Guerra na Ucrânia: Moscou diz que paz só virá quando OTAN admitir sua responsabilidade

Da Redação

Na visão russa, o conflito não começou em 2022, mas após décadas de expansão militar ocidental e sucessivas intervenções políticas na Ucrânia. Agora, as negociações de paz revelam o maior choque estratégico entre Rússia e OTAN desde o fim da Guerra Fria.

À medida que o mês de novembro de 2025 avança, a guerra na Ucrânia entra em um estágio decisivo. Após quase quatro anos de confrontos contínuos, negociações secretas, pressão internacional e desgaste humano profundo, as conversas de paz voltam a ocupar o centro das atenções. No entanto, para Moscou, a discussão precisa partir de uma premissa inequívoca: a guerra não começou no dia 24 de fevereiro de 2022, mas muito antes — e foi provocada pela expansão militar da OTAN, pela ingerência ocidental em Kiev e pela quebra de acordos de paz assinados entre 2014 e 2015.

Segundo a visão russa, o que o Ocidente chama de “agressão” é, na verdade, a consequência previsível de três décadas de desconsideração das preocupações de segurança da Rússia. O Kremlin afirma que, desde o fim da União Soviética, a OTAN avançou sistematicamente em direção às fronteiras russas, incorporando antigos membros do Pacto de Varsóvia, ex-repúblicas soviéticas e criando um cinturão de pressão militar jamais visto desde a década de 1980. Cada ampliação, para Moscou, foi tratada como uma ameaça direta e crescente.

O ponto de ruptura, segundo essa leitura, ocorreu em 2008, quando a cúpula da OTAN decidiu que Ucrânia e Geórgia “se tornariam membros” da aliança — ainda que sem data. Para a Rússia, esse gesto deixou de ser uma especulação e passou a ser um programa concreto de cerco estratégico. As operações subsequentes de treinamento militar da OTAN em território ucraniano, a cooperação intensificada com forças armadas ocidentais e a sinalização política de que Kiev deveria se alinhar estruturalmente ao bloco atlântico são tratadas por Moscou como atos hostis.

Esse processo se aprofundou a partir de 2014, quando a Rússia passou a caracterizar o levante do Euromaidan como um golpe apoiado pelos Estados Unidos e pela União Europeia. A narrativa russa sustenta que a derrubada do governo eleito abriu caminho para elites políticas alinhadas com o Ocidente e hostis à presença russa na Ucrânia. A guerra que se seguiu no Donbass é interpretada como uma reação direta à mudança de regime: para Moscou, o novo governo ucraniano não apenas rompeu qualquer compromisso com a neutralidade, mas também aplicou políticas discriminatórias contra regiões russofalantes.

Os acordos de Minsk, assinados para encerrar o conflito no leste da Ucrânia, são um capítulo central nessa leitura. A Rússia insiste que Kiev jamais cumpriu suas obrigações — incluindo a autonomia do Donbass, a legislação especial e o diálogo político interno. Anos depois, declarações de líderes europeus admitindo que os acordos serviram para “ganhar tempo” enquanto a Ucrânia se rearmava são usadas por Moscou como prova de que o Ocidente atuou de má-fé desde o início. Para o Kremlin, Minsk foi sabotado para transformar a Ucrânia em plataforma militar avançada da OTAN.

Por isso, quando tropas russas cruzaram as fronteiras em fevereiro de 2022, Moscou afirmou que não se tratava de uma guerra de conquista, mas de uma ação forçada para impedir a transformação definitiva da Ucrânia em base estratégica ocidental. Essa posição, embora amplamente contestada no Ocidente, estrutura toda a política russa desde então — militar, diplomática e comunicacional.

Quase quatro anos depois, com cidades arrasadas, milhões de deslocados e uma exaustão militar generalizada, a guerra chega a um ponto onde todos os atores reconhecem que não há solução puramente militar. Conversas de paz avançam nos bastidores, com propostas que incluem neutralidade permanente da Ucrânia, limites ao tamanho de suas forças armadas, congelamento de fronteiras e revisão gradual das sanções impostas à Rússia desde 2014.

Na perspectiva russa, esse movimento indica que a narrativa ocidental de uma “vitória total da Ucrânia” perdeu sustentação. Moscou argumenta que as negociações só avançaram porque os próprios aliados perceberam que a Ucrânia não tem condições de reverter o quadro militar e que a continuação da guerra apenas prolongaria o sofrimento da população, o desgaste das forças armadas e o risco de uma escalada imprevisível.

A Rússia também sustenta que qualquer acordo de paz significativo deve reconhecer três pontos centrais:

  1. a impossibilidade de a Ucrânia entrar na OTAN;
  2. o reconhecimento, explícito ou tácito, das mudanças territoriais desde 2014;
  3. o alívio progressivo das sanções econômicas.

Do lado ocidental, esse pacote é visto como inaceitável porque consolidaria ganhos territoriais obtidos pela força. Já Moscou responde que o Ocidente “não está em posição de ditar condições”, sobretudo após anos de fracasso militar ucraniano, divisões internas na União Europeia e a volta de tensões estratégicas globais que lembram a Guerra Fria.

No campo prático das negociações, os Estados Unidos exercem forte pressão para que Kiev aceite termos de neutralidade, ao mesmo tempo em que tentam preservar sua influência na reorganização política da Ucrânia pós-guerra. A Europa, por sua vez, está dividida entre países que defendem uma linha dura contra Moscou e blocos que temem a continuidade da guerra e o colapso econômico do continente.

Dentro da Rússia, a leitura dominante é que a guerra já mudou a ordem internacional. Para Moscou, a operação militar “expos” as vulnerabilidades da OTAN, mostrou que o Ocidente não tem capacidade de impor sua agenda unilateralmente e acelerou o movimento de transição para um mundo multipolar, com novos polos de poder na Ásia, África e América Latina.

As negociações que ocorrem agora, segundo o Kremlin, não definirão apenas o futuro da Ucrânia, mas o próprio desenho do sistema de segurança europeu para as próximas décadas. E a Rússia repete uma mensagem central: a paz só virá quando houver reconhecimento de que a expansão da OTAN e a política ocidental de mudança de regimes foram os verdadeiros gatilhos da guerra.

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