Lula acusa Meta de interferência eleitoral e TSE exige explicações sobre alcance de conteúdos

Campanha do presidente afirma que Instagram e Facebook restringiram publicações justamente quando vídeos de Lula alcançavam recordes de audiência. Meta rejeita a acusação e diz que problemas técnicos não foram direcionados a uma candidatura. Justiça Eleitoral determinou a apresentação de dados internos para verificar se Lula e Flávio Bolsonaro receberam tratamento equivalente.

Da Redação

A disputa presidencial brasileira entrou definitivamente no terreno dos algoritmos. A duas semanas do segundo turno, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou a Meta, controladora do Instagram, Facebook e WhatsApp, de interferir no processo eleitoral ao restringir a distribuição de conteúdos ligados à candidatura governista. A denúncia ganhou repercussão internacional neste domingo (11), quando a agência France-Presse destacou o episódio em sua cobertura mundial sobre tecnologia e eleições. A Meta rejeita as acusações e afirma que não favoreceu Flávio Bolsonaro nem prejudicou Lula.

A controvérsia começou depois que a equipe digital do presidente identificou uma sequência de problemas justamente no momento em que Lula havia mudado sua estratégia nas redes sociais. Após o primeiro turno, o presidente passou a aparecer com maior frequência em vídeos gravados de maneira direta, olhando para a câmera e falando com os eleitores sem a estrutura tradicional dos programas de campanha. O formato produziu números muito superiores aos observados anteriormente, com algumas publicações alcançando dezenas de milhões de visualizações e um aumento significativo da presença do candidato no Instagram.

Segundo a campanha, foi depois dessa mudança de desempenho que começaram a surgir restrições consideradas anormais. O perfil oficial de Lula teria perdido temporariamente a possibilidade de impulsionar determinadas publicações do feed, enquanto vídeos apresentaram alterações abruptas no número de visualizações. A equipe também afirma que, antes do primeiro turno, perfis de Lula e de outras lideranças de esquerda desapareceram temporariamente dos resultados de busca do Instagram, fenômeno que a Meta atribuiu a problemas técnicos.

A sucessão desses episódios levou a coligação governista a formular uma acusação mais grave: a de que as falhas poderiam não ser acontecimentos isolados, mas produzir um desequilíbrio concreto entre as duas campanhas. A tese apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral é de que uma plataforma privada, ao controlar sistemas de recomendação capazes de definir o que milhões de brasileiros veem diariamente, pode interferir na competição mesmo sem retirar formalmente uma postagem do ar.

A Meta nega essa interpretação. Em resposta enviada à AFP, a empresa afirmou que as acusações são falsas e não correspondem aos fatos. A companhia sustenta que problemas técnicos mencionados pela campanha não atingiram apenas o Brasil ou contas específicas e declara cumprir a legislação eleitoral, mantendo compromisso com tratamento isonômico entre candidatos.

O embate, portanto, chegou a um ponto em que versões públicas já não são suficientes. Agora, a própria arquitetura interna das plataformas será examinada pela Justiça Eleitoral.

TSE quer saber o que aconteceu dentro dos algoritmos

O Tribunal Superior Eleitoral determinou que a Meta apresente, em até 48 horas, uma série de informações técnicas relacionadas aos perfis da campanha de Lula. A decisão busca descobrir se houve redução de alcance, exclusão de sistemas de recomendação, restrições geográficas, impedimentos para impulsionamento, alterações nas métricas dos vídeos ou outras medidas capazes de diminuir a distribuição dos conteúdos.

A empresa deverá informar, perfil por perfil, quais intervenções foram aplicadas e explicar o fundamento de cada uma. O tribunal também quer saber se as decisões foram tomadas automaticamente por sistemas algorítmicos ou por equipes humanas, quais regras foram utilizadas e se procedimentos semelhantes foram empregados contra contas associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro.

Esse último ponto é central. A questão não é apenas descobrir se Lula sofreu alguma restrição, porque plataformas aplicam diariamente milhares de medidas contra conteúdos e contas. O que a Justiça pretende verificar é se as duas candidaturas foram submetidas aos mesmos critérios diante de situações equivalentes.

A investigação alcança ainda os sistemas de publicidade. A campanha petista relata dificuldades para impulsionar conteúdos, instrumento importante numa eleição em que uma parte considerável da comunicação política circula pelas redes sociais. A Meta terá de esclarecer por que determinadas funcionalidades foram bloqueadas ou limitadas e apresentar registros que permitam reconstruir a sequência dessas decisões.

O TSE exigiu também a preservação dos dados relacionados ao caso. A medida impede que logs de moderação, registros de publicidade, informações sobre recomendação e outras evidências técnicas sejam apagados enquanto a controvérsia estiver sendo examinada.

A decisão não significa que o tribunal reconheceu a existência de interferência eleitoral. O que existe até agora é uma denúncia considerada suficientemente relevante para justificar a obtenção dos dados que apenas a empresa possui. A conclusão dependerá da comparação entre esses registros e aquilo que foi relatado pelas campanhas.

Crescimento de Lula nas redes acendeu alerta na campanha

A ofensiva jurídica ocorre no momento em que a campanha governista tenta corrigir uma das fragilidades identificadas depois do primeiro turno: a dificuldade de competir com o alcance digital construído pelo bolsonarismo ao longo de anos.

Lula nunca foi um político pessoalmente integrado ao ambiente dos smartphones. O presidente não utiliza celular no cotidiano e frequentemente delegou sua presença digital a equipes de comunicação. Depois da votação de 4 de outubro, porém, sua campanha passou a apostar em uma exposição mais direta, com gravações curtas, linguagem menos formal e participação diária nas redes.

A mudança produziu crescimento rápido. Segundo dados divulgados pela própria equipe, vídeos recentes atingiram patamares de audiência inéditos para os perfis do presidente. A campanha afirma que, justamente quando os conteúdos passaram a encontrar públicos muito superiores à base tradicional de seguidores, começaram a aparecer limitações de impulsionamento, interrupções nas contagens e dificuldades de distribuição.

Esse encadeamento temporal é utilizado pelos representantes de Lula para sustentar a suspeita de seletividade algorítmica. A Meta responde que correlação não significa intervenção deliberada e que oscilações em métricas e recomendações podem ocorrer por razões técnicas, processamento automatizado ou sistemas globais que não distinguem uma candidatura brasileira específica.

É essa diferença entre efeito e intenção que a análise técnica precisará esclarecer.

Uma plataforma pode produzir impacto eleitoral mesmo sem que exista uma pessoa decidindo beneficiar determinado candidato. Um algoritmo treinado para detectar determinado tipo de edição, linguagem ou conteúdo pode atingir desproporcionalmente um grupo político. Ao mesmo tempo, um resultado desigual não demonstra automaticamente uma operação deliberada de interferência.

Para chegar a uma conclusão, será necessário saber exatamente quais regras estavam funcionando, como foram aplicadas e se o comportamento foi equivalente em relação aos adversários.

Poder das plataformas passa a integrar o debate democrático

O episódio mostra como as eleições mudaram. Durante décadas, uma das principais preocupações das autoridades era assegurar equilíbrio entre candidatos no rádio e na televisão. Hoje, uma parte decisiva da formação da opinião pública ocorre dentro de sistemas privados cujo funcionamento é desconhecido pela maioria dos usuários.

Quando uma emissora concede determinado tempo de propaganda, o cálculo pode ser verificado. No ambiente das redes sociais, uma plataforma pode mostrar uma publicação para 5 milhões de pessoas num dia e para 500 mil no outro, sem que o usuário consiga compreender sozinho por que isso ocorreu.

A palavra que define esse poder é recomendação. Instagram, Facebook, TikTok, YouTube e outras plataformas não exibem simplesmente tudo aquilo que é publicado. Elas selecionam, classificam e distribuem conteúdos segundo sistemas automatizados que determinam quais vídeos serão apresentados a cada pessoa.

Esse mecanismo adquiriu enorme importância política. Uma publicação pode ser formalmente mantida no ar, mas perder quase toda a sua capacidade de alcançar novos usuários se for excluída dos sistemas de recomendação. O inverso também pode ocorrer: determinado vídeo pode ser impulsionado organicamente pelo próprio algoritmo e alcançar públicos muito superiores ao número de seguidores de sua conta original.

É por isso que a disputa levada ao TSE não se limita a censura ou retirada de postagens. Ela trata de algo muito mais difícil de enxergar: a possibilidade de o alcance ser alterado sem que o conteúdo desapareça.

Essa discussão ocorre paralelamente a outra batalha digital do segundo turno. O canal “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones no WhatsApp e acompanhado por milhões de pessoas, tornou-se objeto de uma disputa judicial com a campanha de Flávio Bolsonaro. O TSE chegou a determinar sua suspensão, decisão posteriormente revertida pelo corregedor da Corte enquanto o caso continua sendo analisado.

De um lado, a campanha de Flávio acusa estruturas governistas de organizar redes para espalhar informações falsas. Do outro, a equipe de Lula acusa plataformas e decisões judiciais de limitar desproporcionalmente sua capacidade de comunicação. As duas candidaturas também vêm apresentando pedidos de remoção de vídeos, direitos de resposta e ações envolvendo propaganda digital.

A eleição de 2026 tornou-se, dessa maneira, uma disputa simultânea pela urna e pela infraestrutura que leva informação até o eleitor.

Meta terá de demonstrar que não houve tratamento desigual

A resposta da empresa será decisiva porque somente a Meta possui acesso completo aos registros capazes de mostrar o que realmente aconteceu. O TSE não consegue observar diretamente como cada algoritmo classificou uma postagem, quais sinais determinaram uma limitação, quando um anúncio foi recusado ou quais regras internas foram acionadas contra uma conta.

Os dados requisitados podem sustentar diferentes conclusões. É possível que demonstrem problemas técnicos gerais que também atingiram outros usuários e não produziram tratamento político seletivo. Também podem mostrar aplicação de políticas automáticas sem qualquer relação com a disputa presidencial. Ou podem revelar diferenças entre a forma como conteúdos semelhantes das duas campanhas foram tratados.

Somente essa análise permitirá definir a gravidade do episódio.

A acusação feita pela campanha de Lula é séria porque atinge uma empresa que controla algumas das maiores plataformas de comunicação do planeta. Uma interferência deliberada em favor de determinada candidatura teria consequências políticas e jurídicas profundas. Exatamente por isso, essa hipótese não pode ser tratada como comprovada antes da apresentação dos registros técnicos.

Da mesma maneira, a negativa da Meta não encerra a questão. Quando uma empresa detém os sistemas, os dados e os algoritmos envolvidos numa denúncia, a fiscalização independente torna-se indispensável para que sua própria versão possa ser confrontada com evidências.

É esse trabalho que a Justiça Eleitoral começou.

Nos próximos dias, a controvérsia deverá deixar de depender apenas das declarações de campanha e das respostas corporativas. A Meta terá de colocar diante do TSE informações sobre aquilo que aconteceu dentro de suas plataformas enquanto milhões de brasileiros recebiam, compartilhavam ou deixavam de receber mensagens relacionadas à eleição presidencial.

A questão é maior do que saber se um vídeo perdeu algumas milhões de visualizações.

Em uma democracia cada vez mais mediada por sistemas automatizados, a pergunta colocada pelo caso é simples e difícil ao mesmo tempo: quem controla aquilo que o eleitor vê — e como a sociedade pode verificar se esse poder está sendo exercido de maneira igual para todos?