Atitude Popular

Genoíno critica a mídia corporativa: “mentem, não têm pudor e transformam a narrativa numa negação da verdade”

Em entrevista ao Café com Democracia, José Genoino afirma que a mídia corporativa atua como força política, reforça o pensamento único neoliberal e segue como um dos principais obstáculos à radicalização democrática no país

A edição de 2 de abril do programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas e exibido pela TV Atitude Popular, recebeu o ex-deputado federal e analista político José Genoino para uma conversa sobre as narrativas da grande mídia na cobertura jornalística brasileira. Ao longo da entrevista, que serviu de base para esta matéria, Genoino fez uma crítica ampla ao papel histórico e contemporâneo dos grandes conglomerados de comunicação, relacionando sua atuação à manutenção de interesses econômicos, políticos e ideológicos das elites brasileiras.

O debate partiu de um episódio recente envolvendo a GloboNews, citado pelo apresentador como mais um caso de construção enviesada de narrativa contra o presidente Lula, mas rapidamente ganhou densidade histórica. Genoino tratou a atuação da mídia empresarial não como uma deformação ocasional do jornalismo, mas como parte constitutiva de um sistema de poder que atravessa a ditadura militar, a redemocratização, os governos neoliberais, a ofensiva antipetista e o atual reposicionamento conservador diante da disputa política nacional.

Logo no início da entrevista, Genoino recorreu à própria memória para situar politicamente sua fala. Ao lembrar sua chegada a Fortaleza em 1964, afirmou que viveu de perto o ambiente que antecedeu o golpe militar. Citou lugares como a Praça do Ferreira, a Estação Ferroviária, o sindicato dos ferroviários, o Theatro José de Alencar e a Faculdade de Odontologia como cenários que ficaram gravados em sua consciência. A lembrança não foi meramente biográfica. Funcionou como uma espécie de moldura para o argumento central de sua intervenção: a estrutura de poder que sustentou a ditadura nunca foi plenamente desmontada, e a grande mídia segue sendo uma de suas expressões mais persistentes. “Ditadura, nunca mais”, resumiu.

Questionado sobre até que ponto a grande mídia informa ou constrói narrativas destinadas a direcionar a opinião pública, Genoino foi direto ao definir o problema. Segundo ele, “a influência, a narrativa é uma característica da mídia familiar, corporativa e monopolista”. Na sua leitura, a Globo cresceu em aliança com o regime militar, alimentando-se dele e ajudando a legitimá-lo. Ao recordar esse período, afirmou que a emissora divulgava a narrativa da ditadura, transformando assassinatos em suicídios, desaparecimentos em fatos nebulosos e a repressão estatal em suposta defesa da ordem.

Para o ex-deputado, essa forma de operar não desapareceu com a democratização. Apenas se adaptou aos novos tempos. Ele lembrou que, durante a campanha das Diretas Já, a Globo minimizou o comício da Praça da Sé, tratando o acontecimento como se fosse uma comemoração do aniversário de São Paulo. Em seguida, citou o escândalo do Proconsult, no Rio de Janeiro, a edição do debate presidencial entre Fernando Collor e Lula, o papel da emissora na legitimação do Plano Real, a cobertura do mensalão, a escalada da Lava Jato e a insistência em narrativas que, em sua visão, ajudaram a alimentar o antipetismo.

Ao conectar esses episódios, Genoino sustentou que a mídia corporativa brasileira não atua apenas como mediadora da realidade, mas como produtora interessada de enquadramentos políticos. Seu argumento é que existe uma linha de continuidade entre a legitimação da ditadura, o combate às forças populares, a defesa do neoliberalismo e a criminalização seletiva da política. “Um dos problemas que nós temos para a luta democrática no Brasil é democratizar o acesso à informação”, afirmou, numa das falas mais fortes da entrevista e que sintetiza sua análise sobre o tema.

Na avaliação de Genoino, a esquerda falhou ao não enfrentar esse problema com a profundidade necessária quando teve força institucional para isso. Ele classificou como uma derrota da Constituinte o fato de o país não ter democratizado o acesso à informação e reconheceu que também alimentou ilusões a respeito do papel da grande mídia. “Eu paguei caro por isso, porque eu cheguei a ter ilusão e disse sobre isso eu faço autocrítica”, declarou. A fala carrega um peso político importante, porque desloca a crítica da mídia do terreno da indignação genérica para o da autocrítica estratégica de um campo político que, segundo ele, subestimou o poder destrutivo dessa hegemonia.

Ao ser perguntado se ainda existe pluralidade real de perspectivas entre os grandes veículos de comunicação, Genoino respondeu de forma categórica: “Não existe pluralidade nem diversidade. Há um pensamento único”. A partir daí, passou a descrever esse pensamento único como o eixo ideológico que organiza a cobertura dominante no país. Segundo ele, trata-se de uma lógica comprometida com privatizações, austeridade fiscal, financeirização da economia, alinhamento com os Estados Unidos e desmonte gradual de direitos sociais.

Sua crítica não se restringiu ao noticiário doméstico. Genoino citou a cobertura da mídia brasileira sobre Palestina, Irã, Cuba e Venezuela para sustentar que os grandes meios operam segundo a lógica da ordem ocidental neoliberal e imperialista. Numa definição contundente, afirmou que a “mídia corporativa familiar” é “o partido da ordem neoliberal imperialista, da ordem ocidental”. Mais do que uma crítica ao viés editorial, a formulação aponta para a ideia de que os conglomerados de mídia funcionam como agentes políticos integrados a uma determinada visão de mundo e a uma geopolítica específica.

Essa leitura aparece também quando o entrevistado comenta os interesses que orientam a forma como a notícia é apresentada ao público. Para Genoino, a cobertura econômica da mídia está profundamente comprometida com a ótica do sistema financeiro e da financeirização. Ele citou como exemplo a naturalização do corte de gastos, a defesa da desvinculação do salário mínimo e dos investimentos em saúde e educação, em contraste com o silêncio em torno do peso dos juros da dívida pública. “É uma orquestração dirigida”, resumiu.

Nessa passagem, sua crítica adquire um sentido ainda mais agudo. O problema, para ele, não está apenas no noticiário factual, mas também na camada interpretativa que se sobrepõe à notícia. Ao abordar o comportamento de comentaristas de televisão e rádio, Genoino afirmou que o comentário muitas vezes chega ao público ainda mais viciado do que a própria notícia. Em vez de esclarecer, reforça o enquadramento ideológico, naturaliza interesses de classe e transforma questões complexas em moralismos seletivos. “Além da notícia estar viciada, o comentário está viciado duas vezes”, disse.

Ao refletir sobre a ascensão das redes sociais e das plataformas digitais, Genoino rejeitou a ideia de que a mídia tradicional perdeu o controle da disputa narrativa. Para ele, houve uma adaptação estratégica. Os grandes veículos passaram a se mover dentro do novo ambiente, ajustando-se à lógica das plataformas e preservando sua capacidade de influência. Segundo sua avaliação, esse cenário agravou um problema anterior, porque agora a concentração da mídia se combina com o poder das big techs, que, nas suas palavras, “mentem, não têm pudor e transformam a narrativa numa negação da verdade”.

É nesse ponto que a entrevista ultrapassa a crítica à imprensa e se converte numa reflexão sobre democracia, hegemonia e contra-hegemonia. Para Genoino, o enfrentamento da mídia corporativa é parte decisiva da luta democrática, ao lado de outras agendas estruturais, como a segurança pública, o papel das Forças Armadas, a reforma política, o sistema de justiça e o combate às emendas impositivas que desorganizam o planejamento estatal. Na sua leitura, a criminalização da política, impulsionada pelos grandes meios, ajudou a pavimentar o terreno para a extrema direita.

Ao falar sobre esse processo, ele estabeleceu uma conexão entre a experiência do mensalão, a cobertura das manifestações de 2013, o golpe contra Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro. Segundo Genoino, a mídia conservadora teve papel destacado na fabricação desse ambiente, primeiro desmoralizando a política e depois aceitando a extrema direita como instrumento útil para derrotar a esquerda. “Em 2016, ela entendeu que a eleição do Bolsonaro não era um mal, porque estava derrotando a esquerda representada por Haddad e deu no que deu”, afirmou.

A crítica se desdobra, então, na formulação de uma tarefa política. Genoino defende a construção de uma contra-hegemonia capaz de disputar sentidos, consciências e expectativas de futuro. Para isso, considera indispensável ampliar o apoio à mídia alternativa e democratizar o acesso aos veículos democráticos que tiveram papel importante na resistência à ditadura, no enfrentamento à imprensa golpista, na denúncia do golpe contra Dilma e na campanha pela liberdade de Lula. “A informação é um direito da cidadania e o acesso a ela tem que ser livre, amplo e irrestrito”, disse.

Esse ponto adquire ainda mais relevância quando o debate chega à distribuição de verbas públicas de comunicação. Diante da observação de Luiz Regadas sobre a enorme disparidade entre os recursos recebidos pelos grandes meios e a fatia destinada aos chamados blogueiros sujos e veículos independentes, Genoino reforçou que enfrentar os “gabinetes do ódio” exige elevar o patamar de democratização do sistema comunicacional. Sem isso, a disputa continua profundamente desigual, porque o campo popular enfrenta máquinas narrativas muito mais potentes, financiadas e capilarizadas.

Na parte final da entrevista, Genoino articulou sua crítica à mídia ao cenário eleitoral e ao futuro do país. Defendeu a unidade das esquerdas como condição estratégica para enfrentar a força do conservadorismo e disse que a próxima eleição reunirá três eixos decisivos: soberania nacional, democracia e pauta social. “A eleição não é só para conter, é para transformar”, afirmou. Em seguida, reforçou que o desafio não é apenas eleitoral, mas civilizatório. “Não é só ganhar o voto, é ganhar consciências e corações.”

Seu raciocínio, nesse momento, combina realismo e horizonte político. De um lado, ele alerta para o papel da mídia na tentativa de normalizar novas lideranças da direita e de enquadrar Lula nos limites do credo neoliberal. De outro, insiste que a esquerda não pode responder a isso com acomodação. “A esquerda não pode ficar acomodada, não pode ficar no possibilismo, não pode ficar na mediocridade. A esquerda tem que ser romântica, tem que ser idealista, tem que ser sonhadora”, declarou.

A entrevista se encerrou com uma fala que retoma, em chave histórica, o sentido do próprio programa. Ao agradecer o convite, Genoino comentou que o nome Café com Democracia diz muito sobre o Brasil, porque a questão democrática ainda não foi resolvida no país. Segundo ele, as elites sempre encontraram um jeito de mudar alguma coisa para que o essencial permanecesse intocado. Ao criticar a defesa de anistia aos golpistas feita por setores da direita, recordou o erro histórico de conciliações que preservam estruturas autoritárias e cobram seu preço adiante.

Mais do que uma denúncia da parcialidade dos meios de comunicação, a fala de José Genoino no Café com Democracia foi uma intervenção sobre poder. Ao reconstruir a trajetória da mídia empresarial brasileira como braço político da ordem conservadora, ele recolocou uma pergunta decisiva para o presente: é possível aprofundar a democracia sem enfrentar a concentração da comunicação? Sua resposta foi clara do começo ao fim. Não. Enquanto a informação continuar submetida a interesses oligárquicos, a democracia brasileira seguirá incompleta, vulnerável e permanentemente ameaçada por narrativas fabricadas para disciplinar o debate público e conter qualquer projeto de transformação social.

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