Gema Esmeraldo defende políticas permanentes para o semiárido e destaca o papel das mulheres na produção de alimentos, na agroecologia e na preservação da natureza
Da Redação
A convivência com o semiárido depende de políticas públicas permanentes, acesso à terra, água, crédito, assistência técnica e tecnologias adaptadas às condições das comunidades rurais. Para a professora e pesquisadora Gema Esmeraldo, as mulheres agricultoras ocupam uma posição central nesse processo, tanto na produção de alimentos quanto na defesa de um modelo agrícola voltado à vida e à preservação da natureza.
O tema foi debatido no programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas. Doutora em Sociologia e pesquisadora das relações entre movimentos rurais, mulheres e agroecologia, Gema relatou experiências construídas junto a movimentos sindicais, organizações camponesas e comunidades do Ceará.
A pesquisadora explicou que sua aproximação com os movimentos sociais rurais começou durante sua atuação na Universidade Federal do Ceará. O objetivo era aproximar a produção acadêmica das demandas apresentadas por comunidades que enfrentavam dificuldades para expor à sociedade urbana os problemas vividos no campo.
No então Departamento de Economia Doméstica, posteriormente integrado ao campo das políticas públicas, foi criado um núcleo de estudos dedicado às relações entre gênero, idade e família. A partir desse espaço, professores e estudantes estabeleceram diálogo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o movimento sindical rural e outras organizações.
Segundo Gema, o contato demonstrou a necessidade de integrar a discussão sobre desigualdade de classe às relações de gênero.
“Havia uma necessidade de fazer uma integração entre a disputa de classe e a discussão de gênero, ou seja, como se constrói também um sujeito social, mulher, político, social e econômico”, afirmou.
O trabalho resultou em projetos de pesquisa e extensão, além da formação de estudantes na graduação, no mestrado e no doutorado. A experiência, segundo a professora, foi baseada em uma troca de conhecimentos entre universidade e movimentos sociais.
“Nós aprendemos com essas mulheres, e as mulheres também dialogaram conosco sobre essa relação entre classe social, gênero e as formas de produção”, declarou.
Da política contra a seca à convivência com o semiárido
Gema destacou que grande parte do Nordeste está localizada em uma região marcada por longos períodos de estiagem. Durante décadas, as respostas governamentais foram concentradas em medidas emergenciais adotadas apenas nos períodos de seca.
As chamadas frentes de emergência ofereciam trabalho temporário, mas não modificavam as condições estruturais das comunidades. As mulheres rurais chegaram a reivindicar participação nesses programas, mas posteriormente passaram a exigir políticas permanentes.
“A gente quer uma política pública permanente”, lembrou a pesquisadora ao reproduzir a reivindicação apresentada pelas agricultoras.
A mudança de concepção ocorreu quando movimentos sociais e organizações sindicais passaram a defender a convivência com o semiárido. Em vez de combater uma característica climática da região, o objetivo era criar condições para que as famílias pudessem produzir, morar e organizar a vida de maneira adequada ao território.
Essa perspectiva se opôs às intervenções baseadas apenas na construção de grandes açudes, muitas vezes instalados dentro de propriedades privadas e sem garantir acesso regular à água para as comunidades.
O projeto de convivência com o semiárido passou a reunir diferentes reivindicações. Entre elas estão a reforma agrária, a democratização da água, a assistência técnica, o financiamento da agricultura familiar e a criação de tecnologias sociais desenvolvidas com a participação das próprias comunidades.
Sem terra, os demais direitos ficam comprometidos
Para Gema, a luta pela terra permanece como condição básica para assegurar outros direitos.
“A luta pela terra é fundamental, porque sem a terra não há como lutar por outras necessidades”, afirmou.
A reforma agrária, segundo ela, não pode ser limitada à ocupação ou distribuição de uma área. É preciso garantir documentação, crédito, assistência técnica, equipamentos e condições para que as famílias permaneçam no campo.
O título da terra é necessário, em muitos casos, para que agricultoras e agricultores tenham acesso a linhas de financiamento. Sem a regularização, comunidades assentadas encontram dificuldades para contratar crédito nos bancos e desenvolver projetos produtivos.
Entre as políticas disponíveis está o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, o Pronaf, que reúne modalidades de financiamento destinadas aos pequenos produtores.
A pesquisadora ressaltou, no entanto, que o crédito precisa ser acompanhado de orientação técnica permanente. Projetos isolados e atendimentos descontínuos não conseguem assegurar a sustentabilidade da produção.
A ausência dessas condições contribui para que moradores deixem os assentamentos em busca de trabalho nas cidades. O êxodo não decorre apenas da falta de interesse dos jovens pela agricultura, mas da dureza do trabalho e das limitações econômicas enfrentadas pelas famílias.
A água transformou a capacidade de produção
Depois da terra, a luta pela água foi apontada como uma das principais conquistas dos movimentos do semiárido.
A implantação de cisternas e outras tecnologias permitiu que comunidades armazenassem água para consumo e produção. Essa mudança ajudou famílias a cultivar alimentos durante períodos mais longos e reduziu a dependência de ações emergenciais.
A Articulação Semiárido Brasileiro teve participação relevante na difusão dessas tecnologias, construídas a partir dos conhecimentos das comunidades e adaptadas às condições locais.
Para Gema, o domínio dessas ferramentas deve permanecer com as famílias agricultoras. Tecnologias impostas sem diálogo podem não responder às necessidades reais do território.
A participação das mulheres foi decisiva porque elas estão frequentemente ligadas à gestão da água, ao cultivo nos quintais e à alimentação da família. Essa experiência lhes permitiu identificar prioridades diferentes das grandes obras tradicionalmente defendidas pelas políticas de combate à seca.
Agricultura familiar e agronegócio representam modelos distintos
Durante a entrevista, Gema apresentou as diferenças entre o agronegócio e a agricultura familiar e camponesa.
Segundo ela, o modelo que hoje recebe o nome de agronegócio possui raízes na colonização do Brasil. As capitanias hereditárias e as grandes propriedades estabeleceram uma produção baseada na concentração da terra, na monocultura e na exportação.
Cana-de-açúcar, café e algodão ocuparam grandes áreas e foram produzidos principalmente para mercados externos. Esse sistema, conhecido como plantation, concentrou renda e poder político.
“No momento em que concentra a terra, concentra a renda e concentra o poder político também”, afirmou.
Na avaliação da professora, o agronegócio atual mantém características desse modelo. A produção depende de grandes extensões de terra e está orientada, em grande parte, para a exportação de poucas mercadorias.
A agricultura familiar segue uma lógica diferente. Trabalha com maior diversidade de cultivos, abastece o mercado interno e produz parte significativa dos alimentos consumidos diariamente.
Feijão, hortaliças, frutas, ovos e outros produtos presentes na mesa das famílias são cultivados por pequenos agricultores, assentados e comunidades camponesas.
“Quando a gente diz agricultura familiar e camponesa, nós estamos dando um sentido político a esse modo de vida e a esse modo de produção”, explicou.
Agroecologia é um modo de vida
Gema definiu a agroecologia como algo mais amplo do que uma técnica agrícola sem agrotóxicos.
“A agroecologia é mais do que um modo de produção sem veneno. É um modo de vida”, disse.
Nos quintais mantidos pelas famílias, especialmente pelas mulheres, são cultivadas diversas espécies de plantas, frutas, ervas, hortaliças e alimentos. Essa produção amplia a variedade alimentar, protege o solo e reduz a dependência de produtos industrializados.
A professora relatou que estudos realizados por suas alunas identificaram mais de 110 variedades em apenas 11 quintais.
“Olha que riqueza é a agricultura familiar agroecológica”, declarou.
Parte dos alimentos é destinada ao consumo doméstico. Outra parte é vendida, trocada ou doada. Esse movimento cria redes econômicas locais que muitas vezes não aparecem nas estatísticas convencionais.
A diversidade também reduz os riscos associados à monocultura. Quando uma família depende de apenas um produto, qualquer mudança climática, praga ou oscilação de preço pode comprometer toda a renda. A produção diversificada distribui esses riscos.
Cadernetas revelaram o valor do trabalho das mulheres
Uma das experiências relatadas pela pesquisadora foi a utilização das chamadas cadernetas agroecológicas.
A ferramenta foi criada para que mulheres rurais registrassem tudo o que produziam, vendiam, trocavam e doavam. Ao calcular o valor financeiro dessas atividades, muitas descobriram que o trabalho realizado no quintal gerava o equivalente a mais de um salário mínimo por mês.
O resultado contrariou a percepção das próprias agricultoras, que frequentemente respondiam que “não faziam nada” quando questionadas sobre sua atividade.
O trabalho doméstico e a produção de alimentos eram considerados extensões naturais das obrigações femininas, sem reconhecimento econômico ou social.
“A caderneta agroecológica trouxe para essas mulheres a condição de se compreenderem como sujeitos sociais, políticos e econômicos”, afirmou Gema.
Os registros demonstraram que a produção das mulheres contribui para a renda familiar, a alimentação das comunidades e a circulação de produtos nos mercados locais.
A experiência também fortaleceu a autonomia feminina. Ao reconhecer o valor de sua produção, as agricultoras passaram a participar de decisões econômicas e políticas dentro das famílias e das organizações rurais.
Feiras aproximam campo e cidade
As feiras agroecológicas foram apontadas como espaços importantes de comercialização e diálogo entre comunidades rurais e consumidores urbanos.
Em Fortaleza, agricultoras de diferentes regiões vendem frutas, verduras, raízes, ovos e outros produtos cultivados sem o uso intensivo de agrotóxicos.
Além de gerar renda, as feiras permitem que consumidores conheçam quem produz os alimentos e compreendam as condições do trabalho rural.
“Essa relação do rural com o urbano a partir das feiras traz o debate da segurança e da soberania alimentar”, declarou Gema.
A segurança alimentar está ligada ao acesso regular a alimentos em quantidade suficiente. A soberania alimentar envolve o direito de comunidades e países decidirem o que produzir e consumir, sem depender exclusivamente das prioridades de grandes empresas ou do mercado externo.
A pesquisadora ressaltou ainda a dimensão nutricional. Na avaliação dela, os produtos agroecológicos preservam qualidades que podem ser perdidas em alimentos ultraprocessados.
Nas feiras, a compra não representa apenas uma escolha individual de consumo. Também ajuda a financiar pequenos produtores, fortalecer economias locais e manter famílias no campo.
Mulheres participaram da construção das estatísticas rurais
Gema lembrou que a presença feminina na agricultura nem sempre foi reconhecida pelas pesquisas oficiais.
Em 1997, mulheres organizadas pressionaram o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para que a produção da agricultura familiar e a participação das agricultoras fossem registradas de maneira adequada.
Durante muitos anos, mulheres que trabalhavam diariamente no plantio, na colheita e na criação de animais eram classificadas apenas como donas de casa.
A mobilização permitiu ampliar a compreensão sobre a importância da agricultura familiar na produção de alimentos diversificados.
Para a pesquisadora, o reconhecimento estatístico é necessário para orientar políticas públicas. Sem informações sobre quem produz, em quais condições e com qual volume, o Estado encontra dificuldades para distribuir crédito, assistência técnica e equipamentos.
As estatísticas também ajudam a revelar desigualdades de gênero. Mulheres podem trabalhar tanto quanto os homens e ainda assim possuir menos acesso à terra, à renda e às decisões sobre a produção.
Tecnologias podem reduzir a sobrecarga de trabalho
A mecanização adaptada à agricultura familiar foi outro ponto abordado durante o programa.
Gema mencionou pequenos tratores distribuídos pela Secretaria do Desenvolvimento Agrário. Esses equipamentos podem ser operados por mulheres e reduzem o tempo necessário para realizar atividades pesadas.
“Uma mulher, ao subir num trator daqueles, reduz mais de nove horas de trabalho no seu dia”, afirmou.
A introdução de tecnologia, nesse caso, não substitui o trabalhador. Ela diminui o desgaste físico e permite que a família aumente sua capacidade de produção.
Muitos agricultores mais velhos não desejam que os filhos permaneçam na atividade porque conhecem a dureza do trabalho realizado sem equipamentos adequados.
Para conter a saída dos jovens do campo, a pesquisadora defendeu políticas capazes de tornar a agricultura uma atividade com renda, qualidade de vida e acesso à educação e à tecnologia.
Merenda escolar pode fortalecer a produção local
Durante a transmissão, participantes também defenderam que escolas públicas ampliem a compra de alimentos produzidos pela agricultura familiar.
A medida cria um mercado regular para os pequenos produtores e melhora a qualidade da merenda oferecida aos estudantes.
Quando o poder público compra diretamente das comunidades, parte dos recursos permanece no próprio território e pode ser reinvestida na produção.
Essa política também incentiva a diversificação dos cultivos, porque as escolas precisam de frutas, verduras, legumes e outros alimentos ao longo do ano.
Para as mulheres agricultoras, contratos institucionais podem garantir renda mais previsível e reduzir a dependência de atravessadores, que compram a produção por preços baixos e revendem com margens maiores.
“A disputa é pela vida”
Ao final do programa, Gema afirmou que os conflitos atuais não devem ser compreendidos apenas como uma oposição entre capital e trabalho.
“Hoje o debate não é mais capital e trabalho. É capital e vida. E as mulheres têm sido fundamentais para trazer esse debate”, declarou.
Na avaliação da pesquisadora, as mulheres rurais relacionam a produção de alimentos à preservação da água, do solo, das sementes e da saúde das famílias.
A defesa da vida aparece no enfrentamento aos agrotóxicos, na produção diversificada, na recuperação de áreas degradadas e na construção de sistemas de abastecimento adaptados ao semiárido.
“Hoje a disputa é pela vida, é pela resistência para garantir uma qualidade de vida na nossa sociedade, seja no rural, seja no urbano”, afirmou.
Gema encerrou a entrevista convidando a população a conhecer as feiras agroecológicas e conversar diretamente com agricultoras e agricultores.
“Visitem as feiras agroecológicas, dialoguem com as agricultoras e os agricultores”, pediu.
Para a professora, esse encontro ajuda consumidores urbanos a reconhecer o trabalho realizado no campo e a compreender que a agricultura familiar não é uma atividade residual. Ela sustenta parte importante da alimentação, da economia local e da conservação ambiental.
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