Da Redação
Presidente afirma que não atribui diretamente a Donald Trump a escalada contra o Brasil, acusa o secretário de Estado de hostilidade à América Latina e aposta no diálogo entre presidentes para tentar conter uma crise que já envolve tarifas, eleições e soberania nacional.
O presidente Lula fez nesta sexta-feira (14) uma das declarações mais reveladoras até agora sobre como o Palácio do Planalto interpreta a ofensiva do governo dos Estados Unidos contra o Brasil. Em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, Lula procurou separar Donald Trump das forças que, segundo sua avaliação, impulsionam a escalada contra o país e apontou diretamente para o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
“Acho que não é ele”, afirmou Lula ao falar sobre a responsabilidade de Trump pelas medidas contra o Brasil. Em seguida, deixou claro quem considera um dos principais responsáveis pela linha adotada por Washington: “Eu já falei para ele que o secretário de Estado dele não gosta do Brasil e não gosta da América Latina”.
A declaração é politicamente importante porque revela uma tentativa deliberada de Brasília de manter aberta uma ponte direta com a Casa Branca enquanto endurece a reação às medidas norte-americanas.
Lula não está dizendo que Trump não tenha responsabilidade institucional pelas decisões de seu governo. Como presidente dos Estados Unidos, é Trump quem comanda a administração. O movimento do brasileiro é outro: identificar dentro do governo norte-americano um núcleo político particularmente hostil ao Brasil e tentar convencer Trump de que a deterioração das relações não interessa aos dois países.
Essa estratégia coloca Marco Rubio no centro do conflito.
O secretário de Estado é uma das principais figuras da política norte-americana para a América Latina e já protagonizou choques públicos com Brasília. Em julho, por exemplo, o Itamaraty classificou declarações de Rubio contra Lula como “inaceitáveis e ofensivas”, depois que o secretário atribuiu ao presidente brasileiro responsabilidade pelo impasse comercial e afirmou que Lula teria colocado seu “ego” acima de um acordo.
Agora é o próprio presidente brasileiro quem personaliza a divergência.
Ao mesmo tempo, Lula procura preservar sua relação com Trump. Segundo o presidente, os dois já conversaram diretamente sobre a postura do secretário de Estado. Lula também afirmou que continua tentando falar com o presidente norte-americano para discutir a crise e pedir que os Estados Unidos não interfiram no processo eleitoral brasileiro.
Essa combinação — confronto com Rubio e tentativa de interlocução com Trump — revela uma estratégia diplomática de duas frentes.
De um lado, o Brasil começa a elevar o custo das medidas adotadas por Washington. Nesta semana, o governo acionou formalmente a Lei da Reciprocidade Econômica em resposta às tarifas norte-americanas. A medida ainda não representa uma retaliação automática, mas abre o procedimento que poderá permitir contramedidas brasileiras caso as negociações fracassem. Lula afirmou que o objetivo é mostrar que o Brasil “não é pouca coisa”, enquanto o Ministério da Fazenda sustenta que qualquer resposta será construída com cautela para evitar danos à própria economia brasileira.
Do outro lado, Lula procura impedir que a crise se transforme em um rompimento político com Trump.
Essa distinção é especialmente importante porque as tensões deixaram de estar limitadas ao comércio. A relação bilateral passou a reunir simultaneamente tarifas, questionamentos norte-americanos ao Pix, divergências sobre a política brasileira para a América Latina, minerais estratégicos, relações com a China e, cada vez mais, a eleição presidencial de 2026.
É nesse último ponto que a preocupação do Planalto se torna mais grave.
Lula afirmou que pretende conversar diretamente com Trump para dizer que os Estados Unidos não devem interferir nas eleições brasileiras. O governo brasileiro vem acompanhando manifestações de integrantes e aliados da administração norte-americana relacionadas à disputa eleitoral e interpreta parte desses movimentos como pressão sobre a soberania política do país.
A indicação do novo embaixador norte-americano em Brasília tornou-se parte dessa disputa.
Lula reiterou nesta sexta-feira que o Brasil somente deverá analisar depois das eleições o pedido de agrément para Daniel Perez, escolhido por Trump para representar os Estados Unidos no país. O presidente questionou por que Washington demonstraria tanta urgência em colocar um novo embaixador em Brasília justamente às vésperas do pleito, depois de o posto ter permanecido vago por um período prolongado.
A mensagem brasileira é clara: o governo pretende reduzir qualquer espaço para que a representação diplomática norte-americana se transforme em elemento de controvérsia durante a eleição.
Ao apontar Rubio, Lula também insere a atual crise em uma disputa maior sobre a política dos Estados Unidos para a América Latina.
O secretário construiu boa parte de sua trajetória política defendendo uma linha dura em relação a governos latino-americanos considerados adversários de Washington. Agora, porém, a tensão alcança o Brasil, país que não rompeu relações com os Estados Unidos, mantém enorme presença de empresas norte-americanas em sua economia e continua defendendo relações comerciais e diplomáticas com Washington.
O conflito brasileiro é diferente justamente porque Brasília reivindica liberdade para manter simultaneamente relações com Estados Unidos, China, União Europeia, BRICS e demais polos do sistema internacional.
Essa autonomia passou a ser testada à medida que a competição entre Washington e Pequim se intensifica.
O Brasil é o maior país da América Latina, possui uma das maiores reservas mundiais de diferentes minerais estratégicos, controla uma infraestrutura financeira própria de pagamentos instantâneos por meio do Pix, participa da liderança dos BRICS e mantém a China como seu maior parceiro comercial. Ao mesmo tempo, possui vínculos históricos, comerciais, financeiros e tecnológicos profundos com os Estados Unidos.
É justamente essa posição que torna a soberania brasileira um ativo estratégico.
Para Brasília, aceitar que decisões sobre seus sistemas de pagamento, suas relações comerciais ou suas alianças internacionais sejam condicionadas pela pressão de uma potência significaria reduzir a margem de autonomia conquistada pela política externa brasileira.
Mas Lula também parece compreender a enorme assimetria de poder existente entre os dois países.
Na entrevista desta sexta-feira, o presidente reconheceu a diferença de capacidade militar entre Brasil e Estados Unidos e indicou que a resposta brasileira precisa ocorrer fundamentalmente no terreno político, diplomático e da opinião pública internacional. Segundo ele, o Brasil precisa enfrentar aquilo que considera uma narrativa construída a partir de informações falsas sobre o país.
Essa percepção ajuda a explicar a combinação entre reciprocidade econômica e busca de negociação.
O Brasil não possui interesse material em uma guerra comercial prolongada com os Estados Unidos. Empresas brasileiras dependem daquele mercado, cadeias produtivas dos dois países estão conectadas e companhias norte-americanas possuem investimentos bilionários no Brasil. Mas uma negociação na qual apenas Washington possui instrumentos de pressão colocaria Brasília permanentemente na defensiva.
A Lei da Reciprocidade procura modificar parcialmente essa equação.
Ao mesmo tempo, Lula aposta numa hipótese política: a de que Trump possa ser convencido de que uma escalada contra o Brasil produz custos desnecessários para os próprios interesses norte-americanos.
É uma aposta de alto risco.
Trump continua sendo o presidente e, portanto, responde pelas políticas executadas por sua administração. Além disso, Rubio não atua independentemente da Casa Branca. Separar politicamente os dois pode ser uma estratégia diplomática útil para abrir uma saída negociada, mas não elimina a responsabilidade institucional do governo norte-americano pelas medidas que adota.
O que a declaração de Lula revela é que Brasília aparentemente ainda acredita existir uma disputa a ser feita dentro da própria relação com Washington.
Em vez de tratar todo o governo Trump como um bloco homogêneo e fechar os canais políticos, Lula tenta explorar diferenças, preservar a interlocução presidencial e concentrar suas críticas sobre os setores que considera responsáveis pela radicalização da política para a América Latina.
Se essa estratégia funcionar, uma conversa direta entre Lula e Trump poderia oferecer uma saída para reduzir a tensão comercial e diplomática.
Se fracassar, o Brasil terá diante de si um cenário mais difícil: concluir que as medidas atribuídas por Lula à influência de Marco Rubio representam, na realidade, uma política consolidada da própria administração Trump.
A resposta começará a aparecer nas próximas semanas. O governo brasileiro já colocou a Lei da Reciprocidade em movimento, mantém resistência à indicação do novo embaixador antes das eleições e promete reagir a qualquer tentativa de interferência externa.
Por enquanto, Lula procura deixar uma porta aberta na Casa Branca enquanto identifica publicamente quem considera o principal articulador da pressão.
A mensagem enviada a Washington é dupla: o Brasil quer conversar com Trump, mas não pretende aceitar que Marco Rubio — ou qualquer integrante do governo norte-americano — determine os limites da soberania brasileira.






