Terapeuta Lúcio Pessôa afirma que a busca permanente por conquistas externas produz satisfação passageira e defende relações de qualidade, propósito e presença como fatores importantes para o bem-estar
A felicidade não é um estado permanente de satisfação, tampouco o resultado automático da acumulação de dinheiro, bens materiais ou sucesso profissional. Para o terapeuta e escritor Lúcio Pessôa, uma das principais dificuldades contemporâneas está justamente na busca por um modelo de felicidade baseado em conquistas externas sucessivas, capazes de produzir satisfação imediata, mas insuficientes para sustentar o bem-estar ao longo da vida.
O tema foi discutido por Lúcio Pessôa em entrevista ao jornalista e cientista político Luiz Regadas, no programa Café com Democracia, da Atitude Popular. Master terapeuta TRG e autor do e-book Viva Terapeuticamente, o convidado analisou pesquisas sobre felicidade, relações humanas e comportamento, além de discutir como expectativas de consumo e sucesso interferem na percepção que as pessoas constroem sobre a própria vida.
“Todo mundo quer muito ser feliz. Ninguém consegue definir exatamente o que quer dizer essa palavra felicidade, mas todo mundo quer”, afirmou.
Segundo Lúcio, parte dessa dificuldade decorre de um modelo social que relaciona felicidade à aquisição de bens e ao reconhecimento profissional. O problema, explicou, é que a satisfação provocada por essas conquistas costuma perder intensidade à medida que a pessoa se acostuma à nova situação.
A felicidade que dura pouco
Lúcio apresentou o conceito de adaptação hedônica, também chamado por alguns pesquisadores de esteira hedônica. A ideia descreve a tendência humana de retornar a um nível habitual de satisfação depois do impacto provocado por acontecimentos positivos.
Uma pessoa deseja intensamente comprar uma casa, trocar de carro, conseguir um emprego ou alcançar determinada posição profissional. Quando consegue, experimenta satisfação. Depois de algum tempo, porém, a novidade passa a integrar a rotina e outra meta começa a ocupar o lugar da anterior.
“Qualquer conquista externa gera um pico de felicidade. Só que depois o cérebro se acostuma com aquilo e a gente volta para o mesmo nível, para a mesma base.”
O terapeuta utilizou como exemplo as diferentes etapas da formação escolar. Uma criança deseja chegar ao ensino médio. Depois, quer ingressar na universidade. Na faculdade, começa a pensar no estágio e, posteriormente, no emprego.
Para Lúcio, esse movimento não deve ser interpretado simplesmente como ingratidão. A adaptação faz parte do funcionamento humano. A questão surge quando toda a expectativa de felicidade é transferida para a próxima conquista.
“Isso explica por que tanta gente conquista muita coisa, o dinheiro, às vezes a casa dos sonhos, o carro, e depois de um determinado tempo está perseguindo a próxima coisa.”
A reflexão também apareceu durante uma discussão sobre a relação entre dinheiro e felicidade. Lúcio rejeitou a formulação simplista segundo a qual dinheiro seria irrelevante para o bem-estar. Recursos financeiros podem garantir conforto, segurança e acesso a experiências importantes, mas não resolvem todas as dimensões da vida.
“A frase mais precisa não é ‘dinheiro não traz felicidade’. É: dinheiro compra conforto, mas não compra sentido.”
Relacionamentos no centro da discussão
Ao longo da entrevista, Lúcio destacou a importância dos vínculos humanos. Segundo ele, estudos de longo prazo sobre felicidade apontam a qualidade dos relacionamentos como um fator importante para uma vida considerada saudável e satisfatória.
“O que mais prediz uma vida feliz, saudável, não é dinheiro, não é fama, não é posse, não é sucesso profissional. É, sobretudo, qualidade dos relacionamentos.”
A qualidade, ressaltou, é mais importante do que a quantidade de pessoas ao redor. Uma pessoa pode conviver diariamente com muita gente e, ainda assim, não desenvolver vínculos profundos.
“Às vezes a gente tem milhões de pessoas em nossa volta e a gente não está se relacionando profundamente e de uma forma sadia.”
Questionado sobre a solidão urbana e as transformações provocadas pela verticalização das cidades, Lúcio afirmou que mudanças na organização dos espaços podem contribuir para novas formas de convivência, mas avaliou que o isolamento também está relacionado a comportamentos individuais e familiares.
Para ele, morar em apartamento não determina necessariamente uma vida isolada. O problema surge quando adultos e crianças deixam de construir rotinas de convivência fora dos ambientes privados e concentram parte excessiva de sua atenção em dispositivos digitais.
“O ser humano pecou não quando começou a ir para a verticalização, mas quando começou a ir para um estado de isolamento.”
O terapeuta também contestou a ideia de que relacionamentos significativos dependam sempre de programas caros ou de grande disponibilidade financeira.
“Às vezes, uma pessoa diz: ‘Eu seria tão feliz se pudesse viajar para a França’. E, às vezes, a felicidade está em você sentar na calçada da sua casa e conversar com o vizinho do lado.”
Os pilares apresentados por Lúcio
Durante o programa, Lúcio citou a psicologia positiva e apresentou fatores relacionados ao bem-estar. O primeiro deles é a presença de emoções positivas na vida cotidiana, entendidas não como ausência de sofrimento, mas como a possibilidade de viver momentos reais de prazer e alegria.
Esses momentos podem surgir em situações simples, como encontrar alguém querido no trabalho, participar de uma atividade agradável ou comemorar uma vitória esportiva.
Outro aspecto abordado foi o engajamento. Lúcio explicou o conceito de flow, utilizado para descrever situações nas quais uma pessoa se envolve profundamente em determinada atividade e perde a percepção da passagem do tempo.
“É quando você faz uma coisa e diz: ‘Caramba, eu perdi a noção do tempo, estava tão bom aqui que eu perdi a noção do tempo’.”
Para o terapeuta, atividades que exigem participação ativa tendem a proporcionar uma experiência diferente do chamado lazer passivo. Visitar uma pessoa querida, participar de um projeto, caminhar, ir ao cinema ou realizar uma atividade que desperte interesse podem favorecer essa experiência de envolvimento.
O convidado também citou os relacionamentos, a existência de um significado para a vida e a percepção de realização como elementos relacionados ao bem-estar.
“Felicidade duradoura não é sobre acumular. É sobre como você vive, como você se conecta e como você contribui todos os dias.”
A Copa passa, a vida continua
A eliminação do Brasil na Copa do Mundo também entrou na conversa. Questionado sobre o impacto de uma derrota esportiva na felicidade pessoal, Lúcio comparou a experiência às demais conquistas e frustrações da vida.
Para ele, uma vitória pode produzir um momento intenso de alegria, assim como uma derrota pode gerar tristeza. Nenhuma dessas situações, isoladamente, determina a qualidade de uma vida inteira.
“A Copa passa. As conquistas passam, mas a gente precisa ter um estilo de vida em que, apesar dessas dores, apesar das desilusões, a gente se reintegre e siga a nossa vida.”
O terapeuta afirmou que felicidade precisa ser compreendida como uma experiência construída ao longo do tempo.
“A felicidade é o que acontece entre um jogo e outro.”
Gratidão como exercício cotidiano
Ao ser questionado sobre práticas simples capazes de favorecer o bem-estar, Lúcio destacou a gratidão. Segundo ele, o exercício não consiste em ignorar dificuldades ou fingir satisfação, mas em perceber aspectos da vida que frequentemente passam despercebidos.
“Se existe alguma coisa simples que a gente pode fazer para nos deixar num estado de bem-estar e de felicidade maior, chama-se gratidão.”
Lúcio afirmou que a atenção humana tende a se voltar com facilidade para ameaças e problemas. Por isso, perceber conscientemente experiências positivas pode exigir um esforço deliberado.
“A gente precisa ser grato pelo dia, pela nossa casa, pela cama em que a gente dorme, pelo café que a gente toma, pelas pessoas com quem a gente interage.”
O terapeuta ressaltou, entretanto, que essa proposta não deve ser confundida com a exigência de manter pensamentos positivos permanentemente.
“A felicidade não é sobre positividade forçada.”
Para ele, uma das concepções equivocadas mais difundidas é a expectativa de permanecer bem durante todo o tempo.
“Esse é o grande equívoco da humanidade hoje: achar que tem que estar bem o tempo inteiro.”
Lúcio afirmou que tristeza, conflito e frustração fazem parte da experiência humana. A questão central, em sua avaliação, é a capacidade de atravessar esses períodos sem transformar a felicidade em uma obrigação permanente.
Felicidade nos relacionamentos amorosos
A entrevista também abordou as relações entre casais. Lúcio citou o psicólogo John Gottman e estudos sobre a interação cotidiana em relacionamentos afetivos.
Segundo o terapeuta, uma relação saudável não depende da inexistência de conflitos.
“A felicidade a dois não depende de ausência de conflito. Vai vir a dor, vai vir o conflito, vai vir o confronto. Ela depende de como o casal se porta e se repara depois do conflito.”
Lúcio destacou a importância da comunicação, da disposição para resolver desentendimentos e da preservação dos momentos de intimidade.
“Teve um problema, teve um conflito, resolve.”
Para ele, relacionamentos duradouros não são aqueles nos quais nunca existem divergências, mas aqueles em que as pessoas desenvolvem formas de reparar os danos produzidos pelas situações de tensão.
Pequenos movimentos e mudanças possíveis
No encerramento da entrevista, Lúcio afirmou que mudanças relacionadas ao bem-estar não dependem necessariamente de acontecimentos extraordinários.
“A ciência já provou que felicidade não é sobre chegar em algum lugar. É sobre a qualidade da sua presença.”
O terapeuta afirmou que experiências passadas e padrões de comportamento podem dificultar a construção de uma vida considerada satisfatória, mesmo quando a pessoa compreende racionalmente o que gostaria de mudar.
“Conhecimento não é o mesmo que capacidade emocional.”
Para Lúcio, reconhecer essas dificuldades e trabalhar mudanças graduais pode ser mais produtivo do que esperar uma transformação repentina.
A ideia também apareceu em sua indicação de leitura ao final do programa. O convidado recomendou Hábitos Atômicos, de James Clear, livro que discute o impacto acumulado de pequenas mudanças comportamentais.
“Se você está esperando cair um milagre, um acontecimento muito grande, comece com os pequenos movimentos, as pequenas coisas, para que você chegue num lugar bem melhor.”
Referências
Viva Terapeuticamente, Lúcio Pessôa
Hábitos Atômicos, James Clear, 2018
Martin Seligman, psicólogo e pesquisador associado aos estudos da psicologia positiva
John Gottman, psicólogo e pesquisador dedicado ao estudo das relações conjugais
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