Da Redação
O economista Jeffrey Sachs voltou a provocar forte repercussão internacional ao defender que a América Latina busque maior autonomia estratégica em relação aos Estados Unidos num momento de transformação profunda da ordem global. Professor da Universidade Columbia e um dos intelectuais mais influentes da geopolítica contemporânea, Sachs afirmou que os países latino-americanos precisam abandonar a posição histórica de dependência diante de Washington e construir capacidade própria de articulação econômica, tecnológica e diplomática no cenário multipolar do século XXI.
Segundo o economista, a região não pode continuar aceitando passivamente pressões externas sobre suas relações comerciais, tecnológicas e políticas, especialmente no contexto da crescente disputa entre Estados Unidos e China. Sachs criticou diretamente tentativas americanas de limitar acordos latino-americanos com Pequim e afirmou que os países do continente possuem direito soberano de definir seus próprios parceiros estratégicos. Para ele, a América Latina precisa deixar de agir como periferia subordinada e passar a operar como ator autônomo dentro da nova configuração global.
A declaração ocorre justamente num momento em que o mundo atravessa uma das maiores reorganizações geopolíticas das últimas décadas. A ascensão econômica e tecnológica da China, o fortalecimento dos BRICS e o crescimento do chamado Sul Global começaram a reduzir parcialmente a hegemonia absoluta exercida pelos Estados Unidos desde o fim da Guerra Fria. Nesse cenário, Sachs sustenta que a América Latina possui uma oportunidade histórica rara para ampliar sua margem de manobra internacional.
O economista argumenta que a principal fragilidade estrutural da região continua sendo sua dependência tecnológica. Apesar do enorme potencial econômico e territorial, a América Latina permanece majoritariamente como consumidora de tecnologia produzida por outros centros globais. Segundo ele, países latino-americanos precisam investir pesadamente em educação, ciência, infraestrutura digital, inteligência artificial, semicondutores e indústria avançada para escapar da condição histórica de exportadores de commodities e importadores de inovação.
Essa análise dialoga diretamente com um debate que cresce rapidamente dentro do continente: a disputa por soberania tecnológica e soberania informacional. Nos últimos anos, pesquisadores, universidades, movimentos sociais e setores políticos passaram a alertar sobre os riscos da dependência extrema das big techs americanas e da concentração global de infraestrutura digital nas mãos de poucas corporações privadas. Plataformas digitais, sistemas de nuvem, inteligência artificial e redes de comunicação passaram a ser vistos não apenas como ferramentas econômicas, mas como instrumentos centrais de poder geopolítico.
Sachs também defende que a América Latina fortaleça mecanismos de integração regional para ampliar capacidade de negociação internacional. Para ele, nenhum país latino-americano conseguirá sozinho competir com as grandes potências globais em áreas estratégicas como tecnologia, energia, transição ecológica e infraestrutura digital. A integração econômica e científica entre os países da região seria fundamental para reduzir vulnerabilidades externas e ampliar autonomia política.
A fala possui forte dimensão histórica porque toca num dos elementos centrais da formação geopolítica latino-americana: a longa influência dos Estados Unidos sobre o continente. Desde o século XIX, especialmente após a Doutrina Monroe, a América Latina foi tratada por Washington como área prioritária de influência política e econômica. Ao longo do século XX, golpes militares, intervenções políticas, pressões diplomáticas e dependência financeira ajudaram a consolidar estruturas de subordinação regional.
Agora, porém, o cenário internacional mudou profundamente. A China se transformou em principal parceiro comercial de diversos países latino-americanos, incluindo o Brasil. Empresas chinesas ampliaram presença em setores estratégicos como infraestrutura, energia, mineração, telecomunicações e inteligência artificial. Isso aumentou a tensão entre Washington e governos da região, especialmente diante da tentativa americana de conter a expansão chinesa no hemisfério.
Sachs alerta justamente para o risco de a América Latina ser novamente arrastada para uma lógica de Guerra Fria entre grandes potências. Segundo ele, a região não deve aceitar automaticamente alinhamentos subordinados nem aos Estados Unidos nem a qualquer outro polo global. Em vez disso, deveria construir capacidade própria de negociação, preservando soberania econômica, tecnológica e diplomática.
A discussão ganha ainda mais importância num momento em que temas como inteligência artificial, dados, infraestrutura digital e controle tecnológico passaram a ocupar posição central na disputa geopolítica mundial. Hoje, quem controla tecnologia controla também:
economia,
informação,
vigilância,
comunicação,
produção industrial
e capacidade militar.
Por isso o debate sobre autonomia tecnológica deixou de ser apenas questão acadêmica ou econômica. Ele passou a envolver diretamente soberania nacional e capacidade de desenvolvimento independente.
No fundo, Sachs parece defender que a América Latina enfrenta uma escolha histórica decisiva. Ou a região aproveita o cenário multipolar para construir projetos próprios de desenvolvimento e soberania tecnológica, ou continuará ocupando posição periférica dentro de uma economia global controlada pelas grandes potências e pelas corporações tecnológicas internacionais.
E talvez seja justamente essa a principal disputa geopolítica latino-americana do século XXI.






