Flávio desembarca no Ceará para enquadrar o PL após crise com Michelle

Senador lança Alcides Fernandes ao Senado e reforça grupo que articula aliança com Ciro Gomes

Da Redação

Flávio Bolsonaro desembarca em Fortaleza nesta sexta-feira (10) para uma ofensiva política que ultrapassa a agenda de sua pré-candidatura à Presidência. O senador participa do lançamento de Alcides Fernandes como pré-candidato ao Senado e tenta afirmar o comando sobre um PL dividido pela disputa em torno das alianças eleitorais no Ceará.

O ato está marcado para as 18h, no bairro Maraponga, e também reunirá pré-candidatos do partido à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa. A escolha de Alcides para ocupar o centro do evento fortalece o grupo comandado no estado pelo deputado federal André Fernandes, presidente estadual do PL e filho do pré-candidato ao Senado.

A movimentação ocorre depois de meses de crise interna envolvendo a aproximação do PL com Ciro Gomes, pré-candidato ao Governo do Ceará pelo PSDB. André Fernandes conduz as negociações para integrar o partido à aliança oposicionista. Flávio Bolsonaro apoia a articulação, que também conta com o aval do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.

Michelle Bolsonaro tornou-se a principal voz contrária ao acordo. A ex-primeira-dama defendeu a candidatura de Eduardo Girão, do Novo, ao Governo do Estado e sustentou o nome de Priscila Costa para o Senado. O conflito iniciado no Ceará ganhou dimensão nacional e expôs a disputa pelo comando do bolsonarismo após a prisão e a inelegibilidade de Jair Bolsonaro.

Alcides ganha o palco

A escolha de Alcides Fernandes para o Senado é um dos principais pontos de conflito dentro do PL cearense.

Michelle defendia Priscila Costa para a vaga e chegou a afirmar publicamente que retirar a candidatura da parlamentar representaria uma traição a Jair Bolsonaro. Segundo ela, o ex-presidente havia indicado expressamente Priscila para a disputa.

A direção estadual seguiu outro caminho. Alcides passou a ser tratado como o nome preferencial do grupo de André Fernandes, enquanto Flávio e Valdemar Costa Neto deram sinais públicos de apoio à candidatura.

O lançamento desta sexta-feira transforma essa preferência em um ato político. Para Flávio, a agenda permite demonstrar capacidade de organizar o partido em um estado onde sua liderança foi questionada pela própria madrasta.

A disputa pelo Senado também interfere na montagem da chapa de oposição. O Ceará elegerá dois senadores em 2026, e diferentes grupos tentam assegurar espaço na composição. Além de Alcides e Priscila, outros nomes aparecem nas articulações oposicionistas, enquanto a base governista ainda discute suas candidaturas.

Ciro no centro da crise

A aproximação com Ciro Gomes está na origem do conflito que dividiu o PL.

André Fernandes defende uma composição com o ex-governador como caminho para enfrentar o governador Elmano de Freitas. A avaliação do grupo é que Ciro oferece à oposição uma candidatura competitiva em um estado governado pelo mesmo campo político desde 2007.

A aliança, porém, exige que o bolsonarismo cearense aceite como candidato um político que durante anos fez críticas duras a Jair Bolsonaro e aos seus filhos.

Michelle rejeitou publicamente esse movimento. Durante passagem anterior por Fortaleza, classificou a aproximação como precipitada e provocou uma reação imediata de André Fernandes e dos filhos mais velhos de Jair Bolsonaro.

A crise chegou a interromper as conversas entre PL e Ciro. Nos meses seguintes, entretanto, as negociações foram retomadas e o grupo de André voltou a tratar a composição como praticamente encaminhada.

Anotações de Flávio Bolsonaro registradas após uma reunião com Valdemar Costa Neto também indicaram a possibilidade de apoio a Ciro e participação do PL na chapa majoritária.

Ceará vira teste para Flávio

A viagem ocorre em um momento delicado para Flávio Bolsonaro. Pré-candidato à Presidência, ele busca consolidar sua autoridade dentro de um campo político que, sem Jair Bolsonaro na disputa eleitoral, enfrenta conflitos sobre liderança, estratégia e alianças.

O Ceará tornou-se um dos principais pontos dessa disputa porque reúne dois problemas para o senador. O primeiro é eleitoral: o estado deu ao Presidente Lula 69,97% dos votos válidos no segundo turno de 2022, enquanto Jair Bolsonaro recebeu 30,03%. Reduzir essa diferença no Nordeste é uma necessidade para qualquer candidatura presidencial do PL.

O segundo problema está dentro do próprio partido. No Ceará, a estratégia defendida por Flávio e André Fernandes entrou diretamente em conflito com Michelle. A ex-primeira-dama criticou as negociações com Ciro, acusou integrantes da legenda de traição a Jair Bolsonaro e afirmou ter sido desrespeitada por Flávio durante uma conversa telefônica.

Pouco depois, Michelle deixou a presidência nacional do PL Mulher. A crise não encerrou sua influência política, mas abriu espaço para que Flávio intensificasse os movimentos destinados a demonstrar controle sobre as decisões partidárias.

A ofensiva desta sexta-feira deve ser observada também por esse ângulo. Ao subir no palanque de Alcides Fernandes, Flávio não estará apenas lançando um candidato ao Senado. Estará respaldando o grupo que negociou com Ciro Gomes, enfrentou Michelle Bolsonaro e pretende comandar a estratégia do PL para as eleições cearenses de 2026.

O ato na Maraponga servirá, portanto, como demonstração da correlação de forças dentro do partido. O lançamento de Alcides pode consolidar a vitória do grupo de André Fernandes na disputa interna, enquanto a articulação com Ciro continua sendo o teste mais difícil para um bolsonarismo que tenta combinar lealdade ao ex-presidente com os cálculos eleitorais necessários para disputar o Ceará.

Priscila tenta baixar a temperatura

Priscila Costa, nome defendido por Michelle Bolsonaro para o Senado no Ceará, fez acenos públicos a Flávio Bolsonaro antes da agenda do senador em Fortaleza. A vereadora participou de um encontro da pré-campanha em Brasília, elogiou o legado do governo Bolsonaro e afirmou que Flávio poderia dar continuidade a ele.

Os gestos indicam uma tentativa de reduzir o desgaste provocado pela disputa interna no PL. Priscila mantém proximidade com Michelle, mas evita romper com Flávio e passou a defender publicamente a unidade do partido, mesmo depois de perder espaço para Alcides Fernandes na composição ao Senado.