Da Redação
Joe Kent, ex-assessor presidencial de contraterrorismo, afirmou em entrevista a Tucker Carlson que uma escalada nuclear contra o Irã não pode ser descartada caso Washington mantenha como objetivo a rendição total ou a derrubada do governo iraniano. A declaração não representa uma decisão ou plano anunciado pela Casa Branca, mas ganha peso diante da guerra prolongada, das ameaças feitas por Donald Trump e da dificuldade norte-americana de alcançar seus objetivos apenas pela via militar convencional.
O prolongamento da guerra contra o Irã está colocando sobre a mesa uma hipótese que, até pouco tempo atrás, pertencia sobretudo aos cenários extremos da estratégia militar: o emprego de armas nucleares pelos Estados Unidos. O alerta partiu de Joe Kent, ex-assessor presidencial de contraterrorismo, durante uma entrevista concedida ao comentarista conservador Tucker Carlson na sexta-feira (28).
Kent não afirmou que Donald Trump tenha decidido lançar uma arma nuclear contra o Irã, tampouco apresentou evidências de que uma operação dessa natureza esteja sendo preparada pelo Pentágono. O que fez foi uma advertência estratégica: se Washington insistir simultaneamente na capitulação iraniana, na mudança de governo em Teerã e na destruição definitiva das capacidades nucleares subterrâneas do país, as alternativas militares convencionais podem se tornar progressivamente mais limitadas.
Essa distinção é fundamental. A manchete da RT — “US could nuke Iran amid deadlock” — reproduz uma avaliação de Kent, e não um anúncio oficial do governo norte-americano. Até o momento, não há confirmação pública de uma decisão de Trump de empregar armas nucleares.
Ainda assim, a própria discussão é extraordinariamente grave.
Segundo Kent, caso Washington continue buscando uma espécie de “rendição total” iraniana, duas alternativas militares extremas acabariam emergindo: uma invasão terrestre em grande escala ou um ataque nuclear. Para o ex-assessor, a primeira seria praticamente inviável diante das dimensões territoriais do Irã, de sua população e das dificuldades militares que uma ocupação dessa magnitude produziria.
É nesse raciocínio que aparece a segunda possibilidade.
Kent especulou que os Estados Unidos poderiam considerar um ataque nuclear limitado contra instalações subterrâneas de enriquecimento de urânio protegidas pelas formações montanhosas iranianas. Não se trata, novamente, de informação sobre um plano operacional confirmado, mas de uma hipótese apresentada por alguém que já esteve dentro da estrutura de segurança nacional norte-americana.
A questão central são os objetivos da guerra
A advertência de Kent ganha significado quando comparada aos objetivos oficialmente declarados pelo próprio aparato militar dos Estados Unidos.
Em pronunciamentos públicos, o governo Trump estabeleceu como uma de suas prioridades impedir que o Irã obtenha uma arma nuclear. Em transcrição oficial de uma coletiva militar, o secretário de Guerra Pete Hegseth afirmou que Washington mantém “opções em todo o espectro” para garantir que Teerã nunca possua esse armamento. O governo também sustenta que operações anteriores contra instalações nucleares iranianas atingiram duramente a infraestrutura do programa.
Isso não equivale a uma ameaça nuclear explícita.
Mas mostra por que a questão levantada por Kent não pode ser analisada isoladamente. Quanto mais maximalistas forem os objetivos políticos — destruição permanente da capacidade nuclear, neutralização das forças de mísseis, enfraquecimento das Forças Armadas e eventual transformação do poder político iraniano — maior se torna a distância entre aquilo que Washington deseja alcançar e aquilo que pode efetivamente conseguir por meios convencionais.
O Irã não é um pequeno Estado militarmente isolado. É um país de grandes dimensões territoriais, população numerosa, relevo extremamente complexo, extensa infraestrutura subterrânea e décadas de preparação militar precisamente para sobreviver a um conflito contra adversários tecnologicamente superiores.
Uma invasão terrestre destinada a conquistar e controlar o país teria dimensão completamente diferente das guerras conduzidas pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.
É esse problema que está no centro da argumentação de Kent.
De uma guerra convencional para o limiar nuclear
Há uma diferença estratégica gigantesca entre bombardear instalações militares com armas convencionais e utilizar uma arma nuclear, mesmo que Washington tentasse caracterizá-la como “limitada” ou dirigida exclusivamente contra uma instalação subterrânea.
Desde Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, nenhuma arma nuclear foi novamente empregada em combate.
Mais de oito décadas de dissuasão internacional foram construídas em torno desse fato.
O primeiro emprego nuclear em guerra desde 1945 quebraria aquilo que especialistas em relações internacionais frequentemente descrevem como um tabu nuclear. As consequências não ficariam restritas ao Irã.
Rússia, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e todas as demais potências nucleares teriam de recalcular suas próprias doutrinas estratégicas diante de um precedente no qual armas nucleares passassem novamente a ser consideradas instrumentos utilizáveis em guerras convencionais.
Para países que não possuem arsenal nuclear, a conclusão também poderia ser profundamente desestabilizadora: Estados ameaçados por potências nuclearmente armadas poderiam passar a considerar que somente a posse de sua própria capacidade nuclear garantiria sobrevivência.
Nesse cenário, uma ação destinada formalmente a impedir a proliferação poderia produzir exatamente o resultado contrário.
O problema das instalações subterrâneas iranianas
A hipótese mencionada por Kent também está ligada a uma dificuldade militar concreta.
Parte importante da infraestrutura nuclear iraniana foi construída em instalações subterrâneas justamente para sobreviver a bombardeios. Quanto maior a profundidade e a proteção geológica dessas estruturas, mais difícil se torna destruí-las completamente por ataques convencionais.
Os Estados Unidos possuem armamentos desenvolvidos especificamente para atingir instalações profundamente enterradas e já empregaram bombardeiros estratégicos e munições penetradoras contra alvos iranianos durante o conflito. O próprio governo norte-americano apresenta a operação Midnight Hammer como demonstração dessa capacidade.
A questão estratégica, entretanto, é diferente: destruir prédios e túneis não significa necessariamente eliminar conhecimento científico, estoques de material nuclear, capacidade industrial ou a possibilidade futura de reconstrução.
Um programa nuclear não existe apenas em centrífugas.
Existe em cientistas, engenheiros, universidades, cadeias industriais, conhecimento acumulado e capacidade tecnológica.
É por isso que a tentativa de resolver definitivamente a questão nuclear iraniana apenas através da força apresenta um paradoxo: quanto mais difícil se mostra alcançar uma solução permanente mediante ataques convencionais, maior pode ser a pressão dentro de determinados círculos para escalar a intensidade da força utilizada.
É exatamente essa trajetória que Kent está advertindo que não deveria ser descartada.
As ameaças anteriores de Trump tornam o debate mais sensível
A preocupação também precisa ser colocada diante da própria retórica utilizada pelo presidente norte-americano durante o conflito.
A RT recorda que Trump já empregou ameaças extraordinariamente duras contra Teerã, incluindo declarações sobre a possibilidade de destruição da infraestrutura civil iraniana caso suas exigências não fossem atendidas.
Retórica presidencial não significa necessariamente intenção operacional. Presidentes frequentemente utilizam ameaças para produzir dissuasão, pressão diplomática ou psicológica.
Mas, em conflitos entre Estados com capacidades militares estratégicas, a linguagem importa porque influencia a maneira como o adversário calcula riscos.
Teerã precisa avaliar se uma ameaça norte-americana constitui instrumento de negociação ou sinalização de uma decisão futura. Washington, por sua vez, precisa calcular como suas ações serão interpretadas pelo Irã e também por Rússia, China e outras potências.
É justamente nesse ambiente que erros de cálculo se tornam perigosos.
O debate sobre os estoques norte-americanos
Kent relacionou sua preocupação também às informações sobre o consumo de munições convencionais norte-americanas durante a campanha.
Segundo a RT, veículos de imprensa têm noticiado pressões sobre os estoques de munições guiadas de precisão e interceptadores, enquanto Trump e integrantes de seu governo negam que os Estados Unidos estejam enfrentando escassez capaz de comprometer suas operações.
Essa divergência precisa ser apresentada exatamente dessa maneira: existem relatos sobre pressão nos estoques, mas o governo norte-americano contesta a caracterização de que suas reservas estejam esgotadas ou militarmente incapacitadas.
Portanto, seria incorreto concluir que Washington estaria sendo “obrigado” a recorrer a armas nucleares por falta de bombas convencionais.
A hipótese de Kent é outra. O problema fundamental seria a incompatibilidade entre objetivos políticos muito amplos e os meios convencionais necessários para alcançá-los.
Washington também intensifica a guerra econômica
Ao mesmo tempo em que a ofensiva militar enfrenta limitações, a administração Trump aumentou a pressão econômica.
A RT relata que o governo lançou uma nova ofensiva de sanções contra Teerã, apresentada por Trump como uma operação econômica destinada a ampliar o isolamento iraniano. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou medidas contra dezenas de pessoas, empresas e embarcações ligadas às redes comerciais e financeiras do Irã.
A combinação revela que Washington continua utilizando diferentes instrumentos simultaneamente: poder militar, bloqueio econômico, sanções secundárias e pressão sobre países e empresas que mantêm relações com Teerã.
Nesse sentido, a escalada nuclear discutida por Kent deve ser entendida como um cenário extremo dentro de um conflito muito mais amplo, e não como algo que já esteja decidido.
O perigo maior pode estar na dinâmica da escalada
É justamente aqui que a entrevista de Joe Kent merece atenção.
Guerras raramente começam com a decisão de chegar ao pior cenário possível. Elas avançam por sucessivas etapas nas quais cada lado tenta responder à etapa anterior.
Um ataque produz retaliação. A retaliação exige nova resposta. Uma arma deixa de alcançar determinado objetivo e outra mais poderosa passa a ser considerada. Objetivos inicialmente limitados podem ser ampliados. Custos políticos já assumidos tornam mais difícil recuar.
Essa é a chamada escada da escalada.
No caso iraniano, ela se torna particularmente perigosa porque envolve os Estados Unidos, Israel, uma potência regional de grande dimensão como o Irã e interesses estratégicos diretos de Rússia e China.
Uma detonação nuclear norte-americana, ainda que contra um alvo militar e ainda que Washington tentasse apresentá-la como operação limitada, mudaria qualitativamente o conflito.
A questão deixaria imediatamente de ser apenas Estados Unidos versus Irã.
Passaria a ser a primeira utilização de uma arma nuclear em combate em mais de 80 anos.
Uma hipótese, não uma decisão — mas uma hipótese que não pode ser banalizada
É preciso, portanto, evitar dois erros opostos.
O primeiro seria transformar a entrevista de Kent numa notícia falsa de que “Trump decidiu bombardear nuclearmente o Irã”. Não decidiu, ao menos segundo as informações públicas disponíveis. Não há anúncio do Pentágono, ordem presidencial conhecida ou evidência apresentada por Kent de que um ataque nuclear esteja sendo preparado.
O segundo erro seria tratar a declaração como irrelevante.
Quando um ex-assessor presidencial de contraterrorismo argumenta publicamente que a dinâmica de uma guerra norte-americana pode conduzir à consideração de armas de destruição em massa, a discussão merece atenção justamente porque toca no limite mais perigoso da política internacional.
A questão decisiva talvez não seja se Washington pretende utilizar uma arma nuclear hoje.
É saber até onde os Estados Unidos estão dispostos a ir caso os objetivos políticos estabelecidos para o Irã continuem sem ser alcançados.
Porque existe uma fronteira que o mundo não atravessa em guerra desde 1945. E, se algum Estado voltar a atravessá-la, as consequências não terminarão quando a explosão acabar.
Elas poderão transformar todo o sistema internacional de segurança construído durante a era nuclear.






