Da Redação
Em entrevista na TV, Lula disse que Tarcísio “não tem personalidade própria” e age sob comando de Bolsonaro; declaração ocorre após o STF condenar o ex-presidente e em meio à articulação por anistia no Congresso, aos ataques do governador ao Judiciário no 7 de Setembro e ao reposicionamento da direita para 2026
No dia 12 de setembro de 2025, em meio à escalada da crise política que sucedeu a condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom contra o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Em entrevista ao Jornal da Band, o presidente afirmou que Tarcísio “não é nada mais, nada menos, que um serviçal do Bolsonaro”, sugerindo ausência de autonomia política do governador e uma estratégia deliberada para manter coesa a base bolsonarista num momento de desgaste e incerteza. A fala, que ecoou por todo o espectro político, sinaliza que 2026 já está no centro do tabuleiro.
A declaração de Lula não ocorreu no vazio. Nos últimos dias, Tarcísio intensificou movimentos para capitalizar a indignação do campo conservador com a condenação de Bolsonaro, posicionando-se como fiador de uma proposta de anistia no Congresso. Ao mesmo tempo, adotou discurso frontalmente crítico ao Judiciário, com menções diretas ao ministro Alexandre de Moraes durante os atos de 7 de Setembro em São Paulo. A tática tem duas camadas: acenar para a base mais radical, que vê no STF um antagonista, e apresentar-se ao establishment econômico e parlamentar como o político capaz de reorganizar a direita sob um verniz de “gestão”, preservando os símbolos e pautas do bolsonarismo.
A reação do sistema político a esse reposicionamento foi imediata. Lideranças governistas e ministros do STF repudiaram a retórica de confronto aos poderes, enquanto quadros do PT apontaram que as falas de Tarcísio encurtam o espaço para uma anistia ampla. A avaliação no Congresso é de que o tensionamento com o Supremo reduz a disposição de diálogo, inclusive entre parlamentares de centro que, embora críticos de excessos judiciais, buscam preservar regras e ritos institucionais. Em linguagem prática: quanto mais o governador dobra a aposta no embate, mais difícil fica a costura legislativa.
No plano eleitoral, a frase de Lula expõe o nervo da disputa pelo comando da direita. Com Bolsonaro condenado e inelegível, o “quem herda a bandeira” passou do plano das conjecturas à urgência. Tarcísio surge como um nome competitivo por acumular três atributos: reconhecimento nacional, lastro administrativo e proximidade simbólica com o bolsonarismo. Mas há arestas. Parte do clã e dos fiéis do núcleo duro preferiria um sucessor “de dentro de casa”, como um dos filhos ou Michelle Bolsonaro, receosos de que um governador com projeto próprio dilua a identidade do movimento. É uma fricção real, que pode definir alianças e rupturas nos próximos meses.
A narrativa do “serviçal”, portanto, opera em dois níveis. Para o público amplo, tenta colar a imagem de que Tarcísio não tem projeto autônomo, funcionando apenas como correia de transmissão de Bolsonaro. Para o campo conservador, lança uma isca: se o governador quiser disputar o Planalto, precisará provar que é mais que um garantidor de impunidade do seu padrinho político. Ao mesmo tempo, expõe o custo institucional de discursos que, em nome de coesão eleitoral, corroem a relação entre poderes e testam limites do Estado de Direito.
No eixo São Paulo–Brasília, os próximos passos serão decisivos. Se Tarcísio mantiver a linha de ataque ao STF e a defesa de uma anistia ampla, reforça pontes com a base radical, mas amplia resistências no Legislativo e no Judiciário. Se moderar o tom, pode perder tração nas redes e na militância, mas ganhar fôlego entre agentes econômicos e partidos do centrão que valorizam previsibilidade. A janela até o primeiro trimestre de 2026 será o laboratório dessa calibragem, com indicadores claros: andamento ou engavetamento de projetos no Congresso, reações de tribunais superiores, humor de aliados nas capitais e métricas de engajamento digital.
Para Lula, a escolha foi escancarar o contraste: um governo que insiste em diálogo, crescimento e normalidade institucional versus uma oposição que flerta com o confronto e a deslegitimação do Judiciário. Ao marcar Tarcísio como “serviçal”, o presidente antecipa a disputa sem transformar o governador em antagonista principal, preservando, do ponto de vista da comunicação política, a centralidade do bolsonarismo como força que precisa ser responsabilizada e contida. É um cálculo de alto risco e alta recompensa: pressiona a direita a se definir e mantém o governo no terreno da defesa da democracia, enquanto 2026 se aproxima.
Em síntese, a frase de Lula é menos um ataque isolado e mais um movimento estratégico num tabuleiro em reconfiguração. Com Bolsonaro condenado, o bolsonarismo busca uma nova cabeça de ponte. Tarcísio tenta ser essa ponte. E Lula tenta desidratá-la antes que se consolide.


