Atitude Popular

Haddad defende contratos e critica privatização da Sabesp

Da Redação

Pré-candidato ao governo de SP critica venda da Sabesp, mas garante segurança jurídica e afirma que o PT respeita contratos mesmo ao revisar políticas.

O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, reafirmou neste 21 de março de 2026 uma posição que busca equilibrar crítica política e compromisso institucional: a defesa do respeito aos contratos, mesmo diante de discordâncias com políticas adotadas por gestões anteriores. A declaração foi feita ao comentar a privatização da Sabesp, um dos temas mais sensíveis do cenário político paulista atual.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de rever a venda da companhia de saneamento, Haddad foi direto ao estabelecer um princípio: “os governos do PT respeitam contratos”. A afirmação não é apenas retórica, mas uma tentativa clara de responder a um dos principais ataques recorrentes da oposição, que associa o partido à insegurança jurídica.

Ao mesmo tempo, Haddad não recuou na crítica política. Ele afirmou que não teria privatizado a Sabesp e que discorda da lógica de desestatização adotada pelo governo de Tarcísio de Freitas. A empresa, responsável por grande parte do abastecimento de água e saneamento no estado, tornou-se símbolo de um embate mais amplo entre dois projetos: o da privatização de serviços essenciais e o da manutenção de estruturas públicas estratégicas.

A posição de Haddad revela uma estratégia política sofisticada. De um lado, ele se coloca como crítico da privatização, dialogando com setores que defendem maior presença do Estado em áreas essenciais. De outro, busca transmitir previsibilidade institucional ao afirmar que eventuais mudanças não ocorreriam de forma arbitrária ou fora da legalidade.

Esse ponto é central. Haddad destacou que qualquer revisão de políticas herdadas deve respeitar os efeitos jurídicos já produzidos. Ou seja, não se trata de romper contratos unilateralmente, mas de analisá-los dentro da lei, avaliando possibilidades de correção ou redirecionamento sem comprometer a segurança institucional.

A Sabesp, nesse contexto, ocupa papel estratégico. Trata-se de uma das maiores companhias de saneamento da América Latina, responsável por contratos de concessão que estruturam o abastecimento de água e o tratamento de esgoto em centenas de municípios paulistas. Esses contratos envolvem metas, investimentos e compromissos regulatórios que não podem ser simplesmente anulados sem consequências econômicas e jurídicas relevantes.

É exatamente esse o ponto explorado por Haddad ao afirmar que desrespeitar contratos pode gerar mais prejuízos do que benefícios. A fala sinaliza uma preocupação com estabilidade econômica, confiança de investidores e funcionamento das instituições — elementos considerados centrais para qualquer governo que pretenda atuar de forma consistente no campo econômico.

Ao mesmo tempo, a crítica à privatização aponta para um debate mais profundo sobre o papel do Estado. A venda da Sabesp, concluída em 2024, foi apresentada pelo governo estadual como uma forma de ampliar investimentos e melhorar a eficiência do serviço. No entanto, o processo também gerou controvérsias, incluindo questionamentos sobre impactos tarifários e sobre a perda de capacidade de intervenção pública em um setor essencial.

Nesse cenário, Haddad tenta ocupar um espaço político intermediário: rejeita o modelo privatista, mas evita um discurso de ruptura institucional. A mensagem é clara: mudanças podem ocorrer, mas dentro das regras do jogo.

Do ponto de vista eleitoral, a estratégia também é evidente. Ao combinar crítica à privatização com defesa da segurança jurídica, Haddad busca ampliar seu alcance político, dialogando tanto com eleitores preocupados com serviços públicos quanto com setores econômicos que demandam previsibilidade.

No plano mais amplo, o episódio revela um dos principais dilemas das economias contemporâneas, especialmente no Sul Global: como equilibrar soberania sobre serviços estratégicos com estabilidade institucional e respeito a contratos.

A fala de Haddad, nesse sentido, vai além do caso Sabesp. Ela aponta para uma disputa estrutural sobre o modelo de desenvolvimento, o papel do Estado e os limites da intervenção política em setores privatizados.

No limite, o que está em jogo não é apenas a gestão de uma empresa de saneamento, mas a definição de como governos lidam com heranças institucionais e com a tensão permanente entre mudança política e continuidade jurídica.