Lavrov adverte Europa sobre guerra “muito curta” e eleva tensão entre Rússia e OTAN a um novo patamar

Da Redação

Chanceler russo afirma que Moscou não pretende atacar países europeus, mas promete resposta de outra natureza caso a Rússia seja atacada; declaração ocorre enquanto Europa acelera sua arquitetura de defesa, OTAN amplia operações e acusações de sabotagem e incursões aproximam os dois lados de uma perigosa zona de contato

A escalada verbal entre Moscou e as capitais europeias atingiu nesta quarta-feira, 16 de setembro, um novo nível. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, afirmou que seu país não pretende atacar a Europa, mas advertiu que, se países europeus iniciarem uma guerra contra a Federação Russa, o conflito seria “completamente diferente” daquele travado atualmente na Ucrânia e seria “muito curto”. A declaração foi feita durante o Festival Internacional da Juventude, em Ecaterimburgo, e repercutida pela imprensa russa e internacional.

A frase é deliberadamente ameaçadora, mas precisa ser reproduzida com seu condicionante. Lavrov não anunciou uma ofensiva russa contra a Europa. Ao contrário, afirmou que Moscou “não tem interesse” em atacar países ocidentais e apresentou sua advertência como resposta a um eventual ataque europeu. Ao mesmo tempo, não explicou por que uma guerra seria “muito curta” nem especificou os instrumentos militares aos quais se referia. Diante dos arsenais convencionais e nucleares envolvidos numa eventual confrontação direta entre Rússia e membros da OTAN, a formulação inevitavelmente carrega uma dimensão de dissuasão estratégica, mas interpretá-la como anúncio explícito de emprego nuclear iria além do que Lavrov efetivamente disse.

A declaração ganha importância porque não aparece isoladamente. Nas últimas semanas, Lavrov passou a empregar linguagem cada vez mais dura ao tratar da reorganização militar europeia. No início de setembro, afirmou que acusações alemãs de envolvimento russo numa tentativa de ataque com drones ao aeroporto de Leipzig/Halle representavam, em sua avaliação, o começo de uma “guerra real” e acusou o chanceler Friedrich Merz de colocar em prática uma política destinada a transformar novamente a Alemanha numa grande potência militar. Berlim atribuiu o episódio à Rússia e tomou medidas diplomáticas; Moscou rejeitou a acusação.

O problema estratégico é que, enquanto Moscou apresenta o fortalecimento militar europeu como preparação para uma guerra contra a Rússia, governos europeus apresentam praticamente as mesmas medidas como resposta ao comportamento russo. Nesta quarta-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu a criação de um Conselho Europeu de Segurança e de um mecanismo comum de reação a sabotagens, ataques cibernéticos, drones e outras operações consideradas “híbridas”. A proposta surge em meio a acusações europeias de operações russas contra infraestrutura e ao aumento da incerteza sobre o grau de compromisso dos Estados Unidos com a segurança do continente sob Donald Trump.

É precisamente essa combinação que torna a conjuntura perigosa. Os dois lados afirmam estar reagindo ao comportamento do adversário. Para governos europeus, a invasão russa da Ucrânia em 2022 demonstrou que a possibilidade de guerra convencional no continente não poderia mais ser tratada como remota. Para Moscou, a expansão da OTAN, o fornecimento de armamentos à Ucrânia, o crescimento dos orçamentos militares europeus e a possibilidade de tropas ocidentais operarem em território ucraniano demonstrariam que o Ocidente transformou uma guerra regional numa estratégia de contenção da Rússia. Lavrov voltou nesta quarta-feira a atribuir o conflito à expansão ocidental e afirmou que a presença de contingentes militares europeus na Ucrânia seria entendida por Moscou como participação direta na guerra.

Há fatos relevantes dos dois lados dessa disputa de narrativas. A OTAN efetivamente ampliou sua presença militar no flanco oriental e no extremo norte europeu desde 2022. Ao mesmo tempo, a Rússia iniciou a invasão em grande escala da Ucrânia e mantém a maior infraestrutura militar do Ártico, incluindo instalações relacionadas à sua força nuclear e à Frota do Norte. No final de agosto, Lavrov classificou a expansão das atividades da OTAN no Ártico como uma “ameaça direta” à segurança russa e advertiu que o aumento de exercícios poderia produzir incidentes com consequências catastróficas.

Essa preocupação deixou de ser abstrata. Uma investigação da Reuters publicada em 10 de setembro relatou que forças britânicas, norueguesas e norte-americanas detectaram e interromperam, meses antes, uma operação de submarinos russos nas proximidades de Svalbard. Segundo autoridades ocidentais ouvidas pela agência, unidades vinculadas à diretoria russa de guerra submarina GUGI simulavam a utilização de tecnologia capaz de danificar cabos submarinos. Nenhum cabo foi destruído. O Ministério da Defesa russo não respondeu à Reuters sobre o episódio, enquanto o Kremlin historicamente nega preparar sabotagens contra países da OTAN.

Nos últimos dias ocorreram outros episódios que elevaram ainda mais a temperatura. Um navio de guerra russo disparou sinalizadores nas proximidades de um helicóptero militar dinamarquês em águas internacionais, levando Copenhague a convocar o embaixador russo. Paralelamente, um caça italiano atuando para a OTAN derrubou sobre a Lituânia um drone que carregava explosivos e que, segundo autoridades locais, provavelmente entrou pelo território de Belarus. Outros objetos e drones suspeitos foram investigados na Polônia e na Alemanha. A atribuição e as circunstâncias variam de caso para caso, e nem todos esses incidentes foram comprovadamente ligados a Moscou.

É nesse ambiente que a frase de Lavrov sobre uma guerra “muito curta” precisa ser compreendida. Mais do que uma previsão militar verificável, ela funciona como mensagem de dissuasão: Moscou procura convencer os governos europeus de que existe um limite entre apoio indireto à Ucrânia e envolvimento militar direto contra a Rússia, e que atravessá-lo poderia desencadear consequências radicalmente diferentes das observadas até agora.

O problema é que a definição desse limite está se tornando progressivamente menos clara.

Desde 2022, armamentos cada vez mais sofisticados foram incorporados à guerra. Inteligência, satélites, treinamento, defesa aérea, drones e sistemas de longo alcance aproximaram infraestrutura militar russa e ocidental de uma mesma zona operacional. Simultaneamente, operações cibernéticas, sabotagens, cabos submarinos, campanhas de influência e incidentes com drones ocupam um espaço intermediário entre paz e guerra convencional. É justamente nessa área cinzenta que erros de interpretação podem produzir consequências desproporcionais.

A própria União Europeia reconhece esse problema ao propor um “counter-hybrid playbook”, mecanismo destinado a coordenar respostas quando um Estado considera estar sob ataque abaixo do limiar de uma agressão militar convencional. Von der Leyen também propôs um Conselho Europeu de Segurança que poderia incluir, além de membros da UE, países como Reino Unido, Noruega, Ucrânia e Canadá. Alguns governos receberam positivamente a ideia, enquanto outros advertiram contra a duplicação das estruturas da OTAN.

A Europa, portanto, está tentando construir uma camada de segurança mais autônoma ao mesmo tempo em que continua dependente da OTAN. Essa transformação possui duas causas simultâneas: a percepção de ameaça russa e as dúvidas sobre a previsibilidade estratégica dos Estados Unidos. Para Moscou, porém, uma Europa mais militarizada não representa autonomia em relação a Washington, mas a expansão da mesma arquitetura que a Rússia considera responsável por sua deterioração de segurança desde o fim da Guerra Fria.

Essa divergência de percepção produz um clássico dilema de segurança. Um Estado aumenta suas capacidades porque se considera ameaçado; o adversário interpreta esse aumento como preparação ofensiva e fortalece suas próprias forças; a reação confirma os temores originais do primeiro lado, iniciando uma espiral. Nenhum dos participantes precisa necessariamente desejar uma guerra para que o risco de guerra aumente.

Há ainda uma diferença decisiva entre o atual conflito ucraniano e aquilo sobre o que Lavrov está falando. Uma confrontação militar direta entre Rússia e um membro da OTAN poderia acionar mecanismos de defesa coletiva da aliança e colocar frente a frente potências nucleares. É justamente por isso que Moscou e governos ocidentais, apesar de toda a escalada desde 2022, evitaram até agora uma guerra convencional direta entre forças russas e da OTAN.

A advertência de Lavrov também se conecta à posição russa sobre uma eventual solução para a Ucrânia. O chanceler afirmou recentemente que Moscou continuaria as operações militares mesmo durante eventuais negociações e insiste que qualquer acordo precisa tratar daquilo que o Kremlin chama de “causas profundas” do conflito. A Rússia inclui nessa categoria a expansão da OTAN e a arquitetura de segurança europeia. A Ucrânia e seus aliados, por outro lado, sustentam que a questão fundamental é a invasão e a soberania territorial ucraniana.

Essa diferença explica por que mesmo uma eventual negociação sobre a Ucrânia dificilmente encerraria automaticamente o confronto Rússia-Ocidente. A disputa já ultrapassou as fronteiras ucranianas e alcançou a estrutura militar europeia, o Ártico, o Báltico, sistemas de energia, infraestrutura submarina, cadeias tecnológicas, sanções financeiras e arquitetura nuclear.

O Ártico talvez seja o exemplo mais claro. A OTAN lançou neste ano a operação Arctic Sentry para aumentar coordenação e vigilância no extremo norte. Rússia, por sua vez, possui ali uma presença militar histórica e extensiva e considera a região vital tanto para sua capacidade nuclear quanto para a Rota Marítima do Norte. Lavrov advertiu em agosto que o aumento das atividades militares ocidentais eleva o risco de incidentes capazes de desencadear confrontação armada.

Esse contexto também ajuda a compreender por que as declarações russas e europeias estão se tornando progressivamente mais duras. Cada lado procura comunicar determinação suficiente para impedir que o adversário avance. O paradoxo da dissuasão é que a mensagem precisa parecer crível para funcionar, mas quanto mais ameaçadora ela se torna, maior o risco de ser interpretada como intenção ofensiva.

Por isso, a frase de Lavrov não deveria ser lida isoladamente como simples bravata nem como anúncio de uma guerra iminente. Ela é um sinal de que Moscou está tentando redefinir publicamente as consequências que atribui a uma intervenção europeia direta, exatamente no momento em que a Europa discute como ampliar sua capacidade militar e responder a operações híbridas.

A Rússia diz que não pretende atacar a Europa. Governos europeus dizem que estão se armando porque consideram a Rússia uma ameaça. Moscou interpreta esse rearmamento como evidência de preparação para confrontação. A Europa observa as operações russas na Ucrânia e os incidentes de segurança no continente e encontra neles justificativa para acelerar o rearmamento.

O perigo está justamente nesse circuito.

Depois de mais de quatro anos de guerra na Ucrânia, a fronteira mais sensível da crise europeia já não passa somente pelas linhas de combate entre forças russas e ucranianas. Ela passa também pelo Báltico, pelo Ártico, pelos cabos submarinos, pelo espaço aéreo, pelas redes digitais e pela definição cada vez mais controversa do que constitui um ataque.

Nesse cenário, a advertência de Lavrov revela algo maior do que a retórica de um chanceler. Rússia e Europa estão construindo seus planejamentos militares a partir da possibilidade de um confronto que ambas afirmam querer evitar. Quanto mais essas estruturas avançam e quanto mais numerosos se tornam os pontos de contato entre forças russas e da OTAN, maior se torna a importância de mecanismos de comunicação, controle de escalada e definição de linhas vermelhas.

A guerra que Lavrov diz que seria “muito curta” é precisamente aquela cuja duração ninguém poderia controlar com segurança depois de iniciada. É essa contradição — entre dissuadir uma guerra e criar condições para que um incidente possa desencadeá-la — que hoje constitui uma das dimensões mais perigosas da segurança europeia.