Por Sara Goes
Enquanto o pré-candidato do PL cumpre agenda em Fortaleza, Ciro Gomes está em São Paulo e evita um encontro que poderia expor as contradições da aliança negociada no Ceará
Flávio Bolsonaro desembarca no Ceará nesta sexta-feira, 10, para uma agenda que mexe diretamente com a formação da chapa de oposição ao governo de Elmano de Freitas. Ciro Gomes, principal nome dessa articulação e interessado no apoio do PL à sua candidatura ao governo estadual, não estará por aqui.
Ciro foi para “Paris” de novo. Desta vez, porém, sua Paris fica em São Paulo. A ausência ocorre enquanto o PL estadual atravessa uma disputa interna em torno da aliança com ele e da composição da chapa para o Senado. Uma fotografia de Ciro e Flávio juntos exigiria respostas para questões que, até agora, permanecem sem solução.
A relação entre os dois é marcada por uma incompatibilidade difícil de esconder. O tucano, ex-tucano e tucano de novo quer o apoio do PL para disputar o governo do Ceará, mas, agora, não aceita assumir compromisso com a candidatura presidencial de Flávio. Já o senador precisa de um palanque competitivo no estado, mas corre o risco de entregar seu partido a um candidato que não pretende pedir votos para ele.
A aproximação entre Ciro e o PL cearense foi conduzida principalmente por André Fernandes. O deputado federal avalia que uma candidatura isolada do bolsonarismo teria dificuldades para enfrentar a estrutura eleitoral da base governista, enquanto Ciro oferece densidade eleitoral e capacidade de reunir diferentes setores da oposição.
A negociação avançou, mas provocou resistência dentro do próprio bolsonarismo. Michelle Bolsonaro tornou pública sua rejeição à aliança com Ciro, desencadeando uma crise que ultrapassou as fronteiras do Ceará e expôs divergências na família Bolsonaro e na direção nacional do PL.
O conflito também aparece na disputa pelo Senado. O grupo de André Fernandes trabalha pela candidatura do deputado federal Alcides Fernandes, pai de André. Em outra frente está a vereadora Priscila Costa, ex-vice-presidente nacional do PL Mulher e próxima de Michelle Bolsonaro.
A visita de Flávio ao Ceará fortalece o grupo de André e Alcides. Priscila Costa, uma das figuras diretamente envolvidas na crise provocada pela aliança com Ciro, também não participa da agenda. Ela igualmente encontrou uma “Paris” para chamar de sua e cumpre compromissos em Portugal.
Ciro, ex-governador, ex-ministro e ex-prefeito de Fortaleza, já havia informado que não compareceria ao ato político de Alcides Fernandes com Flávio Bolsonaro, sob o argumento de que é filiado ao PSDB. A justificativa partidária, porém, não elimina o problema político. Ciro negocia justamente uma composição entre seu partido e o PL, e o encontro desta sexta-feira reúne personagens diretamente envolvidos nessa articulação.
A distância permite que cada lado converse com seu próprio eleitorado sem enfrentar, por enquanto, as consequências públicas da aproximação.
Ciro tenta construir uma candidatura estadual capaz de reunir setores de centro e o eleitorado bolsonarista que faz oposição ao PT no Ceará. Ao mesmo tempo, passou a preservar distância da candidatura presidencial de Flávio, a quem dirigiu críticas em um passado recente.
Flávio enfrenta um problema diferente. Precisa ampliar alianças estaduais para sustentar sua candidatura presidencial, mas uma composição com Ciro provoca resistência entre apoiadores mais identificados com o bolsonarismo. O problema ficou evidente quando Michelle se insurgiu contra a negociação conduzida no Ceará.
O PL cearense, por sua vez, não vive apenas uma divergência sobre Ciro. A discussão envolve o controle das decisões partidárias, a candidatura ao Senado e a influência de diferentes grupos nacionais sobre o diretório estadual.
André Fernandes tornou-se um dos principais defensores da composição com Ciro. Seu pai, Alcides Fernandes, é beneficiário direto do desenho de chapa em negociação. Michelle Bolsonaro se opôs ao acordo, enquanto Priscila Costa disputa espaço político dentro da legenda. Flávio tenta preservar sua candidatura presidencial e, ao mesmo tempo, evitar uma ruptura com um diretório estadual eleitoralmente relevante.
Nesse ambiente, a visita desta sexta-feira tem um significado maior do que uma agenda comum de pré-campanha. Flávio chega para prestigiar Alcides Fernandes e fortalecer o grupo que conduz a aproximação com Ciro. O principal beneficiário dessa aproximação, porém, acompanha tudo de São Paulo.
Ciro não rompeu com o PL. Flávio também não fechou a porta para Ciro. André Fernandes continua trabalhando pela aliança. Michelle Bolsonaro permanece como referência para o setor que rejeita a composição, embora sua posição pareça cada vez mais isolada dentro da articulação partidária. A disputa pelo Senado segue atravessada por essa divisão.
Flávio e Ciro, portanto, estão envolvidos na mesma negociação, mas seguem sem resolver a principal questão: como o PL pode apoiar Ciro no Ceará enquanto Ciro se recusa a apoiar Flávio para a presidência?
Para quem acompanha a trajetória política de Ciro Gomes, resta ainda outra pergunta: quanto tempo levará para Flávio Bolsonaro ser admitido no seleto e criativo grupo dos “bolsonaristas honrados” descobertos por Ciro?






