Anfavea atribui recuperação a políticas industriais, prevê produção de 2,8 milhões de unidades em 2026 e celebra marco de 100 milhões de veículos fabricados no Brasil
Da Redação
O Brasil deverá encerrar 2026 com mais de 3 milhões de veículos emplacados, patamar que não era alcançado desde 2014. A projeção foi apresentada nesta terça-feira (14) pelo presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, Igor Calvet, durante reunião com o Presidente Lula e ministros no Palácio do Planalto, em Brasília.
As declarações constam na íntegra do encontro divulgada em vídeo pelo governo federal no YouTube. A audiência foi solicitada pela Anfavea para apresentar os resultados recentes do setor, reconhecer a contribuição das políticas industriais adotadas desde 2023 e entregar ao Presidente Lula uma placa comemorativa pela produção acumulada de 100 milhões de veículos no país.
Segundo Calvet, a recuperação ocorre em meio a mais de R$ 150 bilhões em investimentos anunciados pelas montadoras. Quando considerados também os aportes previstos pelas empresas de autopeças, o volume chega a aproximadamente R$ 190 bilhões, conforme os números apresentados pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.
A indústria automotiva responde por cerca de 20% do Produto Interno Bruto industrial e reúne aproximadamente 1,3 milhão de empregos diretos e indiretos em montadoras, fabricantes de peças, concessionárias, empresas de logística e prestadores de serviços.
“A gente hoje ainda representa 20% de todo o PIB da nossa indústria. Então, a cada R$ 100 produzidos na indústria, R$ 20 dizem respeito ao setor automotivo”, afirmou Igor Calvet.
O dirigente ressaltou que a atividade não se limita às linhas de montagem. A fabricação de um veículo mobiliza segmentos como siderurgia, indústria química, borracha, plástico, tecidos, vidro, componentes eletrônicos, serviços de engenharia e sistemas de inteligência artificial.
Para Calvet, os números demonstram que uma política voltada ao setor automotivo produz efeitos sobre uma extensa cadeia industrial.
“Quando o governo entende que a política industrial para o setor automotivo é política de Estado, é toda uma cadeia industrial que é afetada. Não são apenas aqueles que fabricam e montam o veículo final”, declarou.
Três milhões de veículos emplacados
A Anfavea estima que o país chegará a cerca de 3 milhões de emplacamentos em 2026, com crescimento próximo de 12% em relação ao ano anterior. A previsão foi revisada depois de o desempenho do primeiro semestre superar as estimativas divulgadas no começo do ano.
“Desde 2014 nós não atingimos a marca que vamos atingir neste ano. Serão 3 milhões de veículos emplacados. Estamos cruzando uma fronteira muito importante”, afirmou o presidente da entidade.
A produção nacional deverá alcançar aproximadamente 2,8 milhões de unidades, avanço estimado em 5,8%. O ritmo das fábricas, porém, ainda cresce menos do que o mercado interno, o que abre espaço para uma participação maior dos veículos importados.
As exportações apresentam cenário mais difícil. A associação prevê redução de aproximadamente 12% nos embarques ao exterior, principalmente por causa da desaceleração de mercados como a Argentina e do aumento da concorrência de veículos produzidos no México e na China.
Durante a reunião, o governo informou que trabalha para ampliar os mercados externos da indústria brasileira. Foram mencionadas a retomada do acordo automotivo com a Colômbia, negociações com Equador e Chile e a necessidade de revisão das relações comerciais com o México.
O Presidente Lula defendeu uma atuação conjunta entre governo e empresas para aumentar as exportações brasileiras, especialmente para países da América Latina e da África.
“Uma coisa que nós temos que fazer é trabalhar juntos, governo e empresários, para que a gente comece a disputar mercados externos”, declarou.
Lula afirmou que as montadoras instaladas no Brasil deveriam utilizar as fábricas brasileiras como plataformas de exportação para países próximos, em vez de abastecer esses mercados por meio de unidades localizadas na Europa, nos Estados Unidos ou na Ásia.
“Não tem sentido uma empresa alemã exportar para a América Latina. Poderia ser exportado daqui do Brasil”, disse.
Mover ampliou previsibilidade
Igor Calvet atribuiu parte da recuperação ao programa Mobilidade Verde e Inovação, o Mover. Criado pelo governo Lula, o programa oferece incentivos tributários vinculados a investimentos em pesquisa, desenvolvimento, segurança veicular, eficiência energética e redução das emissões de carbono.
Para o presidente da Anfavea, o principal ganho foi a criação de regras de longo prazo para um setor no qual os projetos industriais exigem vários anos entre o planejamento e o início da produção.
“Eu queria saudar muito o Mover, em especial, porque ele trouxe o que para nós é muito caro: a previsibilidade. Nossos ciclos são de cinco ou seis anos. Ter marcos que digam onde teremos que investir e para que investir é de fundamental importância”, declarou Calvet.
O dirigente relacionou diretamente o programa aos investimentos anunciados pelas empresas e ao retorno dos emplacamentos ao patamar dos 3 milhões de unidades.
“Três milhões em razão, sim, do Mover e da previsibilidade”, afirmou.
Além do Mover, representantes do governo citaram a linha de crédito de R$ 2 bilhões criada em 2023 para estimular a renovação da frota, a preservação dos regimes específicos do setor durante a reforma tributária e os programas de financiamento destinados à compra de caminhões, ônibus, motocicletas, táxis e veículos para motoristas de aplicativos.
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a recuperação era vista com desconfiança quando o Presidente Lula assumiu o governo, em janeiro de 2023.
Segundo Durigan, o mercado brasileiro produzia aproximadamente 1,6 milhão de veículos naquele período. Três anos e meio depois, o país se aproxima novamente dos 3 milhões de emplacamentos.
“A gente supera o ceticismo e tem o prazer de ter mais essa entrega dentro do governo”, disse.
IPI verde amplia venda de carros sustentáveis
Geraldo Alckmin destacou também os resultados do chamado IPI verde, mecanismo que reduz ou zera a tributação dos veículos mais eficientes, recicláveis e menos poluentes, enquanto aumenta a cobrança sobre modelos mais caros e com maiores níveis de emissão.
De acordo com o vice-presidente, as vendas dos carros enquadrados no programa cresceram 30,6% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
“É um carro de entrada, não é carro de R$ 200 mil. É carro de R$ 70 mil. Aquele primeiro carro”, afirmou Alckmin.
Ele explicou que veículos com maior índice de reciclabilidade e menores emissões de dióxido de carbono passaram a contar com IPI zerado. O impacto fiscal seria compensado pela elevação da tributação sobre modelos de maior valor e mais poluentes.
Alckmin também informou crescimento nas vendas de veículos pesados. Em junho, as comercializações de caminhões avançaram 15,9% em relação a maio. No segmento de ônibus, a alta mensal chegou a 36,7%.
Compras públicas estimulam fábricas
O Presidente Lula afirmou que as compras públicas também ajudam a sustentar a produção e os empregos na indústria automotiva. Entre os exemplos citados estão os ônibus escolares adquiridos por meio do programa Caminho da Escola, ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência e veículos destinados ao transporte de pacientes.
O governo federal adquiriu 3,3 mil veículos sanitários para transportar pessoas que precisam realizar tratamentos contínuos fora do município onde vivem. Os veículos possuem ar-condicionado, equipamentos de acessibilidade e espaço para acompanhantes.
Também foram compradas 880 unidades móveis destinadas ao atendimento odontológico de comunidades rurais e localidades afastadas dos centros urbanos.
Lula citou ainda o programa Mais Alimentos, que oferece financiamento para agricultores familiares adquirirem tratores, máquinas e implementos agrícolas. Para o presidente, essas iniciativas atendem necessidades sociais ao mesmo tempo que estimulam fábricas instaladas no país.
“O que nós estamos tratando de fazer é tudo o que pudermos para que os setores produtivos do Brasil voltem a crescer”, afirmou.
Brasil chega a 100 milhões de veículos produzidos
A reunião também marcou a celebração dos 100 milhões de autoveículos produzidos no Brasil desde o início da contabilização do setor, em 1957. A indústria automotiva começou a se estruturar no país em 1956, com a criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística durante o governo de Juscelino Kubitschek.
A marca foi alcançada no ano em que a Anfavea completa sete décadas de atuação. Em 2022, o Brasil havia chegado aos 90 milhões de veículos fabricados, e a própria entidade previa que os 100 milhões seriam atingidos em 2026.
O recorde anual de produção permanece em 2013, quando foram fabricadas aproximadamente 3,7 milhões de unidades. No ano anterior, o mercado brasileiro registrou cerca de 3,8 milhões de emplacamentos.
Calvet entregou a Lula uma placa no formato de uma identificação veicular para registrar o marco.
“Produzir 100 milhões de unidades não é para qualquer país. Muitos países começaram a produzir e deixaram de produzir veículos”, afirmou.
Segundo ele, os investimentos anunciados pelas montadoras serão destinados à modernização das fábricas, ao desenvolvimento de novas tecnologias, à ampliação da engenharia nacional e à fabricação de modelos mais eficientes.
“A marca de 100 milhões confirma a confiança das empresas no Brasil e demonstra que políticas industriais consistentes geram resultados positivos”, declarou Calvet.
Lula defende atuação do Estado diante das crises
Em sua fala, o Presidente Lula recuperou a experiência como dirigente sindical no ABC Paulista e afirmou que o governo não pode se afastar dos problemas enfrentados pelos diferentes setores da economia.
“Se o governo só existe para dizer ‘não é comigo’, para que governo?”, questionou.
Segundo Lula, cabe ao Estado reunir trabalhadores, empresários e representantes públicos sempre que uma atividade econômica enfrentar dificuldades, buscando soluções que distribuam responsabilidades entre as partes envolvidas.
O presidente lembrou que, durante crises anteriores da indústria automotiva, os governos discutiram redução de impostos, ampliação dos prazos de financiamento e medidas para elevar a renda e facilitar a compra de veículos.
Para Lula, o resultado apresentado pela Anfavea demonstra que o diálogo entre o poder público e o setor produtivo pode recuperar investimentos, preservar empregos e aumentar a produção.
“Vocês vieram aqui, nós sentamos, discutimos, fizemos as medidas que tinham que ser feitas, o Congresso Nacional aprovou o que precisava ser aprovado e o resultado é esse”, afirmou.
Ao encerrar o encontro, Lula disse que o governo continuará tratando as dificuldades da indústria e da agricultura como assuntos de responsabilidade pública.
“Enquanto a gente estiver no governo, qualquer crise em qualquer setor industrial ou da agricultura não é um problema dos outros. É um problema do governo e nós vamos tentar resolver”, concluiu.






