Nova Délhi leva ao Congresso americano preocupação com lei que permite tarifas de até 100% contra grandes compradores de energia da Rússia e reafirma que segurança energética de 1,4 bilhão de pessoas será definida pelos interesses nacionais
Da Redação
A Índia levou ao Congresso dos Estados Unidos suas preocupações com os efeitos da nova legislação americana que amplia as sanções contra a Rússia e prevê medidas comerciais contra países que mantenham determinadas relações econômicas com Moscou. O tema foi discutido no domingo (27), em Nova Délhi, durante reunião do secretário de Relações Exteriores indiano, Vikram Misri, com uma delegação bipartidária do Congresso americano liderada pelo deputado Brian Mast, presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Índia, a reunião tratou das relações bilaterais, da nova Lindsey O. Graham Sanctioning Russia and Iran Act of 2026 e de temas como segurança energética, contraterrorismo e liberdade de navegação.
A legislação foi sancionada pelo Presidente Donald Trump em 18 de setembro. O texto autoriza a adoção de tarifas de até 500% sobre determinados produtos de países que realizem operações especificadas com a Rússia, embora a aplicação concreta dependa das condições estabelecidas na própria lei e de decisões do governo americano. A legislação também prevê mecanismos de dispensa em determinadas circunstâncias.
A possibilidade de novas barreiras comerciais preocupa Nova Délhi porque a Rússia continua sendo o principal fornecedor de petróleo bruto da Índia. Ao mesmo tempo, os dados mais recentes mostram que o país já vem diversificando suas compras. Em agosto, as importações indianas de petróleo russo caíram 16,5% em relação ao mês anterior, para cerca de 2,1 milhões de barris por dia. Para setembro, estimativas preliminares apontam nova redução. Mesmo assim, a Rússia permaneceu como principal fornecedora de petróleo para o mercado indiano.
A questão energética tem peso especial para a Índia, terceiro maior importador de petróleo do mundo. O governo indiano afirma que pretende preservar a segurança energética e manter uma política de diversificação das fontes de abastecimento de acordo com as condições do mercado.
A preocupação chegou também ao alto escalão da diplomacia americana. Em 23 de setembro, o ministro das Relações Exteriores da Índia, S. Jaishankar, discutiu a nova legislação com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, durante encontro em Nova York, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas. Segundo relatos sobre a reunião, Jaishankar apresentou os interesses e as preocupações indianas diante das novas medidas.
Petróleo russo ainda lidera as compras indianas
A relação energética entre Índia e Rússia ganhou dimensão depois de 2022, quando as sanções impostas por Estados Unidos e países europeus alteraram os fluxos internacionais de petróleo. Com a redução das compras europeias, o petróleo russo passou a ser direcionado em maior volume para mercados asiáticos, entre eles o indiano.
A vantagem para as refinarias indianas esteve associada às condições comerciais oferecidas pelo petróleo russo, enquanto Moscou encontrou na Ásia compradores capazes de absorver parte da produção que perdeu espaço em mercados ocidentais.
Esse movimento, porém, não significa que a Índia tenha deixado de buscar outros fornecedores. Dados recentes mostram aumento da participação de países do Oriente Médio em determinados períodos. Em agosto, as compras indianas de petróleo iraquiano, por exemplo, cresceram cerca de 25%, enquanto o fornecimento russo recuou.
A própria disponibilidade do petróleo russo também passou a sofrer alterações. Segundo a Reuters, refinarias indianas enfrentam maior dificuldade para obter determinados carregamentos em outubro e novembro, em meio à redução das exportações russas e ao aumento da demanda chinesa. A situação tem levado empresas indianas a buscar alternativas como petróleo dos Emirados Árabes Unidos, do Iraque e de Angola.
Nesse contexto, a política energética indiana envolve tanto a relação com a Rússia quanto a busca por fornecedores alternativos. A pressão comercial dos Estados Unidos acrescenta outro elemento a essa equação.
Washington também oferece petróleo e gás
A relação energética entre Índia e Estados Unidos não se resume à disputa em torno do petróleo russo. Os dois países também ampliaram o comércio de energia.
Os Estados Unidos passaram a ocupar posição importante no fornecimento de gás natural liquefeito à Índia e vêm aumentando suas exportações de energia para o mercado indiano. Em reunião recente com Jaishankar, Marco Rubio afirmou que Washington poderia ajudar parceiros da região a lidar com os problemas relacionados ao abastecimento energético.
A expansão desse comércio ocorre enquanto Índia e Estados Unidos também negociam questões comerciais mais amplas. Para Nova Délhi, portanto, a discussão sobre o petróleo russo está inserida em uma relação econômica que envolve interesses em várias áreas.
A posição indiana tem sido a de preservar a possibilidade de comprar energia de diferentes fornecedores. Em declarações anteriores sobre a nova legislação americana, o governo afirmou que adotaria as medidas necessárias para proteger seus interesses econômicos e garantir a segurança energética.
Autonomia estratégica
A controvérsia também se relaciona à política externa indiana, tradicionalmente marcada pela tentativa de manter margem de manobra diante das grandes potências.
A Índia mantém uma relação histórica de defesa e cooperação militar com a Rússia, ao mesmo tempo em que aprofundou sua aproximação com os Estados Unidos. Os dois países ampliaram a cooperação econômica e estratégica e participam conjuntamente do Quad, ao lado de Japão e Austrália.
Essa combinação explica parte da cautela de Nova Délhi diante das novas medidas americanas. A Índia busca aprofundar a relação com Washington sem abandonar seus interesses próprios em áreas como energia, defesa e comércio.
A nova legislação americana cria um potencial ponto de tensão porque transforma determinadas relações econômicas com a Rússia em possível fator de custo para países que mantêm comércio com os Estados Unidos. No caso indiano, isso ocorre enquanto o país continua negociando uma relação comercial mais ampla com Washington.
A questão central para Nova Délhi, portanto, não é apenas o volume de petróleo comprado da Rússia. Está também em jogo a possibilidade de preservar uma política de abastecimento baseada em diferentes fornecedores e nas condições do mercado.
Uma disputa que ultrapassa a relação entre Washington e Moscou
A nova lei americana amplia o alcance das medidas econômicas contra a Rússia ao estabelecer instrumentos que podem atingir empresas, instituições financeiras e países envolvidos em determinadas operações com Moscou. A legislação foi apresentada em Washington como uma forma de aumentar a pressão econômica sobre Rússia e Irã.
Para países como a Índia, os efeitos dependem de como esses instrumentos serão utilizados pelo governo americano e de eventuais negociações ou dispensas previstas na própria legislação.
Por enquanto, Nova Délhi mantém diálogo com diferentes setores do governo americano. A reunião de Vikram Misri com parlamentares ocorre poucos dias depois da conversa entre Jaishankar e Rubio, indicando que o governo indiano procura apresentar suas preocupações tanto ao Executivo quanto ao Legislativo dos Estados Unidos.
A situação também mostra como as sanções contra a Rússia passaram a produzir efeitos sobre decisões de países que não participam diretamente do conflito. No caso da Índia, a discussão envolve o equilíbrio entre sua relação estratégica com Washington, os vínculos históricos com Moscou e a necessidade de garantir abastecimento energético em condições consideradas adequadas pelo governo indiano.
Os próximos passos dependerão da aplicação concreta da nova legislação americana, das negociações comerciais entre Washington e Nova Délhi e das condições do mercado internacional de petróleo. A Índia já reduziu parte de suas compras russas, mas a Rússia permanece como seu principal fornecedor. Ao mesmo tempo, o país amplia a busca por alternativas.
O governo indiano tenta, assim, preservar uma política de diversificação sem transformar a relação com um fornecedor específico em uma condição imposta por outra potência.






