Da RT
No 81º aniversário da bomba atômica lançada sobre Hiroshima, cerimônia no Japão renova apelo pelo desarmamento em um cenário marcado pelo crescimento dos arsenais nucleares, pela erosão dos tratados de controle de armas e pelo aumento das tensões entre as grandes potências.
Hiroshima voltou a ser palco, nesta quinta-feira (6), de homenagens às vítimas do primeiro ataque nuclear da história. A cerimônia, realizada no Parque Memorial da Paz, reuniu cerca de 50 mil pessoas, representantes de mais de 120 países e sobreviventes da explosão de 6 de agosto de 1945, quando os Estados Unidos lançaram a bomba atômica “Little Boy”, matando dezenas de milhares de pessoas instantaneamente e deixando um legado permanente de sofrimento causado pela radiação.
Durante a cerimônia, o prefeito Kazumi Matsui alertou que o mundo atravessa um momento de crescente normalização da dissuasão nuclear. Em seu discurso, afirmou que justificar armas atômicas como instrumento de segurança significa ignorar as consequências humanitárias demonstradas em Hiroshima e Nagasaki, defendendo que a comunidade internacional retome o caminho do desarmamento.
O primeiro-ministro japonês, Sanae Takaichi, reafirmou o compromisso do país com a não proliferação nuclear, mas voltou a defender uma estratégia baseada nos mecanismos existentes das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, seu governo enfrenta críticas internas por discutir mudanças na tradicional política japonesa dos “três princípios não nucleares”, em meio ao aumento das tensões estratégicas no Indo-Pacífico.
O aniversário de Hiroshima acontece em um contexto internacional particularmente delicado. Segundo diferentes institutos especializados em segurança internacional, as nove potências nucleares continuam modernizando seus arsenais e desenvolvendo novos sistemas de lançamento, enquanto importantes acordos de controle de armas firmados durante a Guerra Fria perderam vigência ou encontram-se fragilizados. A rivalidade entre Estados Unidos, Rússia e China, somada às crises envolvendo Ucrânia, Oriente Médio e Indo-Pacífico, elevou novamente o risco de uma escalada nuclear, ainda que nenhum dos principais atores declare intenção de recorrer a esse tipo de armamento.
Há 81 anos, Hiroshima tornou-se símbolo da capacidade destrutiva das armas nucleares. Estima-se que entre 140 mil e 166 mil pessoas tenham morrido na cidade até o final de 1945 em consequência direta da explosão e dos efeitos da radiação. Três dias depois, Nagasaki também foi atingida por uma bomba atômica, consolidando o único uso de armas nucleares em conflitos armados na história.
Passadas mais de oito décadas, a memória dos hibakusha — os sobreviventes das explosões — torna-se cada vez mais urgente. O número dessas testemunhas diminui rapidamente devido à idade avançada, enquanto o debate internacional volta a incorporar conceitos de dissuasão nuclear que pareciam enfraquecidos após o fim da Guerra Fria. Organizações internacionais e movimentos pacifistas alertam que a combinação entre novas tecnologias militares, inteligência artificial, armas hipersônicas e deterioração dos mecanismos de diálogo estratégico aumenta os riscos de erros de cálculo entre potências nucleares.
O significado de Hiroshima ultrapassa a lembrança de um episódio da Segunda Guerra Mundial. A cidade permanece como um alerta permanente sobre os limites da guerra e os riscos representados pela corrida armamentista. Em um cenário internacional cada vez mais multipolar e marcado por disputas geopolíticas, preservar os mecanismos de controle de armas e fortalecer a diplomacia continuam sendo desafios centrais para evitar que a humanidade volte a experimentar uma tragédia semelhante àquela vivida pelo povo japonês em agosto de 1945.






