estrangeiras a reduzirem suas conexões financeiras com Teerã ou enfrentarem o risco de sanções secundárias. Apesar da retórica agressiva, o governo ainda não aplicou indiscriminadamente essas penalidades contra todos os parceiros iranianos.
Essa diferença é fundamental para compreender a estratégia. Washington está criando uma capacidade de coerção escalonável, que pode ser aumentada ou reduzida conforme a reação do Irã e de seus parceiros.
China é o grande teste da estratégia americana
O problema para os Estados Unidos começa quando essa lógica encontra a China.
Pequenas empresas, intermediários, transportadoras e bancos com grande exposição ao mercado norte-americano podem ceder rapidamente diante da ameaça de sanções. Aplicar a mesma política contra grandes instituições financeiras chinesas representa uma decisão de outra magnitude.
A China permanece como o principal comprador externo do petróleo iraniano. Segundo os dados reunidos pela análise publicada pela RT, compradores chineses importaram em média cerca de 1,38 milhão de barris diários de petróleo iraniano em 2025, respondendo por mais de 80% das exportações marítimas iranianas naquele período. Esse comércio vem utilizando refinarias independentes, intermediários, pagamentos em yuan e diferentes mecanismos destinados a reduzir a exposição às sanções norte-americanas.
As entregas teriam diminuído fortemente ao longo de 2026, em meio à guerra e às restrições ao transporte marítimo, mas Pequim não demonstrou disposição para simplesmente aceitar a exigência americana de romper economicamente com Teerã.
Trump foi questionado nesta quinta-feira sobre a possibilidade de sancionar bancos chineses que continuem realizando negócios relacionados ao Irã. Sua resposta foi deliberadamente ambígua: o presidente sugeriu que Washington poderia já estar adotando medidas sem necessariamente anunciá-las publicamente.
A ambiguidade revela o dilema.
Sancionar instituições menores é relativamente barato para Washington. Atacar grandes bancos chineses poderia provocar retaliação de Pequim, afetar negociações comerciais entre as duas maiores economias do planeta, atingir cadeias globais de abastecimento e acelerar a transferência de transações sino-iranianas para mecanismos completamente externos ao dólar.
Em outras palavras, quanto maior o alvo das sanções secundárias, maior também pode ser o custo para os próprios Estados Unidos.
Irã tenta construir rotas alternativas
Teerã não começou a enfrentar esse problema agora. Mais de quatro décadas de sanções obrigaram a economia iraniana a desenvolver mecanismos alternativos de comércio, transporte e financiamento.
No petróleo, o oleoduto Goreh-Jask permite transportar parte da produção iraniana até o Golfo de Omã, reduzindo a dependência dos terminais localizados no Golfo Pérsico e do trânsito pelo Estreito de Ormuz. Sua capacidade efetiva permanece limitada e está muito abaixo daquela necessária para substituir integralmente as principais estruturas exportadoras iranianas, mas oferece uma alternativa estratégica.
O porto de Chabahar fornece outra saída para o Mar da Arábia, enquanto rotas terrestres conectam o país ao Iraque, Turquia, Paquistão, Afeganistão, Armênia e Azerbaijão. Gasodutos permitem ainda exportar energia para turcos e iraquianos sem depender exclusivamente do transporte marítimo.
Há também mecanismos financeiros.
Comércio em moedas nacionais, operações de compensação, ouro, ativos digitais, intermediários e estruturas informais diminuem parcialmente a dependência do sistema bancário tradicional. Nenhum desses instrumentos possui sozinho escala suficiente para substituir a infraestrutura financeira dominada pelo dólar, mas sua combinação dificulta a tentativa de isolamento absoluto do país.
Essa adaptação possui um preço.
Quanto mais clandestina, fragmentada e complexa se torna uma operação comercial, maiores tendem a ser seus custos logísticos, financeiros e jurídicos. O objetivo das sanções americanas não precisa, portanto, eliminar completamente o comércio iraniano para produzir efeitos. Basta torná-lo progressivamente mais caro, arriscado e difícil.
É aí que a população iraniana também entra na equação.
Sanções prolongadas podem pressionar inflação, emprego, disponibilidade de tecnologia, investimentos e poder de compra. A aposta política implícita é que o aumento dos custos econômicos modifique o cálculo estratégico de Teerã.
Essa relação, entretanto, não é automática. Décadas de experiências internacionais mostram que deterioração econômica não necessariamente produz mudança de regime ou capitulação política. Governos submetidos a forte pressão externa também podem utilizar essa pressão para reforçar discursos nacionalistas e atribuir as dificuldades econômicas ao adversário estrangeiro.
Turquia, Iraque e países vizinhos complicam o bloqueio
A segunda dificuldade de Washington é geográfica.
O Irã possui uma extensa rede de relações econômicas com seus vizinhos, algumas delas difíceis de eliminar sem provocar efeitos políticos e sociais nesses próprios países.
A Turquia depende parcialmente do gás iraniano. O Iraque também importa gás necessário à geração de eletricidade e mantém bilhões de dólares em intercâmbio comercial com Teerã. Paquistão e Irã possuem importantes fluxos comerciais fronteiriços, enquanto Omã mantém relações econômicas e diplomáticas historicamente relevantes com a República Islâmica.
Para esses países, cumprir integralmente uma política americana de isolamento pode significar assumir custos domésticos significativos.
É por isso que as sanções secundárias representam simultaneamente a maior força e a maior vulnerabilidade da estratégia norte-americana: elas permitem que Washington tente transformar sua própria jurisdição financeira numa espécie de mecanismo de alcance extraterritorial, mas também produzem incentivos para que terceiros países procurem reduzir essa dependência.
O paradoxo do dólar
A ofensiva contra o Irã expõe uma contradição estrutural da política econômica dos Estados Unidos.
O poder das sanções existe justamente porque o dólar continua no centro do sistema financeiro internacional. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional citados pela análise da RT, a moeda norte-americana representava cerca de 57% das reservas cambiais globais declaradas no primeiro trimestre de 2026. Nenhuma alternativa existente possui atualmente a mesma combinação de liquidez, profundidade financeira e infraestrutura institucional.
Mas utilizar repetidamente essa posição para pressionar governos e empresas estrangeiras também cria um incentivo para procurar alternativas.
É nesse terreno que projetos de pagamentos em moedas nacionais, sistemas regionais de compensação, moedas digitais de bancos centrais e iniciativas discutidas no âmbito dos BRICS ganham importância estratégica.
Esses instrumentos ainda são fragmentados e estão longe de substituir o dólar.
O problema para Washington é de longo prazo.
Quanto maior a percepção de que o acesso à moeda americana pode ser utilizado como instrumento político contra terceiros países, maior será o incentivo para governos que temem futuras sanções investirem em mecanismos de proteção financeira.
A China possui razões próprias para fazer isso. A Rússia acelerou esse processo depois das sanções impostas pelo Ocidente. O Irã o pratica por necessidade há décadas.
A política norte-americana enfrenta, portanto, um paradoxo: o dólar torna as sanções extraordinariamente poderosas, mas o uso recorrente desse poder ajuda a produzir a demanda internacional por mecanismos capazes de reduzir sua eficácia futura.
Pressão econômica substitui apenas parcialmente a guerra
Existe ainda uma dimensão militar decisiva.
A análise publicada pela RT interpreta a nova ofensiva econômica como evidência dos limites e custos acumulados pela campanha militar contra o Irã. Essa é uma interpretação do autor do artigo, e alguns números apresentados sobre estoques de interceptadores e gastos militares dependem de estimativas que exigem confirmação independente antes de serem tratados como dados definitivos.
O fato verificável neste momento é que Washington está colocando enorme peso sobre o instrumento econômico.
Trump declarou nesta quinta-feira que não pretende conversar atualmente com Teerã. A Casa Branca afirma que a pressão continuará até que o Irã aceite negociações consideradas significativas. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro do Qatar esteve em Teerã tentando reabrir canais diplomáticos entre os dois lados.
Isso produz uma situação potencialmente perigosa.
Os Estados Unidos tentam aumentar o custo da resistência iraniana sem necessariamente retornar imediatamente a uma campanha militar de grande escala. O Irã, por sua vez, precisa decidir até onde pode suportar o estrangulamento econômico sem responder por outros meios.
Nesse cálculo está o Estreito de Ormuz, uma das passagens energéticas mais estratégicas do planeta.
Qualquer escalada envolvendo o fluxo marítimo na região poderia transformar rapidamente uma disputa bilateral em choque econômico internacional, atingindo preços de energia, transporte, seguros e cadeias de abastecimento muito além do Oriente Médio.
A nova fase do confronto entre Washington e Teerã é, portanto, menos visível que um bombardeio, mas não necessariamente menos estratégica.
A arma principal passa a ser o acesso ao dólar. O campo de batalha se desloca para bancos, refinarias, seguradoras, portos, empresas de navegação e sistemas internacionais de pagamento. E os alvos já não são apenas iranianos: Washington quer obrigar terceiros países a decidir quanto custa continuar fazendo negócios com Teerã.
O resultado dessa estratégia dependerá justamente de quem estiver disposto a pagar esse preço.
Se empresas e governos recuarem, o isolamento iraniano poderá aumentar dramaticamente. Se China, Turquia, Iraque e outros parceiros encontrarem maneiras sustentáveis de preservar parte do comércio, a capacidade americana de produzir um bloqueio efetivo encontrará limites.
E existe uma consequência ainda maior: quanto mais Washington transforma o sistema financeiro internacional em instrumento direto de coerção geopolítica, mais a disputa com o Irã deixa de tratar somente do futuro de Teerã.
Passa também a tratar do futuro do próprio sistema monetário sobre o qual o poder econômico dos Estados Unidos foi construído.





