Cultivos encontrados em Acopiara, Pacoti e Redenção levantam a hipótese de que grupos criminosos estejam ampliando a produção local para reduzir a dependência de fornecedores de outros estados e do Paraguai
Da Redação
A descoberta de plantações de maconha em larga escala no Ceará pode indicar uma mudança na forma de atuação de grupos ligados ao tráfico de drogas no estado. A hipótese foi levantada pelo jornalista Lucas Barbosa, do jornal O Povo, após uma sequência de apreensões realizadas pelas forças de segurança nos últimos meses.
O caso de maior dimensão ocorreu em Acopiara, no Centro-Sul cearense. No dia 25 de junho, uma operação encontrou uma plantação com aproximadamente 290 mil pés de maconha. O volume chamou atenção pelo potencial de produção e pelo valor que uma eventual colheita poderia representar para organizações criminosas.
Outros cultivos de grande porte já haviam sido identificados no estado. Em dezembro de 2025, mais de 10 mil pés de maconha foram encontrados em Pacoti, no Maciço de Baturité. Dias depois, agentes apreenderam cerca de 20 mil mudas em Redenção. Uma nova plantação foi desarticulada no mesmo município no dia 9 de julho. Também foram registrados cultivos menores em estufas instaladas dentro de residências.
Historicamente, grande parte da maconha comercializada no Ceará tem origem no Paraguai ou no chamado Polígono da Maconha, região produtora localizada entre áreas de Pernambuco e da Bahia. A repetição de plantações de grande porte em território cearense, porém, pode representar uma tentativa de fortalecer a produção local e diminuir custos e riscos relacionados ao transporte da droga por longas distâncias.
A possibilidade ainda precisa ser confirmada por investigações mais amplas. As apreensões, isoladamente, não permitem determinar o tamanho real da produção nem estabelecer quanto da maconha que circula no estado já estaria sendo cultivada no Ceará.
As investigações sobre a plantação encontrada em Pacoti também revelaram um grau elevado de organização. Segundo informações da Polícia Federal citadas pelo jornalista, pessoas com experiência no cultivo da planta foram trazidas da Colômbia para trabalhar na lavoura.
O envolvimento de especialistas estrangeiros e o tamanho das áreas encontradas reforçam a suspeita de que os cultivos não seriam iniciativas isoladas. A produção pode estar relacionada a grupos criminosos com capacidade financeira para adquirir terrenos, montar sistemas de irrigação, contratar trabalhadores e garantir a distribuição da droga.
Ainda conforme a análise publicada por Lucas Barbosa, o fortalecimento de facções atuantes no Ceará, especialmente do Comando Vermelho, exige atenção para a possibilidade de que os recursos obtidos com o tráfico estejam financiando outras práticas criminosas. A plantação de Acopiara, caso tivesse sido colhida, poderia render milhões de reais.
O avanço das investigações deverá apontar quem financiava os cultivos, qual seria o destino da produção e se as plantações encontradas em diferentes municípios possuem ligação entre si. Também será necessário avaliar se o Ceará está deixando de ser apenas um mercado consumidor e uma rota de distribuição para assumir um papel mais relevante na produção de maconha em larga escala.

