JPMorgan abandona cenário-base para petróleo enquanto guerra com o Irã desmonta previsões do mercado

Da Redação

Maior banco dos Estados Unidos afirma que já não consegue modelar um desfecho confiável para o mercado de petróleo diante da prolongada guerra com o Irã. Brent permanece acima de US$ 100, Estreito de Ormuz opera muito abaixo do fluxo normal, infraestrutura saudita foi atingida e estoques globais encolhem. O problema já ultrapassou o preço do barril e aparece no diesel, na inflação e nas decisões dos bancos centrais.

O JPMorgan, um dos bancos mais influentes do mercado internacional de commodities, tomou uma decisão incomum: deixou de trabalhar com um cenário-base para o petróleo enquanto a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã entra no sétimo mês sem um horizonte político suficientemente claro para permitir previsões confiáveis. A instituição não está afirmando que o preço do petróleo se tornou literalmente impossível de projetar, mas reconhece que perdeu aquilo que sustenta qualquer previsão dessa natureza: uma hipótese central sobre como e quando a crise geopolítica terminará.

“Pela primeira vez desde o início do conflito com o Irã, não temos uma visão-base”, afirmou Natasha Kaneva, responsável pela estratégia global de commodities do JPMorgan, em nota divulgada nesta semana. Segundo ela, o banco simplesmente não sabe mais como modelar o “fim do jogo”. A admissão chama atenção porque não vem de um organismo político ou de um analista militar, mas de uma instituição cuja atividade depende justamente de transformar guerras, estoques, produção, demanda, juros, fretes e decisões governamentais em cenários probabilísticos para os mercados.

Quando os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã começaram em 28 de fevereiro, o JPMorgan trabalhava com a hipótese de que determinados limites econômicos funcionariam como freios à escalada. Entre eles estavam petróleo acima de US$ 100 por barril, gasolina americana se aproximando de US$ 5 por galão e rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos ao redor de 5%. A lógica era que custos econômicos dessa magnitude criariam pressão suficiente sobre Washington para produzir um acordo capaz de restabelecer a navegação pelo Estreito de Ormuz. Mais de seis meses depois, vários desses limites foram alcançados ou ultrapassados sem que tenha surgido uma solução duradoura.

A guerra começou em 28 de fevereiro com ataques coordenados americanos e israelenses contra o Irã, aos quais Teerã respondeu militarmente. Os Estados Unidos comunicaram formalmente ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que haviam iniciado operações de combate naquele dia, afirmando agir em legítima defesa e para garantir, entre outros objetivos, a liberdade do comércio marítimo por Ormuz. O Irã apresentou à ONU interpretação oposta, classificando os ataques como agressão e afirmando exercer seu próprio direito de legítima defesa. O secretário-geral António Guterres condenou a escalada militar e pediu cessação imediata das hostilidades.

O conflito passou por cessar-fogos e tentativas de negociação, mas os combates e as interrupções no transporte de energia voltaram a se intensificar. Nesta semana, o próprio presidente Donald Trump afirmou esperar que a guerra esteja se aproximando do fim, mas Estados Unidos e Irã não realizam negociações de paz desde o colapso de um entendimento provisório alcançado em junho.

É essa ausência de um horizonte político previsível que explica a mudança do JPMorgan.

O banco calcula que o valor considerado economicamente compatível com os fundamentos do Brent estaria em torno de US$ 90 por barril neste mês. O mercado, entretanto, negocia bem acima desse patamar. Nesta sexta-feira, o Brent encerrou a sessão a US$ 104,87 por barril, segundo a Reuters, enquanto o WTI americano fechou a US$ 100,30. A diferença entre o valor fundamental calculado pelo banco e o preço observado incorpora, entre outros elementos, o risco de novas interrupções de oferta.

O mais importante, porém, não está apenas na cotação.

Ormuz deixou de ser risco teórico

O Estreito de Ormuz é um dos pontos mais sensíveis de toda a infraestrutura econômica mundial. Pelo corredor marítimo entre Irã e Omã circulavam aproximadamente 21 milhões de barris diários de petróleo e outros líquidos petrolíferos ao longo de 2025, segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, a EIA. No quarto trimestre daquele ano, o fluxo médio foi de 21,6 milhões de barris por dia. No segundo trimestre de 2026, depois do início da guerra, caiu para apenas 4,9 milhões.

A redução não representa simplesmente uma mudança de rota comparável ao desvio de um caminhão por outra estrada. Países do Golfo possuem alternativas limitadas para transportar parte de sua produção sem passar por Ormuz, e a capacidade dessas infraestruturas é muito inferior ao volume que normalmente atravessa o estreito.

Uma das principais alternativas é justamente o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita, que transporta petróleo das regiões produtoras próximas ao Golfo Pérsico até Yanbu, no Mar Vermelho. Essa rota ganhou importância extraordinária durante a crise porque permite à Arábia Saudita contornar Ormuz.

Na semana passada, porém, três estações de bombeamento desse sistema foram danificadas em um ataque. As operações em Yanbu foram afetadas e algumas entregas de petróleo saudita a clientes europeus foram canceladas. Nesta sexta-feira, a Saudi Aramco ainda trabalhava para recuperar parcialmente a capacidade, enquanto fontes da indústria apresentavam estimativas divergentes sobre quanto tempo seria necessário para normalizar completamente os fluxos.

A guerra passou assim a ameaçar simultaneamente a principal rota marítima do Golfo e uma das infraestruturas construídas justamente para contorná-la.

Há ainda outra frente. Os houthis do Iêmen, alinhados ao Irã, intensificaram operações militares que ameaçam fluxos pelo Mar Vermelho e instalações sauditas. Nesta sexta-feira, o petróleo caiu depois que a China, atendendo a um pedido da Arábia Saudita, pressionou o Irã para que ajudasse a limitar os ataques houthis contra infraestrutura energética saudita. A reação do mercado mostrou como alguns dólares do barril atualmente dependem não apenas da produção física disponível, mas da percepção diária sobre ataques, negociações e capacidade de transporte.

Mesmo depois dessa sinalização diplomática, Ormuz permanece severamente comprometido. Dados preliminares de transporte citados pela Reuters mostraram apenas quatro embarcações de commodities atravessando o estreito na quinta-feira, contra uma média de aproximadamente 16 nos dez dias anteriores.

A Agência Internacional de Energia, a IEA, calcula que mais de 10 milhões de barris diários da produção do Golfo permaneciam fora do mercado em agosto em razão dos riscos de segurança. A produção mundial caiu para 100,1 milhões de barris por dia naquele mês, e a agência projeta uma redução média de 5,7 milhões de barris diários na oferta mundial em 2026. A recuperação completa da produção do Oriente Médio, na avaliação publicada em setembro, foi empurrada para 2027.

A EIA americana trabalha com uma recuperação gradual dos fluxos de Ormuz e maior utilização de rotas alternativas nos próximos meses, mas também espera que as restrições às exportações do Oriente Médio persistam até o fim de 2026 e mantenham a produção regional abaixo dos níveis anteriores ao conflito até o segundo trimestre do próximo ano.

As duas instituições, portanto, podem diferir quanto à velocidade e magnitude da recuperação, mas convergem em um ponto fundamental: a ruptura física provocada pela guerra ainda não desapareceu.

O mercado está destruindo demanda para sobreviver à falta de petróleo

Talvez o aspecto mais importante da análise do JPMorgan seja explicar por que, diante de uma interrupção tão grande, o petróleo não disparou para níveis ainda mais extremos.

A resposta está parcialmente na chamada destruição de demanda.

Segundo os cálculos divulgados pelo banco, a demanda mundial está aproximadamente 4,4 milhões de barris por dia abaixo do nível de um ano atrás. Em vez de equilibrar o mercado exclusivamente consumindo estoques acumulados anteriormente, a economia global passou também a consumir menos petróleo.

A IEA chega a uma conclusão semelhante por metodologia própria. A agência estima que a demanda mundial deverá cair 2,5 milhões de barris por dia em 2026, revisão significativamente mais negativa que a apresentada apenas um mês antes. A redução estaria concentrada principalmente em destilados médios — categoria que inclui o diesel — e insumos petroquímicos, com impacto especialmente forte na Ásia.

Essa destruição de demanda não significa que o problema esteja sendo resolvido. Significa que preços elevados, interrupções logísticas, dificuldades industriais e menor atividade econômica estão eliminando parte do consumo que existiria em condições normais.

É uma forma economicamente dolorosa de equilibrar oferta e demanda.

Os estoques também estão sendo utilizados. O JPMorgan estima redução acumulada de aproximadamente 555 milhões de barris de petróleo bruto e derivados desde o início da guerra. A IEA, que emprega outra metodologia e universo estatístico, calcula queda de 507 milhões de barris nos estoques globais observados desde fevereiro, equivalente a uma retirada média de aproximadamente 2,8 milhões de barris por dia.

Ainda existem reservas importantes. China, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e países europeus mantêm estoques estratégicos e comerciais capazes de amortecer choques durante algum tempo. Mas estoque é, por definição, uma capacidade finita. Se a produção e o transporte permanecerem comprometidos por período prolongado, o equilíbrio terá de vir de alguma combinação entre recuperação da oferta, liberação adicional de reservas e redução ainda maior do consumo.

É esse ponto que explica a cautela do JPMorgan. O banco afirma que ainda existe capacidade suficiente para impedir uma explosão imediata dos preços, mas adverte que essa margem diminui conforme o conflito se prolonga.

A pressão mais severa pode nem aparecer inicialmente no petróleo bruto.

Os mercados de derivados já mostram isso.

Nos Estados Unidos, o diesel alcançou aproximadamente US$ 6,45 por galão nesta sexta-feira, segundo dados da AAA citados pela Reuters, nível recorde, enquanto a gasolina estava em torno de US$ 4,47. Problemas de capacidade de refino somam-se à redução da oferta de petróleo bruto. A consultoria IIR Energy estimou que outros 371 mil barris diários de capacidade de refino americana poderão ficar fora de operação na próxima semana.

A IEA informa que as exportações líquidas de diesel e gasóleo dos países do Golfo caíram para cerca de um quarto dos níveis anteriores à guerra em agosto. Ao mesmo tempo, ataques ucranianos contra instalações russas reduziram ainda mais a oferta mundial de derivados. Golfo e Rússia representavam, antes do conflito, parcela próxima de 45% do comércio marítimo mundial de diesel e gasóleo.

Essa escassez possui efeitos econômicos mais amplos que o preço pago pelo motorista. Diesel movimenta caminhões, máquinas agrícolas, construção, mineração, logística e parte relevante do transporte internacional. Seu encarecimento é transferido progressivamente para fretes, alimentos e produtos industriais.

Nos Estados Unidos, a inflação já reflete parte desse choque. O índice de preços ao consumidor avançou 3,4% nos 12 meses encerrados em agosto. O componente de energia aumentou 16,3%, enquanto a gasolina acumulou alta de 27,4%. Somente em agosto, a gasolina subiu 3,9% e respondeu por mais de um terço da elevação mensal do índice geral.

O choque energético também alcançou a política monetária. Bancos centrais voltaram a enfrentar a combinação difícil de inflação alimentada por energia e risco de desaceleração econômica. Em setembro, esse ambiente já havia contribuído para uma nova rodada de aperto monetário em diferentes economias.

Para os Estados Unidos, há ainda uma contradição política evidente. Washington participa diretamente de uma guerra que reduziu a circulação de petróleo no Oriente Médio ao mesmo tempo que enfrenta internamente preços elevados de combustíveis e inflação energética. O custo econômico do conflito transforma-se assim em variável doméstica para a administração Trump.

Para produtores fora do Golfo, a crise cria outra dinâmica. Petróleos capazes de chegar ao mercado sem depender de Ormuz tornaram-se mais valiosos. Nesta sexta-feira, o petróleo russo ESPO chegou a superar US$ 120 por barril em operações destinadas à Ásia, impulsionado pela procura de refinarias chinesas diante da redução das exportações do Oriente Médio.

O Brasil também ocupa uma posição diferente da maioria das economias importadoras. Em julho, o país produziu 4,498 milhões de barris de petróleo por dia, segundo a ANP, 13,6% acima do volume registrado um ano antes. O pré-sal respondeu pela maior parte dessa produção. Um petróleo internacional mais caro tende a aumentar receitas de exportação, faturamento de produtores, royalties e participações governamentais, embora também possa transmitir pressões aos combustíveis, aos fretes e à inflação doméstica.

É por isso que a notícia de que o JPMorgan deixou de trabalhar com um cenário-base é mais significativa do que parece.

Não se trata simplesmente de um banco admitindo dificuldade para adivinhar se o Brent estará a US$ 90, US$ 110 ou US$ 130 daqui a alguns meses. O que desapareceu foi a hipótese política capaz de organizar os cálculos.

Durante meses, parte relevante do mercado trabalhou com a expectativa de que o custo econômico da guerra produziria sua própria contenção: preços altos demais forçariam negociação, negociação reabriria Ormuz, a reabertura recuperaria a oferta e o petróleo voltaria a níveis determinados principalmente por produção, estoques e demanda.

Essa sequência ainda não ocorreu.

A guerra sobreviveu aos limites econômicos que deveriam constrangê-la. Ormuz continua operando muito abaixo da normalidade. A principal rota alternativa saudita sofreu ataques. O volume de petróleo retirado dos estoques continua crescendo. O consumo mundial está sendo comprimido. O diesel já alcança preços extremos e a energia voltou a alimentar a inflação.

O petróleo acima de US$ 100 é, portanto, apenas a parte visível do problema.

O que o JPMorgan reconheceu nesta semana é que o mercado já não consegue tratar a guerra como uma perturbação passageira com data razoavelmente previsível para terminar. Enquanto não surgir uma arquitetura política capaz de estabilizar o Golfo e restabelecer de forma confiável as grandes rotas de exportação, qualquer previsão para o barril continuará dependendo menos de uma equação econômica tradicional e mais de decisões militares, diplomáticas e estratégicas tomadas em Washington, Teerã, Tel Aviv, Riad e outras capitais da região.

E é exatamente esse tipo de variável que nenhum modelo financeiro consegue controlar.