Lindbergh pede à PF proteção para mulher suspeita de ser laranja de advogado ligado a Flávio Bolsonaro

Deputado quer localização urgente e depoimento de Lídia Mazelli, que dirigiu ao menos 14 empresas vinculadas a Willer Tomaz, incluindo uma offshore em Portugal e a operadora de pagamentos da Loterj; investigação no STF apura suspeitas de lavagem de dinheiro e conexões financeiras com o senador

Da Redação

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) encaminhou nesta terça-feira (20) à direção-geral da Polícia Federal um pedido urgente para localizar, proteger e colher o depoimento de Lídia Maria Figueiredo Mazelli, ex-administradora de empresas vinculadas ao advogado Willer Tomaz de Souza, amigo próximo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). A iniciativa ocorre em meio ao avanço de investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro, movimentações financeiras envolvendo empresas de apostas e possíveis conexões entre o patrimônio do advogado e o senador. Segundo informações recebidas pelo parlamentar, Lídia não tem sido localizada desde setembro, quando seu nome apareceu em reportagens que apontaram sua participação formal na administração de pelo menos 14 empresas ligadas a Willer Tomaz. O requerimento, de 28 páginas, solicita que a PF apure seu paradeiro, avalie possíveis riscos à sua integridade física e psicológica e examine a necessidade de incluí-la no Programa Federal de Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas. O caso está relacionado ao inquérito distribuído em 16 de outubro ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro.

A situação de Lídia chamou a atenção dos investigadores pela distância entre sua condição econômica declarada e a dimensão dos negócios que administrava formalmente. Reportagem publicada em 24 de setembro pelo Núcleo Investigativo do ICL Notícias, em parceria com a newsletter Noites Húngaras, revelou que ela havia trabalhado no escritório de Willer Tomaz entre março de 2019 e setembro de 2020, passando posteriormente a ocupar cargos de direção em empresas dos setores imobiliário, financeiro, de aviação, mineração, comunicação e processamento de pagamentos. Em um processo de inventário familiar de 2019, no qual foi representada pelo próprio advogado, declarou não possuir condições financeiras para arcar com as despesas judiciais. Anos depois, apareceria em documentos societários como dirigente de empresas responsáveis por patrimônio milionário, embora sua remuneração prevista pela administração da Alcazar Brasil fosse de apenas um salário mínimo. Procurada inicialmente pelos jornalistas, afirmou trabalhar como empregada doméstica, negou conhecer Willer Tomaz e disse desconhecer sua presença nas empresas. Posteriormente, por meio de nota divulgada pela assessoria do advogado, apresentou outra versão: declarou possuir formação superior em Administração, afirmou ter exercido funções gerenciais até junho de 2026 e explicou que sua primeira resposta havia sido motivada pelo medo. A defesa de Lídia e Willer nega que ela tenha atuado como laranja e sustenta que desempenhou efetivamente as atividades para as quais foi contratada.

Um dos principais elementos apresentados por Lindbergh à Polícia Federal é a estrutura da Alcazar Holdings, Unipessoal Lda., sociedade constituída em abril de 2023 na Zona Franca da Madeira, em Portugal, tendo Willer Tomaz como sócio único e beneficiário declarado do controle efetivo. Em junho daquele ano, Lídia recebeu procurações que lhe conferiam amplos poderes para representar a offshore no Brasil, administrar bens, participar de operações empresariais, constituir sociedades e atuar perante instituições financeiras e órgãos públicos. Foi nessa condição que participou da criação da Alcazar Brasil Ltda., subsidiária integral da empresa portuguesa, assumindo sua administração. A documentação mostra que permaneceu formalmente nessas funções até junho de 2026, quando foi substituída por Flávia Oliveira Correa Tomaz, identificada em registros empresariais com o mesmo endereço residencial atribuído a Willer. Para Lindbergh, a sucessão dessas operações exige esclarecer se Lídia efetivamente decidia sobre os negócios ou apenas emprestava seu nome para formalizar decisões tomadas por outras pessoas. A existência de procurações e registros societários, isoladamente, não comprova a utilização de uma laranja, mas permite identificar quem assinou os atos e quem deverá explicar as decisões correspondentes.

A importância dessa investigação aumentou após a revelação de documentos bancários encontrados pela Polícia Federal em arquivos relacionados a Willer Tomaz. Segundo reportagens publicadas por O Globo, g1 e Folha de S.Paulo, uma conta em nome de Flávio Bolsonaro aparecia associada ao mesmo perfil de acesso bancário, denominado “usuário master”, utilizado na estrutura financeira da Alcazar Holdings. Esse tipo de cadastro permite centralizar a administração de acessos a contas empresariais e definir outros operadores autorizados. Em 22 de maio de 2025, aproximadamente um mês depois da primeira fase da Operação Sem Desconto, uma funcionária do escritório de Willer solicitou ao Santander que a conta vinculada ao senador fosse desassociada daquele perfil. A alteração foi confirmada pelo banco no mesmo dia. A Polícia Federal considera esses registros relevantes para investigar eventual participação econômica ou societária de fato do parlamentar na estrutura empresarial do advogado. Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam a existência de conta conjunta ou sociedade entre eles e contestam a interpretação atribuída aos documentos bancários. A apuração ainda precisa esclarecer a extensão real dos acessos, a existência de eventuais operações e quem exercia o controle efetivo das contas.

As conexões patrimoniais se estendem ao setor de aviação executiva. Segundo documentos mencionados no requerimento e nas investigações jornalísticas, a Alcazar Holdings detinha uma das três participações societárias na empresa proprietária de um jato Embraer Legacy 650, utilizado por Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz em uma viagem entre Brasília e Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, em janeiro de 2025. As demais participações pertenciam ao empresário Laerte Cosentino e à Prime You, companhia da qual o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, foi sócio. A presença da offshore nessa estrutura amplia a importância do depoimento de Lídia, que era sua representante formal no Brasil e recebeu poderes para administrar bens e direitos da sociedade. Uma das questões levantadas pelo deputado é saber se ela conhecia as operações financeiras associadas à holding, quem autorizava movimentações bancárias e se possuía autonomia para decidir sobre o patrimônio que aparecia sob sua responsabilidade.

Outro conjunto de documentos encaminhados à PF envolve a compra de uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, no litoral fluminense. Em julho de 2022, Lídia assinou, como diretora-presidente da WT Administração de Imóveis e Bens S/A, a escritura de aquisição do imóvel e de direitos de ocupação de área de marinha. O documento registra um preço declarado de R$ 600 mil, pago por transferência bancária, enquanto a avaliação da Prefeitura de Angra dos Reis utilizada para o recolhimento do imposto de transmissão alcançou R$ 2,615 milhões. Reportagens posteriores atribuíram à propriedade um valor de aproximadamente R$ 10 milhões. A diferença entre os três valores é apontada no requerimento como uma circunstância que merece investigação, especialmente em relação à origem dos recursos, à negociação com os antigos titulares e à eventual existência de pagamentos não registrados. A divergência, por si só, não demonstra irregularidade, mas a Polícia Federal poderá examinar como os valores foram estabelecidos. O imóvel também esteve envolvido em uma disputa judicial relacionada a uma empresa ligada ao jogador Richarlison.

A atuação de Lídia aparece ainda em outro negócio imobiliário de grande valor na mesma região. Ela administrou a Friponor Brasil Turismo, Empreendimentos e Participações Ltda., sociedade titular dos direitos de ocupação da Ilha do José André, na Enseada de Japuíba, em Angra dos Reis. A ilha chegou a ser anunciada por R$ 17 milhões, segundo a investigação do ICL Notícias. Em novembro de 2023, Lídia representou a WT Administração na aquisição da totalidade das quotas da Friponor, empresa com capital social de R$ 4 milhões, e assumiu a direção da sociedade adquirida. Em maio de 2025, assinou uma consulta ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para esclarecer os limites de ocupação turística da ilha, situada na Área de Proteção Ambiental de Tamoios. Doze dias depois, apresentou um pedido de desistência e arquivamento do procedimento administrativo. A retirada ocorreu em 21 de maio, um dia antes da solicitação encaminhada ao Santander para desvincular a conta de Flávio Bolsonaro do perfil bancário associado à Alcazar. O documento de Lindbergh chama atenção para a proximidade temporal desses acontecimentos, embora não apresente prova de que as decisões estejam diretamente relacionadas.

O quarto eixo do pedido envolve a RioPag S.A., empresa responsável pelo processamento de pagamentos de casas de apostas credenciadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). A companhia, anteriormente denominada Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia S.A. e depois Okto Rio S.A., venceu uma licitação realizada em 2022 e firmou contrato estimado em R$ 32 milhões, com vigência de cinco anos. Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, a concorrência teve apenas duas participantes, e uma delas foi desclassificada por apresentar o percentual de repasse com duas casas decimais, quando o edital exigia três. Após a eliminação da concorrente, a empresa vencedora negociou diretamente com a autarquia e elevou sua oferta para 26,455%. Lídia assumiu funções de direção depois da licitação, mas passou a representar formalmente a companhia durante a execução contratual, inclusive perante bancos e autoridades públicas. Foi ela quem presidiu assembleias relacionadas às mudanças de denominação da empresa em 2024 e comunicou à Loterj a indicação de um representante para acompanhar a execução do contrato. Conforme reportagem do ICL Notícias citada no requerimento, a autarquia atribui à RioPag a falta de repasse de R$ 20,9 milhões devidos ao Estado. A responsabilidade por esses valores e as circunstâncias de sua movimentação dependem de apuração.

A investigação ganhou dimensão ainda maior porque a Polícia Federal também examina possíveis irregularidades envolvendo o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro e o ex-deputado federal Alexandre Ramagem, conforme reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta terça-feira. Os investigadores procuram esclarecer a relação de Willer Tomaz com a contratação da empresa responsável pelos pagamentos da Loterj, os vínculos entre seus negócios e agentes políticos e determinadas transferências financeiras identificadas durante as apurações. Castro afirma que não participou da licitação nem de tratativas relacionadas à contratação da Pixs/RioPag. A defesa de Willer sustenta que seus negócios são legais, que não existem sócios ocultos ou patrimônio escondido e que as suspeitas apresentadas publicamente não demonstram irregularidades. O advogado também é investigado em desdobramentos da Operação Sem Desconto, que apura fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. Paralelamente, uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, divulgada pela imprensa nesta terça-feira, apontou movimentações de aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas realizadas por Willer durante 2025. O montante corresponde ao volume de apostas registrado, não a lucro ou patrimônio comprovado, e a documentação não estabelece, por si só, a prática de crime. O advogado afirma que os recursos são lícitos e questiona os valores divulgados.

É nesse cenário de operações financeiras, contratos públicos e relações políticas que Lindbergh considera urgente a localização de Lídia. O parlamentar argumenta que a antiga administradora pode fornecer informações decisivas para distinguir os responsáveis formais pelos negócios daqueles que efetivamente determinavam as operações e se beneficiavam dos recursos. O requerimento também levanta a possibilidade de que sua posição a torne vulnerável a pressões, sobretudo depois de ter deixado a administração de empresas do grupo e passado a ser publicamente associada às investigações. O próprio documento reconhece, entretanto, que não há notícia comprovada de ameaça ou coação direta contra ela. Tampouco há confirmação oficial de desaparecimento ou de que tenha deixado o país. A informação apresentada à Polícia Federal é a de que Lídia não tem sido localizada desde setembro, circunstância que o deputado considera suficiente para justificar diligências imediatas e uma avaliação técnica de risco.

A preocupação aumentou após a notícia de que Willer Tomaz viajou ao exterior na mesma semana em que o inquérito chegou ao Supremo Tribunal Federal. Segundo a coluna de Igor Gadelha, no Metrópoles, a viagem provocou atenção entre investigadores, que passaram a examinar a possibilidade de o deslocamento estar relacionado ao avanço das apurações. Willer confirmou que deixou o Brasil acompanhado da esposa e dos filhos, mas afirmou que não sofre qualquer restrição ao direito de viajar e classificou como especulativas as hipóteses sobre eventuais medidas cautelares. O advogado também solicitou acesso aos autos da investigação, assim como Flávio Bolsonaro, cujo pedido foi noticiado nesta terça-feira pela CNN Brasil. O acesso aos elementos de prova já documentados constitui direito das defesas, mas Lindbergh requer que eventuais providências de proteção a Lídia sejam tratadas separadamente e sob sigilo, impedindo a divulgação de seu paradeiro ou de informações que possam comprometer sua segurança.

Entre as medidas solicitadas, o deputado pede que a Polícia Federal consulte registros de endereços e sistemas de controle migratório, verifique a eventual saída de Lídia do território nacional e, caso seja localizada, ofereça condições para que seu depoimento seja prestado de maneira reservada, com assistência jurídica independente. A autoridade policial deverá definir se ela será ouvida como testemunha ou investigada, preservando os direitos correspondentes à sua condição processual. Caso sejam identificados riscos concretos e atendidos os requisitos legais, poderá ser oferecido ingresso no programa federal de proteção a testemunhas, que prevê medidas como segurança pessoal, mudança de residência, preservação de identidade e apoio material. A adesão dependerá da concordância da própria Lídia. O parlamentar defende ainda que ela seja informada dos instrumentos legais de colaboração, caso disponha de informações relevantes sobre possíveis crimes praticados por terceiros.

A apresentação do pedido ocorre a cinco dias do segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo, 25 de outubro, quando Lula e Flávio Bolsonaro disputarão a Presidência da República. A proximidade da votação amplia a repercussão política das investigações, mas não altera a necessidade de comprovação individualizada das responsabilidades. No requerimento, Lindbergh sustenta que a publicidade do pedido de proteção busca impedir que uma pessoa possivelmente utilizada como intermediária seja responsabilizada isoladamente por operações financeiras e empresariais que não tenha efetivamente controlado. Para esclarecer essa hipótese, a Polícia Federal precisará estabelecer quem dava as ordens, quem tinha acesso às contas, de onde partiram os recursos, como foram realizados os pagamentos e quem se beneficiou das operações. A localização e o depoimento de Lídia podem contribuir para responder a essas perguntas, especialmente sobre o funcionamento da Alcazar Holdings, a administração da RioPag e os vínculos investigados entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro. Até que essas circunstâncias sejam esclarecidas, a condição de possível laranja permanece uma hipótese investigativa, e não uma responsabilidade demonstrada.

A investigação sobre as empresas de Willer Tomaz ganhou um novo capítulo com o pedido de Lindbergh à Polícia Federal. Uma mulher que apareceu formalmente à frente de negócios milionários, apesar de declarar condições financeiras modestas, pode ajudar a esclarecer quem realmente controlava as operações ligadas a uma offshore portuguesa, contratos da Loterj e movimentações bancárias que chegaram ao nome de Flávio Bolsonaro. O deputado exige sua localização urgente, proteção e depoimento reservado.