Confrontos com Capitão Wagner e Alcides Fernandes levaram segurança pública, Bolsonaro e alianças políticas para o centro da disputa pelo Senado
Da Redação
O primeiro debate com os quatro principais candidatos ao Senado pelo Ceará terminou com uma sucessão de confrontos sobre Bolsonaro, segurança pública, facções criminosas e alianças políticas. Realizado pelo Grupo de Comunicação O POVO na sede da OAB Ceará, em Fortaleza, o encontro reuniu Cid Gomes (PSB), Capitão Wagner (União Brasil), Luizianne Lins (Rede) e Alcides Fernandes (PL), dez dias antes do primeiro turno das eleições. A dinâmica teve duas rodadas de perguntas entre candidatos de chapas adversárias e abriu espaço para réplicas e tréplicas.
A condução dos embates fez com que Luizianne e Cid concentrassem boa parte das discussões em questões que atingem diretamente as alianças de Wagner e Alcides. Luizianne insistiu em cobrar dos dois candidatos exemplos concretos da atuação do governo Bolsonaro no Ceará. Cid, por sua vez, foi pressionado por Wagner e Alcides sobre suas alianças e sobre políticos que passaram por seu campo partidário.
O primeiro confronto já estabeleceu o tom da noite. Luizianne escolheu Alcides para responder sobre a atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19. A candidata questionou a postura do então governo federal diante da vacinação e das medidas de enfrentamento da crise sanitária.
Alcides não respondeu diretamente à pergunta. Apresentou-se como “um bolsonarista vacinado” e deslocou a discussão para a situação econômica e social do Ceará, questionando Luizianne sobre recursos de emendas parlamentares destinados a outros estados.
A resposta abriu espaço para Luizianne voltar ao tema original. A candidata afirmou que Alcides não havia respondido sobre a condução da pandemia e passou a questionar sua identificação com Bolsonaro.
O debate seguiu rapidamente para o campo eleitoral. Alcides atacou a trajetória de Luizianne e afirmou que ela havia se afastado do PT. A candidata, por sua vez, voltou a criticar o governo Bolsonaro e associou sua atuação política ao campo de oposição ao bolsonarismo.
O segundo embate colocou Alcides diante de Cid Gomes. O candidato do PL questionou a escolha de Júnior Mano como primeiro suplente de Cid e fez acusações relacionadas a investigações envolvendo o parlamentar.
Cid respondeu com uma defesa do direito ao devido processo legal e afirmou que não havia condenação contra Júnior Mano.
“Não existe nenhuma condenação em relação a Júnior Mano”, afirmou Cid. O senador também sustentou que seu compromisso político inclui a formação de novos quadros e declarou que permanece no mesmo campo político de Lula.
“Eu me mantenho no mesmo lado”, disse.
A fala permitiu que Cid deslocasse a discussão para a disputa presidencial e para as diferenças entre os grupos que apoiam Lula e Bolsonaro. O senador afirmou que considera Lula melhor para o Ceará e para o Nordeste do que Bolsonaro e classificou o bolsonarismo como uma corrente política voltada contra os interesses da população mais pobre.
Quando chegou sua vez de questionar Cid, Capitão Wagner escolheu outro caminho. Em vez de explorar a questão de Júnior Mano, perguntou qual candidato à Presidência Cid apoiaria.
Cid respondeu apresentando sua chapa como a candidatura alinhada a Lula no Ceará.
“Esta lista aqui é a lista de Lula em Ceará”, afirmou.
Wagner então declarou seus próprios apoios. Disse votar em Ciro Gomes para o governo estadual e em Flávio Bolsonaro para a Presidência, além de apresentar os nomes que compõem sua chapa proporcional.
A partir dali, a disputa passou a girar em torno de Ciro Gomes, Elmano de Freitas e Lula, mostrando como a eleição para o Senado está diretamente conectada à polarização da disputa pelo governo do Ceará. O POVO havia registrado antes do debate que Cid e Luizianne integravam a chapa ligada ao governador Elmano, enquanto Wagner e Alcides estavam associados ao palanque de Ciro Gomes.
A segurança pública apareceu como o principal eixo da estratégia de Wagner e Alcides. Os dois candidatos levaram para praticamente todos os confrontos acusações sobre o avanço das facções criminosas no Ceará e cobraram dos adversários propostas para enfrentar o problema.
Wagner utilizou o tema para questionar Luizianne sobre sua posição a respeito da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. A candidata respondeu que não caberia a outro país definir unilateralmente como o Brasil deve classificar organizações criminosas em seu território.
Luizianne associou a discussão à soberania brasileira e criticou a política externa do governo Donald Trump.
Wagner insistiu na pergunta e afirmou ser favorável à classificação das facções como organizações terroristas. Também defendeu a redução da maioridade penal e o endurecimento da legislação contra o crime organizado.
A candidata voltou a colocar Wagner diante de uma questão sobre Bolsonaro. Pediu que ele citasse obras e ações concretas realizadas pelo governo federal no Ceará durante os quatro anos da gestão Bolsonaro.
“Eu queria que você enumerasse para todos os cearenses quais foram efetivamente as obras e ações do governo de Jair Bolsonaro para o povo do Ceará”, questionou.
A mesma pergunta seria repetida mais tarde a Alcides. Luizianne reduziu o pedido a uma única obra.
“Eu só queria uma. Não precisa inúmeras”, afirmou.
Alcides citou a transposição do Rio São Francisco, reforçou a atuação de parlamentares do PL na destinação de recursos e mencionou investimentos no Instituto do Câncer. Também afirmou que ele e o deputado federal André Fernandes haviam destinado recursos a instituições cearenses.
Luizianne não considerou a resposta suficiente e voltou a insistir que o candidato apresentasse uma grande obra do governo Bolsonaro especificamente no Ceará.
O confronto entre Wagner e Luizianne também avançou para temas nacionais que estarão no centro da atuação de qualquer senador eleito. Wagner questionou posições atribuídas à candidata sobre aborto, maioridade penal, castração química e impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
Luizianne contestou uma das afirmações feitas pelo adversário e pediu direito de resposta. A comissão responsável pelo debate analisou os pedidos apresentados ao longo do encontro, seguindo as regras previamente estabelecidas.
Outro dos principais embates ocorreu entre Cid Gomes e Capitão Wagner. O candidato do União Brasil voltou a questionar Cid sobre Bebeto do Choró, político que passou pelo PSB e que é citado em investigações relacionadas ao crime organizado.
Cid negou ter declarado que Bebeto do Choró era inocente e explicou sua posição.
“Eu nunca disse que Bebeto do Choró fosse inocente, Wagner”, afirmou. “As pessoas têm direito à defesa e direito a um devido processo legal.”
Cid disse ainda que o partido havia solicitado esclarecimentos ao político e que ele foi afastado depois de se tornar foragido e não responder às solicitações da legenda.
Wagner apresentou uma interpretação diferente da relação entre Cid e Bebeto e afirmou que o senador deveria explicar por que havia permitido sua filiação ao PSB e pedido votos para ele. As acusações foram feitas durante o confronto político e não equivalem, por si só, a condenações judiciais.
Cid respondeu lembrando que também havia denúncias envolvendo pessoas ligadas ao campo político de Wagner e questionou se o adversário adotaria o mesmo critério nesses casos.
O embate deixou evidente uma das características centrais da eleição cearense de 2026: antigas alianças foram reorganizadas e adversários de períodos anteriores passaram a dividir palanques. Cid e Ciro Gomes, irmãos e antigos aliados, estão em campos distintos na eleição. Wagner e Alcides integram o grupo que apoia Ciro para o governo estadual, enquanto Cid e Luizianne estão associados ao campo de Elmano.
A pesquisa Datafolha divulgada em 25 de setembro mostra uma disputa apertada entre os três candidatos que aparecem à frente na corrida pelo Senado. Cid Gomes registrou 23%, Capitão Wagner 20% e Luizianne Lins 19%. Alcides não aparece entre os três primeiros no resultado divulgado pela pesquisa. O levantamento apontou empate técnico entre Cid, Wagner e Luizianne dentro da margem de erro.
A pesquisa Quaest divulgada dois dias antes havia apresentado números semelhantes, com Cid em 25%, Wagner em 21% e Luizianne em 19%. O levantamento ouviu 900 eleitores.
Nesse cenário, o debate teve importância particular porque foi o primeiro confronto público entre os quatro candidatos reunidos. O encontro ocorreu na penúltima semana da campanha, quando a disputa pelas duas vagas ao Senado entrou em sua fase final.
Nas considerações finais, cada candidato retomou a estratégia apresentada durante o debate.
Alcides voltou a associar sua candidatura ao discurso de mudança e à agenda de segurança pública. Defendeu a candidatura de Ciro Gomes ao governo estadual e declarou apoio a Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.
Luizianne encerrou sua participação defendendo a continuidade do governo Lula e do governo Elmano. A candidata afirmou que chegou ao debate com propostas para apresentar ao Senado, mas avaliou que a dinâmica acabou concentrada nos ataques entre os participantes.
“O que está em jogo são questões muito sérias”, afirmou.
Capitão Wagner manteve a segurança pública como principal eixo de sua fala. Disse que pretende endurecer a legislação contra as facções, ampliar recursos para municípios e atuar sobre decisões do Supremo Tribunal Federal.
Cid Gomes encerrou defendendo sua permanência no Senado e vinculando sua candidatura ao projeto político de Lula no Ceará. O senador destacou políticas de educação, emprego e geração de renda e também defendeu mudanças na legislação para ampliar a atuação federal na segurança pública.
O debate terminou, portanto, sem que os candidatos conseguissem retirar a disputa do terreno das alianças políticas. Luizianne e Cid exploraram principalmente as contradições entre o discurso dos adversários e o legado do governo Bolsonaro no Ceará. Wagner e Alcides concentraram seus ataques na segurança pública, nas facções e nas relações políticas do grupo de Elmano.
Mais do que uma apresentação de propostas para o mandato de oito anos no Senado, o encontro expôs as linhas de divisão da eleição cearense. A disputa pelo Senado aparece integrada à batalha pelo governo estadual e à eleição presidencial, com os candidatos usando seus adversários e respectivas alianças como parte central da argumentação.
A votação ocorre em 4 de outubro, quando os eleitores cearenses escolherão dois nomes para o Senado Federal.





