Atitude Popular

Haddad deixa Fazenda e aponta pacto federativo

Da Redação

Ministro anuncia saída do comando da economia e afirma que cooperação entre União, estados e municípios foi decisiva para crescimento, emprego e controle da inflação.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou nesta quinta-feira, 19 de março de 2026, sua saída do comando da equipe econômica do governo federal, encerrando um ciclo central na reconstrução da política econômica brasileira nos últimos anos. O anúncio foi feito durante a 17ª Caravana Federativa, em São Paulo, em um discurso que combinou balanço de gestão, sinalização política e tentativa de consolidar um legado estratégico baseado na articulação entre os entes federativos.

Ao se despedir, Haddad destacou que o principal fator por trás dos resultados econômicos recentes foi a recuperação do pacto federativo. Segundo ele, a cooperação entre União, estados e municípios foi determinante para impulsionar o crescimento econômico, reduzir o desemprego e manter a inflação sob controle em um período marcado por instabilidade internacional e pressões externas sobre preços e cadeias produtivas.

A fala do ministro não foi apenas técnica. Foi política. Ao colocar o pacto federativo como “o segredo” da economia, Haddad sinaliza uma leitura estrutural do processo econômico brasileiro, em contraste com modelos centralizadores ou puramente financeiros. A ideia central é que o crescimento não foi fruto apenas de decisões macroeconômicas em Brasília, mas de uma engrenagem institucional mais ampla, que envolveu governadores, prefeitos e o Congresso Nacional.

Nesse sentido, Haddad fez questão de reconhecer o papel do Legislativo, destacando o apoio na aprovação de medidas consideradas essenciais para estabilizar a economia e viabilizar políticas públicas. Ele citou diretamente as lideranças do Senado e da Câmara, reforçando que, apesar das divergências políticas, houve convergência em torno de pautas estratégicas para o país.

Entre os marcos de sua gestão, o ministro apontou a reforma tributária, aprovada com ampla articulação política, e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para trabalhadores de renda mais baixa, compensada por maior tributação sobre rendimentos de alta renda. Essa combinação revela uma orientação econômica que busca equilibrar responsabilidade fiscal com redistribuição de renda, em um cenário global marcado por desigualdade crescente.

Outro eixo central destacado por Haddad foi o redesenho das relações fiscais entre União e estados. Programas como a renegociação das dívidas estaduais permitiram, segundo ele, recuperar a capacidade de investimento dos entes subnacionais, rompendo com uma lógica histórica de dependência e fragilidade fiscal. A afirmação de que o governo não queria mais ver governadores “com o pires na mão” sintetiza essa mudança de abordagem, que busca fortalecer a autonomia federativa como motor do desenvolvimento.

Além disso, o ministro ressaltou o papel do financiamento público, especialmente via BNDES, e a ampliação de mecanismos de captação de recursos externos para estados e municípios. Essas medidas foram fundamentais para retomar obras, destravar investimentos e dinamizar a economia real, especialmente em infraestrutura e serviços públicos.

A saída de Haddad ocorre em um contexto político estratégico. O movimento já vinha sendo sinalizado desde o final de 2025 e está diretamente relacionado ao calendário eleitoral de 2026. A tendência, confirmada nos bastidores e reforçada por declarações recentes, é que o ex-ministro dispute o governo do estado de São Paulo, reposicionando-se no centro da disputa política nacional.

Essa transição não é apenas individual. Ela marca uma inflexão no próprio governo. Haddad foi uma das principais figuras da política econômica desde o início do terceiro mandato de Lula, atuando como articulador entre diferentes forças políticas e como operador de um modelo que buscou combinar estabilidade macroeconômica com retomada do investimento público e inclusão social.

Do ponto de vista estrutural, sua saída levanta uma questão central: a continuidade desse modelo. O desafio para o governo será manter a lógica de coordenação federativa e equilíbrio político que sustentou os resultados recentes, em um cenário que tende a se tornar mais polarizado com a aproximação das eleições.

Sob uma perspectiva mais ampla, especialmente a partir do olhar do Sul Global, a experiência destacada por Haddad ganha um significado adicional. Em um mundo marcado por crises sucessivas, guerras e choques econômicos externos, a capacidade de articulação interna e de fortalecimento das estruturas nacionais se torna um elemento central de soberania econômica.

Ao enfatizar o pacto federativo, Haddad aponta justamente para essa dimensão: a ideia de que o desenvolvimento não pode ser imposto de fora nem conduzido apenas por interesses financeiros globais, mas deve ser construído a partir da coordenação interna, do fortalecimento institucional e da capacidade do Estado de induzir crescimento com inclusão.

No limite, sua despedida não é apenas o encerramento de uma gestão. É também a tentativa de fixar uma narrativa sobre o que funcionou na economia brasileira recente e sobre qual caminho deve ser seguido daqui para frente. Uma narrativa que coloca a cooperação política, a reconstrução institucional e o papel ativo do Estado no centro da estratégia econômica.