Da Redação
Alterações feitas em 2022 abriram caminho para expansão massiva de crédito consignado ligado ao Banco Master, hoje alvo de investigações por fraudes no sistema financeiro.
As investigações mais recentes sobre o escândalo envolvendo o Banco Master trouxeram à tona um elemento central que ajuda a explicar a rápida ascensão da instituição: mudanças regulatórias promovidas no Instituto Nacional do Seguro Social durante o governo de Jair Bolsonaro.
Essas alterações, feitas em 2022, modificaram profundamente as regras do crédito consignado e abriram espaço para a criação e expansão de um novo produto financeiro, o chamado “cartão consignado de benefício”, que se tornaria o principal motor de crescimento do banco nos anos seguintes.
O ponto mais sensível revelado pelas reportagens é a velocidade e o alinhamento entre o pedido do banco e a resposta institucional. Documentos indicam que uma das mudanças normativas foi implementada apenas 16 dias após o Banco Master solicitar autorização para operar o produto junto ao INSS.
A primeira alteração ocorreu em março de 2022, quando o INSS passou a permitir a operação desse tipo de cartão consignado para aposentados, pensionistas e beneficiários de programas sociais. No entanto, essa autorização inicial não detalhava o funcionamento da modalidade. Pouco depois, em junho do mesmo ano, uma nova instrução normativa foi publicada, desta vez estabelecendo regras específicas que viabilizaram, na prática, a operação do produto.
Esse movimento regulatório abriu caminho para o crescimento acelerado do chamado Credcesta, produto associado ao Banco Master. Inicialmente voltado a servidores públicos, ele passou a atingir diretamente aposentados e pensionistas, ampliando enormemente seu alcance social e financeiro.
Os números mostram a dimensão dessa expansão. Em apenas dois anos, os contratos saltaram de cerca de 100 mil em 2022 para aproximadamente 2,75 milhões em 2024, evidenciando uma explosão no volume de operações após a mudança das regras.
Esse crescimento não ocorreu sem controvérsias. A atual gestão do INSS passou a apontar irregularidades no modelo, incluindo problemas na formalização dos contratos, possibilidade de cobrança indevida e falta de transparência nas operações. Como resultado, o acordo de cooperação com o banco não foi renovado.
Além disso, o caso se conecta a um escândalo ainda maior. O Banco Master tornou-se alvo de uma das maiores investigações financeiras recentes no país, com suspeitas que incluem fraudes, lavagem de dinheiro e manipulação de ativos.
Dentro desse contexto, o crédito consignado aparece como um dos eixos centrais das investigações. Há indícios de contratos irregulares e até mesmo operações sem autorização dos beneficiários, o que levanta suspeitas sobre a utilização do sistema previdenciário como base para expansão financeira de alto risco.
O episódio revela uma dinâmica estrutural preocupante. Mudanças regulatórias em políticas públicas sensíveis, como o crédito consignado para aposentados, podem gerar efeitos sistêmicos profundos quando combinadas com interesses financeiros privados.
Mais do que um caso isolado, a situação expõe fragilidades institucionais no controle e na regulação de instrumentos que envolvem diretamente populações vulneráveis. A ampliação do acesso ao crédito, quando não acompanhada de mecanismos rigorosos de transparência e proteção, pode se transformar em vetor de exploração.
No fim, o caso do INSS e do Banco Master sintetiza um problema maior. Não se trata apenas de um banco ou de uma norma específica, mas de como decisões regulatórias podem moldar mercados inteiros e, em alguns casos, abrir caminho para distorções com impacto social amplo.












