Da Redação
Presidente brasileiro faz nesta terça-feira o primeiro discurso nacional no Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Em Nova York, Lula deve defender a reforma das instituições multilaterais, a soberania dos Estados, o combate à fome e a negociação política dos conflitos internacionais. O pronunciamento ocorre num momento em que guerras, disputas comerciais e rivalidades entre grandes potências colocam sob pressão a arquitetura internacional construída depois de 1945.
Luiz Inácio Lula da Silva sobe nesta terça-feira, 22 de setembro, à tribuna das Nações Unidas num daqueles momentos em que a tradição diplomática brasileira ganha um significado que vai além do protocolo. Como ocorre há décadas, caberá ao Brasil fazer o primeiro pronunciamento nacional do Debate Geral da Assembleia Geral, antes dos Estados Unidos. Desta vez, porém, Lula encontrará uma ONU atravessada por guerras, disputas comerciais, sanções, conflitos entre grandes potências e uma discussão cada vez mais aberta sobre a capacidade das instituições multilaterais de administrar a nova correlação de forças mundial.
O eixo preparado pelo governo brasileiro para o discurso é justamente essa crise do sistema internacional. Segundo informações divulgadas pela diplomacia brasileira antes da abertura da Assembleia, Lula pretende defender o multilateralismo, a soberania dos Estados, a solução negociada dos conflitos, o combate à fome e uma reforma das estruturas de governança global, particularmente do Conselho de Segurança da ONU.
A mensagem não aparece isoladamente. Lula chegou a Nova York depois de meses em que o governo brasileiro ampliou o discurso em defesa de uma ordem internacional menos dependente de decisões unilaterais das grandes potências. Na segunda-feira, participou de uma articulação internacional em defesa do multilateralismo e manteve reuniões bilaterais antes da abertura do Debate Geral. A estratégia brasileira procura apresentar a questão não apenas como uma divergência circunstancial entre Brasília e Washington, mas como um problema mais amplo sobre as regras que devem organizar as relações entre Estados.
Essa distinção será especialmente importante nesta terça-feira.
Brasil e Estados Unidos atravessam um período de divergências comerciais e políticas, mas continuam negociando. Lula vem afirmando que o Brasil não aceita interferência externa em decisões soberanas, ao mesmo tempo que mantém abertos os canais diplomáticos com o governo Donald Trump. O discurso na ONU deverá transportar essa posição para um plano mais geral: a defesa de que diferenças entre países sejam processadas por negociação, direito internacional e instituições multilaterais, e não apenas pela capacidade econômica, financeira ou militar de cada Estado.
É uma discussão que atinge diretamente a própria ONU.
Uma organização de 1945 diante do mundo de 2026
O Conselho de Segurança continua organizado em torno da estrutura criada no final da Segunda Guerra Mundial. Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido ocupam permanentemente o órgão e possuem poder de veto. América Latina e África, apesar de reunirem mais de dois bilhões de habitantes, não possuem nenhum membro permanente.
O Brasil questiona essa configuração há décadas. Ao lado de Alemanha, Índia e Japão, integra o G4, grupo que defende a ampliação das categorias permanente e não permanente do Conselho. Brasília também sustenta que uma reforma precisa aumentar a presença de países africanos e latino-americanos nos centros decisórios internacionais.
A dificuldade é que aqueles que possuem maior poder dentro do sistema também controlam parte essencial do mecanismo necessário para modificá-lo. Uma reforma da Carta das Nações Unidas precisa ser aprovada por dois terços da Assembleia Geral e posteriormente ratificada por dois terços dos Estados-membros, incluindo os cinco integrantes permanentes do Conselho de Segurança. Em outras palavras, qualquer mudança estrutural depende também da concordância das potências cujo poder seria afetado por ela.
Esse impasse ajuda a explicar por que a discussão atravessou décadas sem produzir a reforma defendida pelo Brasil e por outros países.
Ao mesmo tempo, as sucessivas guerras tornaram mais visíveis os limites da arquitetura atual. Quando interesses estratégicos das grandes potências ou de seus aliados entram diretamente em choque, o veto frequentemente impede que o Conselho produza decisões capazes de encerrar ou administrar os conflitos. Isso não significa que a ONU tenha deixado de funcionar — a organização continua atuando em ajuda humanitária, desenvolvimento, mediação, refugiados, saúde, missões de paz e inúmeras outras áreas —, mas sua capacidade política fica particularmente limitada justamente nas crises em que os interesses das grandes potências colidem.
É nesse ponto que a defesa brasileira do multilateralismo contém também uma crítica ao próprio multilateralismo existente.
A posição de Brasília não é preservar a estrutura internacional tal como foi criada em 1945. É reformá-la para que continue tendo legitimidade num mundo profundamente diferente daquele que surgiu depois da Segunda Guerra.
A guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio e as sucessivas tensões envolvendo comércio, tecnologia e sanções econômicas devem aparecer nesse pano de fundo. O governo brasileiro vem insistindo que a negociação precisa recuperar espaço como instrumento político, posição que nem sempre coincide com a estratégia adotada pelos países diretamente envolvidos nos conflitos.
A Assembleia Geral será justamente o lugar onde essas diferenças ficarão expostas.
Soberania, desenvolvimento e combate à fome
Lula também chega a Nova York com uma agenda que procura aproximar política internacional e desigualdade social.
Desde seu retorno à Presidência, em 2023, o governo brasileiro vem tentando recolocar fome, pobreza e desenvolvimento entre os grandes temas diplomáticos. A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a presidência brasileira do G20, tornou-se o principal instrumento dessa política e reúne governos, organismos internacionais, instituições financeiras e organizações da sociedade civil.
A lógica defendida pelo Brasil é relativamente simples: uma ordem internacional que mobiliza enormes volumes de recursos para conflitos e segurança, mas não consegue garantir alimentação, infraestrutura básica e condições mínimas de desenvolvimento para parcelas gigantescas da população mundial, possui também um problema de prioridades.
Essa discussão se conecta à reforma da governança global.
Para Brasília, aumentar a presença dos países em desenvolvimento não significa apenas reivindicar novas cadeiras no Conselho de Segurança. Significa também ampliar sua capacidade de participação nas instituições financeiras, comerciais e políticas onde decisões internacionais são tomadas.
É nesse contexto que o chamado Sul Global ganhou espaço crescente na política externa brasileira. O conceito reúne países com histórias, governos e interesses muito diferentes e não descreve um bloco político homogêneo. Índia, Brasil, África do Sul, Indonésia, países africanos, latino-americanos e asiáticos frequentemente divergem entre si. O ponto comum está na reivindicação de maior participação numa estrutura internacional ainda fortemente marcada pela distribuição de poder construída no século XX.
A expansão recente do BRICS, a entrada da União Africana no G20 e a pressão pela reforma do Conselho de Segurança fazem parte dessa transformação mais ampla.
O discurso brasileiro desta terça-feira deverá procurar conectar esses processos.
Há também um componente latino-americano. Em suas reuniões em Nova York, Lula voltou a tratar de integração regional, democracia, desigualdade e combate à desinformação. Na segunda-feira, encontrou-se com o presidente uruguaio Yamandú Orsi e com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. São encontros de naturezas institucionais muito diferentes, mas inseridos numa agenda que o governo brasileiro procura organizar em torno de cooperação, políticas sociais e fortalecimento de mecanismos políticos de diálogo.
Nada disso significa que exista consenso latino-americano sobre a política externa defendida por Brasília. Os governos da região divergem profundamente sobre Venezuela, Estados Unidos, China, segurança, comércio e diferentes conflitos internacionais. A integração defendida pelo Brasil continua sendo uma proposta política em disputa, e não uma realidade consolidada.
Lula e Trump falarão em sequência
A disposição dos discursos acrescentará uma dimensão particular ao dia.
Depois da abertura brasileira, os Estados Unidos tradicionalmente ocupam a tribuna como país anfitrião. Lula e Donald Trump, portanto, deverão apresentar suas respectivas leituras da conjuntura internacional com poucos minutos de diferença.
Não haverá um debate formal entre os dois presidentes. Tampouco é possível antecipar o conteúdo exato da intervenção americana antes de Trump falar. Mas a sequência coloca diante da Assembleia dois governos que atravessam divergências relevantes e que, ao mesmo tempo, continuam mantendo canais diplomáticos e comerciais de negociação.
No caso brasileiro, a orientação geral já está clara. Lula pretende defender uma ordem internacional baseada em soberania, negociação e instituições multilaterais reformadas. A questão central será como transformará esses princípios em mensagem política diante de um cenário internacional no qual a força militar, as tarifas, as sanções econômicas e as disputas tecnológicas voltaram a ocupar papel central.
Existe ainda um simbolismo histórico na posição ocupada pelo Brasil.
Não há um artigo da Carta da ONU determinando que o país seja o primeiro a falar. A prática consolidou-se nos primeiros anos da organização e tornou-se uma tradição permanente a partir da década de 1950. Desde então, o Brasil ganhou uma posição diplomática rara: antes que as grandes potências apresentem suas prioridades, cabe ao representante brasileiro oferecer a primeira leitura nacional do estado do mundo.
Em 2026, Lula utilizará essa tribuna diante de uma contradição difícil de ignorar.
A ONU permanece como o único fórum político verdadeiramente universal, reunindo 193 Estados-membros sob a mesma estrutura. Nenhuma outra organização possui alcance equivalente. Ao mesmo tempo, seu principal órgão de segurança conserva uma distribuição de poder estabelecida há mais de oito décadas, enquanto o peso econômico, demográfico e político do planeta mudou profundamente.
É essa tensão que estará no centro da intervenção brasileira.
Lula não chega a Nova York para defender que a ONU permaneça como está. A mensagem preparada pelo governo aponta na direção oposta: sem reforma, representatividade e capacidade de produzir soluções políticas, o próprio multilateralismo corre o risco de perder espaço para relações internacionais cada vez mais organizadas pela pressão econômica e pela força.
O discurso desta terça-feira não resolverá essa contradição. Nenhum pronunciamento presidencial teria essa capacidade. Mas permitirá saber como o Brasil pretende se posicionar diante dela num momento em que a disputa sobre quem escreve as regras da ordem internacional voltou ao centro da política mundial.






