Luizianne estreia na chapa governista no topo da disputa pelo Senado. Cid em segundo

Pesquisa Focus Poder/AtlasIntel coloca Luizianne Lins com 24% e Cid Gomes com 23,7% na soma dos dois votos; Capitão Wagner tem 21,7% e também está tecnicamente empatado com os dois

Da Redação

A entrada de Luizianne Lins (Rede) na chapa governista de Elmano de Freitas (PT) ocorre acompanhada de um dado eleitoral relevante: a ex-prefeita de Fortaleza aparece numericamente na primeira posição na disputa pelas duas vagas do Ceará no Senado. Na pesquisa Focus Poder/AtlasIntel, Luizianne registra 24% na soma das escolhas dos entrevistados, seguida por Cid Gomes (PSB), com 23,7%, e Capitão Wagner, com 21,7%.

Os três estão tecnicamente empatados, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. Alcides Fernandes (PL) aparece depois, com 15,9%. General Theophilo registra 1,1%, Catarina Matos, 0,4%, e Reginaldo Ferreira, 0,3%.

A pesquisa ouviu 1.774 eleitores entre 6 e 11 de agosto, período posterior à definição da chapa governista. O nível de confiança é de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número CE-02777/2026.

Como o Ceará elege dois senadores neste ano, cada eleitor poderá escolher dois candidatos. A AtlasIntel perguntou separadamente pelo primeiro e pelo segundo voto, o que permite observar diferenças importantes no desempenho das candidaturas.

Cid lidera no primeiro voto e Luizianne, no segundo

Cid Gomes apresenta seu melhor resultado quando o eleitor é perguntado sobre a primeira escolha para o Senado. O senador chega a 32,6%, seguido por Capitão Wagner, com 24,1%, Luizianne, com 19,6%, e Alcides Fernandes, com 14,8%.

A ordem muda quando a pergunta é sobre o segundo voto. Luizianne assume a primeira posição com 28,4%. Wagner aparece com 19,3%, Alcides com 16,9% e Cid com 14,8%. É essa força de Luizianne como segunda escolha que a leva aos 24% quando os dois votos são considerados. Cid chega a 23,7%, apenas 0,3 ponto percentual atrás.

O resultado também ajuda a mostrar por que pesquisas para o Senado precisam ser interpretadas de maneira diferente das disputas para governador ou presidente. Não existe diferença prática entre o primeiro e o segundo voto no momento da apuração. Os dois possuem o mesmo peso para definir os eleitos.

Luizianne concentra voto de eleitores de Lula

Os cruzamentos apresentados pela pesquisa mostram uma associação clara entre as candidaturas de Luizianne e Cid e o eleitorado que votou no Presidente Lula em 2022. Entre os entrevistados que declararam voto em Lula no segundo turno daquela eleição, Luizianne alcança 36,7% e Cid, 35,3%. No grupo que declarou ter votado em Jair Bolsonaro, o quadro muda. Capitão Wagner registra 45,9% e Alcides Fernandes, 45,2%.

A divisão também aparece quando a referência é a eleição estadual de 2022. Entre quem declarou ter votado em Elmano de Freitas, Luizianne tem 40,1% e Cid, 38,2%. Entre os antigos eleitores de Capitão Wagner para o Governo do Ceará, o próprio Wagner registra 45,4% das escolhas para o Senado, enquanto Alcides alcança 40,7%.

Os números indicam que a disputa pelas duas vagas está fortemente relacionada aos campos políticos que disputam o governo estadual e a Presidência.

Entrada de Luizianne resolveu uma divisão no governismo

A candidatura de Luizianne ao Senado estava colocada antes mesmo de sua incorporação à chapa de Elmano. A deputada havia deixado o PT, partido ao qual foi filiada durante décadas, e ingressado na Rede em abril. Mesmo fora do PT, manteve o apoio ao Presidente Lula e a Elmano e afirmou que disputaria o Senado independentemente de ser incorporada à chapa governista.

Essa possibilidade criou um problema para a base. Cid já estava definido como candidato à reeleição, enquanto uma candidatura independente de Luizianne poderia disputar votos dentro do mesmo eleitorado identificado com Lula e Elmano. José Guimarães esteve entre os defensores de sua incorporação à chapa. As negociações envolveram ainda Elmano e Camilo Santana e avançaram depois que a configuração eleitoral do Ceará tornou mais importante ampliar a capacidade de mobilização da candidatura governista em Fortaleza.

Com o acordo, Luizianne e Cid passaram de potenciais concorrentes pelo mesmo eleitorado a candidatos da mesma chapa às duas vagas disponíveis.

A pesquisa realizada entre 6 e 11 de agosto é um dos primeiros levantamentos a captar essa configuração já definida. Os cruzamentos mostram que os dois encontram suas maiores taxas justamente entre eleitores de Lula e Elmano.

Antes do rompimento, Luizianne e Cid foram aliados

A dobradinha de 2026 também reúne novamente duas lideranças que já tiveram uma relação política próxima antes de protagonizarem um dos rompimentos mais importantes da política cearense. Luizianne e Cid foram aliados durante os primeiros anos dos respectivos governos. Quando Cid disputou o Governo do Ceará em 2006, PT e PSB estavam no mesmo campo político. Dois anos depois, Cid apoiou a reeleição de Luizianne à Prefeitura de Fortaleza, mesmo com sua ex-cunhada Patrícia Saboya concorrendo ao cargo e recebendo o apoio de Ciro Gomes. Em 2010, Luizianne retribuiu e apoiou a reeleição de Cid ao Governo do Ceará. Naquele período, os dois também se tratavam publicamente como amigos.

Foi justamente em 2010 que surgiu uma divergência que desgastaria a relação: o projeto de instalação de um estaleiro na Praia do Titanzinho, em Fortaleza. Cid defendia o local e afirmava que o Titanzinho era a única alternativa disponível para manter o empreendimento no Ceará. Luizianne, então prefeita, rejeitou a instalação naquela área e sustentou que o projeto era incompatível com os interesses urbanísticos e sociais da região.

O conflito ganhou dimensão política porque envolvia diretamente as competências e prioridades do Governo do Estado e da Prefeitura de Fortaleza. Cid procurou vereadores para apresentar o projeto, atitude que Luizianne classificou na época como “esquisita”. A prefeita respondeu publicamente que Fortaleza tinha prefeita e que caberia à administração municipal cuidar dos interesses da cidade.

Apesar do desgaste provocado pelo estaleiro, o rompimento definitivo ocorreu em 2012, durante a sucessão municipal. Luizianne escolheu Elmano de Freitas como candidato do PT à Prefeitura. Cid defendia outra solução para a sucessão e seu grupo terminou lançando Roberto Cláudio, então presidente da Assembleia Legislativa. Roberto Cláudio venceu Elmano no segundo turno e a relação política entre Cid e Luizianne foi interrompida.

Os dois permaneceram praticamente uma década sem contato. Em 2022, durante o segundo turno da eleição presidencial, voltaram a conversar. Luizianne posteriormente descreveu aquele encontro como uma retomada do diálogo. Quatro anos depois, os antigos amigos e adversários voltam a compartilhar uma chapa, agora disputando juntos as duas cadeiras cearenses no Senado.

Três candidatos tecnicamente empatados

Apesar de Luizianne ocupar numericamente a primeira posição na soma dos votos, a pesquisa não permite afirmar que exista uma liderança isolada. A diferença entre Luizianne, com 24%, Cid, com 23,7%, e Wagner, com 21,7%, está dentro da margem de erro. Estatisticamente, os três disputam o primeiro lugar. Alcides Fernandes aparece em outro patamar, com 15,9%, mas mantém presença relevante especialmente entre os eleitores identificados com Jair Bolsonaro. Também permanece espaço para mudanças durante a campanha. No segundo voto, 8% dos entrevistados ainda não sabem em quem votar, enquanto 9,7% indicam voto branco ou nulo.

Outro elemento importante é a possibilidade de voto cruzado. O eleitor não é obrigado a escolher os dois candidatos de uma mesma chapa. Pode votar, por exemplo, em Cid e Wagner ou Luizianne e Alcides. Por isso, somar os 24% de Luizianne aos 23,7% de Cid não significa afirmar que 47,7% dos eleitores já tenham decidido votar na dupla governista.

O retrato oferecido pela pesquisa é mais específico: no início da campanha com a chapa definida, Luizianne, Cid e Wagner formam o grupo tecnicamente empatado no topo da corrida pelas duas vagas, e Luizianne chega à disputa oficial com uma vantagem particular. Entre todos os candidatos, é ela quem apresenta o melhor desempenho quando o eleitor indica sua segunda escolha.

Vídeo de Wagner provoca reação negativa

Em meio à disputa pelo Senado, um vídeo em que a deputada Dayany Bittencourt, esposa de Wagner anuncia, ao lado do marido, ter recebido diagnóstico de autismo aos 45 anos provocou críticas nas redes sociais. Parte das reações considerou a gravação excessivamente encenada e infantilizadora e interpretou sua divulgação durante a campanha como uma tentativa de aproximação eleitoral. Também houve críticas ao tratamento dado ao diagnóstico, considerado banalizado. Wagner menciona que o diagnóstico teria movido seu interesse pela pauta e na sequência diz trabalhar na defesa dos direitos das pessoas autistas desde 2013, muitos anos antes da descoberta feita agora.