Governo reage a Flávio Bolsonaro e acusa senador de agir contra os interesses do Brasil nos EUA

Da Redação

O governo federal divulgou uma dura nota oficial criticando a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável por discutir a manutenção ou ampliação das tarifas impostas contra produtos brasileiros. No documento, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirma que o parlamentar atuou de forma contrária aos interesses nacionais e o acusa de politizar uma negociação comercial sensível para trabalhadores, empresas e exportadores brasileiros.

A manifestação representa uma das respostas mais contundentes do Palácio do Planalto às articulações internacionais da família Bolsonaro. Segundo o governo, enquanto representantes dos ministérios do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, das Relações Exteriores, da Justiça e do próprio Palácio do Planalto negociavam tecnicamente com autoridades norte-americanas para tentar reverter o tarifaço, Flávio Bolsonaro utilizava a audiência para defender posições que enfraquecem a estratégia brasileira.

Maioria dos participantes rejeitou o tarifaço

A nota revela números que ajudam a contextualizar a audiência organizada pelo USTR.

Ao todo, 78 pessoas e entidades se inscreveram para participar da consulta pública. Desses participantes, 63 manifestaram-se contra a imposição das tarifas e apenas 15 defenderam sua manutenção.

Entre os participantes norte-americanos, o resultado também foi desfavorável ao tarifaço: 30 dos 44 inscritos dos Estados Unidos posicionaram-se contra as medidas, enquanto apenas 14 apoiaram as tarifas.

Já entre os 34 brasileiros inscritos, o governo destaca que Flávio Bolsonaro foi o único que não se posicionou claramente contra as medidas impostas ao Brasil, limitando-se a defender o adiamento da decisão. Para o Planalto, essa postura teve “claro objetivo eleitoreiro”.

Governo acusa senador de legitimar acusações dos EUA

Outro ponto destacado pela Presidência diz respeito ao conteúdo da fala do senador.

Segundo a nota oficial, em vez de contestar as justificativas apresentadas pelo governo norte-americano para aplicar tarifas ao Brasil, Flávio Bolsonaro teria optado por reforçar críticas feitas pelos Estados Unidos ao país.

“O senador optou por legitimar os resultados de uma investigação injusta contra empresários e trabalhadores do nosso país”, afirma o documento.

O governo também observa que o parlamentar não teria negado que a mobilização internacional conduzida por integrantes da família Bolsonaro contribuiu para o atual conflito comercial entre Brasil e Estados Unidos.

Debate sobre regulação das plataformas

A nota dedica um trecho específico às declarações de Flávio Bolsonaro sobre o ambiente digital.

Segundo o governo, o senador defendeu a revogação de decretos brasileiros voltados ao combate à circulação de conteúdos criminosos e à violência contra mulheres nas plataformas digitais.

Na avaliação da Presidência, essas medidas interessariam apenas “a quem lucra com o caos e a quem precisa dele para cometer crimes”.

Caso Master entra na disputa

Outro tema abordado na nota é o chamado Caso Master.

O governo afirma que Flávio Bolsonaro mencionou o episódio durante sua participação na audiência, mas omitiu, segundo a Presidência, que o caso teria origem durante o governo Jair Bolsonaro.

O documento também afirma que o senador deixou de mencionar sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, lembrando que Flávio teria solicitado cerca de R$ 130 milhões para financiar um filme sobre seu pai, conforme alegação do próprio parlamentar.

INSS também entra no debate

A Secretaria de Comunicação Social ainda relaciona a discussão ao escândalo dos descontos ilegais em benefícios previdenciários.

Segundo a nota, o esquema começou durante o governo Bolsonaro e foi desarticulado apenas na atual gestão por meio de ações conjuntas da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal.

O texto acrescenta que aproximadamente R$ 3,2 bilhões desviados foram devolvidos a 4,2 milhões de aposentados e pensionistas.

PIX e soberania econômica

O governo também critica a mudança de discurso do senador sobre o PIX.

Segundo a nota, após ter criticado o sistema de pagamentos ao longo do último ano, Flávio Bolsonaro agora procura apresentar-se como defensor da ferramenta, mas propondo sua adequação aos interesses norte-americanos.

Para o Planalto, essa posição compromete um dos principais instrumentos de inovação financeira desenvolvidos pelo Brasil.

Negociação diplomática continua

A Presidência informa que as negociações com Washington vêm sendo realizadas continuamente desde julho de 2025.

Segundo o documento, reuniões técnicas, contatos diplomáticos, telefonemas e encontros de alto nível buscam convencer o governo norte-americano de que as tarifas não possuem fundamento econômico ou jurídico.

Enquanto isso ocorria, destaca a nota, equipes do Ministério do Desenvolvimento, do Itamaraty, do Ministério da Justiça e do Palácio do Planalto mantinham nova rodada de negociações com técnicos do USTR justamente para tentar reverter as medidas comerciais.

“Há diferença entre fazer oposição ao governo e ao país”

O trecho final da nota adota um tom político ainda mais incisivo.

O governo reconhece que divergências políticas fazem parte da democracia, mas estabelece uma distinção entre oposição interna e atuação junto a governos estrangeiros.

“Divergir do governo é legítimo. Convocar uma potência estrangeira a pressionar o próprio país é traição à Pátria. Há uma diferença essencial entre fazer oposição ao governo e fazer oposição ao país e ao povo brasileiro”, afirma o documento.

A nota amplia o embate político em torno da crise comercial com os Estados Unidos e evidencia que o tarifaço deixou de ser apenas uma disputa econômica. Para o governo federal, a questão passou a envolver diretamente soberania nacional, política externa e os limites da atuação de agentes políticos brasileiros junto a governos estrangeiros.