Atitude Popular

Gestor da Faria Lima critica juros do BC e fala em “erro grotesco”

Da Redação

Um dos nomes do mercado financeiro rompeu o silêncio e fez críticas duras à política de juros do Banco Central. Ao classificar o atual patamar como “erro grotesco”, o gestor aponta impactos diretos sobre crédito, investimento e crescimento — reacendendo o debate sobre os rumos da economia brasileira.

O debate sobre a política de juros no Brasil ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira, 20 de abril de 2026, após um gestor da Faria Lima romper o silêncio e criticar duramente a condução do Banco Central. Claudio Andrade, sócio-fundador da Polo Capital, classificou o atual nível da taxa de juros como um “erro grotesco”, apontando que a estratégia adotada já não cumpre seu papel principal e passou a gerar efeitos negativos sobre a economia real.

A crítica parte de um ponto central: o Brasil mantém uma política monetária excessivamente restritiva mesmo diante de um cenário inflacionário que, segundo o gestor, não justificaria esse nível de aperto. Para Andrade, os juros elevados perderam eficácia no combate à inflação e passaram a atuar como freio direto sobre a atividade econômica, comprimindo investimentos e limitando a expansão das empresas.

O impacto mais imediato dessa política aparece no crédito. Com taxas próximas de 17% ao ano, o custo da dívida se torna proibitivo para grande parte das empresas, especialmente aquelas com estruturas mais alavancadas. Nesse ambiente, qualquer erro de gestão ou oscilação de mercado pode rapidamente transformar uma situação administrável em crise financeira.

Essa dinâmica cria um efeito em cadeia. Empresas investem menos, expandem menos e, consequentemente, contratam menos. O resultado é um ambiente econômico travado, em que o crescimento perde força e o mercado de trabalho tende a sofrer. Analistas destacam que o crédito caro e escasso atinge desde grandes companhias até pequenos negócios, reduzindo a capacidade de inovação e sobrevivência em setores mais sensíveis.

Outro ponto levantado pelo gestor é a comparação internacional. Segundo ele, o Brasil apresenta uma distorção significativa ao manter juros reais muito acima de outros países com níveis de inflação semelhantes. Economias latino-americanas, como o Chile, operam com taxas mais baixas, o que levanta questionamentos sobre a justificativa técnica da política monetária brasileira.

Essa crítica toca em um debate estrutural da economia nacional: o equilíbrio entre controle da inflação e estímulo ao crescimento. O Banco Central, por meio do Comitê de Política Monetária (Copom), tem como função principal regular a liquidez da economia e definir a taxa básica de juros justamente para controlar a inflação. No entanto, quando o aperto monetário se prolonga, seus efeitos colaterais passam a ganhar peso político e econômico.

Andrade também alerta para um paradoxo importante. Segundo ele, juros excessivamente altos podem, no médio prazo, gerar efeitos contrários aos desejados. Ao reduzir investimentos, a política monetária compromete a capacidade produtiva da economia, o que pode pressionar a oferta futura e, consequentemente, a inflação. Em outras palavras, o remédio pode acabar agravando o problema que tenta resolver.

Além disso, há um impacto fiscal relevante. Juros elevados aumentam o custo da dívida pública, pressionando o orçamento e dificultando o equilíbrio das contas do governo. Esse efeito se soma aos impactos sobre empresas e consumidores, criando um ambiente econômico mais restritivo em diferentes níveis.

O posicionamento do gestor é significativo porque vem justamente do coração do mercado financeiro — a chamada Faria Lima, tradicionalmente associada a uma postura mais conservadora em relação à política monetária. Quando um representante desse setor passa a criticar abertamente o nível dos juros, o debate ganha nova dimensão e sinaliza possíveis mudanças de percepção dentro do próprio mercado.

Ao mesmo tempo, a crítica não é consensual. Parte do mercado ainda defende a manutenção de juros elevados como forma de garantir a credibilidade da política monetária e evitar pressões inflacionárias, especialmente em um cenário global instável, marcado por guerras, choques de energia e volatilidade cambial.

O fato é que o Brasil vive um momento de inflexão. De um lado, há a necessidade de controlar a inflação e preservar a estabilidade econômica. De outro, cresce a pressão para reduzir o custo do dinheiro e destravar o crescimento. A fala de Claudio Andrade explicita essa tensão e reforça que o debate sobre juros deixou de ser apenas técnico — ele se tornou também político, estratégico e central para o futuro da economia brasileira.

No fim, a pergunta que se impõe é direta: até que ponto o país pode sustentar uma política de juros tão elevados sem comprometer sua capacidade de crescer. E mais importante — quem paga essa conta.