Lula defende Mercosul fortalecido, anuncia nova candidatura e propõe integração financeira baseada no Pix

Na cúpula do bloco em Assunção, presidente destaca avanços comerciais, pede fortalecimento das instituições regionais e afirma que disputará a reeleição em 2026

O presidente Lula defendeu nesta terça-feira o fortalecimento institucional do Mercosul como estratégia para enfrentar as transformações da economia mundial, ampliar a integração sul-americana e preservar a autonomia dos países da região. Em discurso na 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, realizada em Assunção, no Paraguai, o chefe de Estado brasileiro também anunciou que disputará um novo mandato presidencial em 2026 e afirmou que pretende garantir a continuidade das políticas públicas implementadas desde o retorno ao governo.

As declarações foram feitas durante a sessão plenária da cúpula e transmitidas pelo Canal Gov. O encontro reuniu chefes de Estado dos países-membros, associados e convidados especiais para discutir comércio, infraestrutura, integração regional, democracia, segurança e cooperação econômica.

Lula iniciou sua fala prestando solidariedade ao povo da Venezuela após os terremotos registrados na semana anterior. O presidente relatou que havia conversado na noite anterior com a presidenta venezuelana, Delcy Rodríguez, que lhe apresentou um balanço preliminar da tragédia.

Segundo Lula, os números informados apontavam 1.400 mortos, cerca de 60 mil desabrigados, 10 mil desaparecidos e mais de 3 mil feridos. Diante da gravidade da situação, ele solicitou um minuto de silêncio em homenagem às vítimas.

Para o presidente, episódios como esse reforçam a importância da cooperação regional.

“A tragédia convida a uma reflexão sobre a importância da solidariedade e da cooperação regionais.”

Mercosul como resposta às mudanças globais

Ao analisar o cenário internacional, Lula afirmou que o mundo atravessa um período marcado pelo crescimento das disputas geopolíticas, pelo retorno do protecionismo e pelo aumento das guerras e conflitos, fatores que pressionam os preços da energia e dos alimentos e dificultam o comércio internacional.

Nesse contexto, defendeu que o Mercosul deixou de ser apenas uma opção diplomática para se tornar uma necessidade estratégica.

Segundo ele, desde a criação do bloco, em 1991, o comércio entre os países-membros passou de US$ 4 bilhões para aproximadamente US$ 50 bilhões em 2025. Já o intercâmbio comercial com o restante do mundo alcançou quase US$ 770 bilhões no último ano, com exportações superiores a US$ 400 bilhões.

Lula destacou ainda o avanço das negociações comerciais do bloco.

Além do acordo entre Mercosul e União Europeia, o presidente lembrou que o Brasil já ratificou os acordos com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e Singapura, enquanto seguem em andamento negociações com Canadá, Índia e Vietnã.

Segundo ele, a cúpula também marcou o início das negociações para uma parceria econômica com o Japão.

“Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta.”

Integração deve beneficiar a população

Embora tenha ressaltado a importância dos acordos comerciais, Lula afirmou que a integração regional precisa produzir efeitos concretos na vida da população.

Nesse sentido, destacou os investimentos realizados pelo Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), responsável pelo financiamento de obras de infraestrutura nos países do bloco.

O presidente informou que o Brasil pretende ampliar sua contribuição ao fundo em US$ 100 milhões anuais durante uma década e defendeu a incorporação da Bolívia ao mecanismo.

Também mencionou o programa Rotas de Integração Sul-Americana, voltado à conexão entre o interior do continente e os portos do Pacífico, Atlântico e Caribe, além de defender o fortalecimento da hidrovia Paraguai-Paraná.

Clima, energia e minerais críticos

Grande parte do discurso foi dedicada às mudanças climáticas e à transição energética.

Lula alertou para os impactos previstos do fenômeno El Niño, que poderá provocar secas prolongadas, chuvas intensas e ondas de calor na região.

Como exemplo, lembrou as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, afetando milhões de pessoas.

O presidente propôs que o Mercosul avance na criação de mecanismos conjuntos para prevenção de desastres naturais, sistemas regionais de alerta e instrumentos de financiamento para adaptação climática.

Também defendeu maior integração energética entre os países, expansão dos biocombustíveis, produção de hidrogênio verde e desenvolvimento conjunto das cadeias ligadas aos minerais críticos utilizados na transição energética e nas novas tecnologias.

Pix como modelo regional

Na área econômica, Lula propôs que a experiência brasileira com o Pix sirva de inspiração para uma infraestrutura regional de pagamentos.

Segundo ele, um sistema integrado poderia reduzir custos financeiros, ampliar o comércio entre os países do Mercosul, estimular operações em moedas locais e diminuir a exposição da região a choques externos.

“O Pix, sistema brasileiro público e gratuito de pagamentos, é referência internacional de inclusão financeira e eficiência digital.”

Para o presidente, a integração financeira representa mais um passo na consolidação do mercado regional.

Defesa da democracia

Ao abordar o cenário político internacional, Lula afirmou que a democracia enfrenta ameaças em diversas partes do mundo e lembrou os ataques às instituições brasileiras.

Segundo ele, grupos extremistas chegaram a planejar um golpe de Estado no Brasil e continuam utilizando redes de desinformação para enfraquecer a confiança pública nas instituições democráticas.

O presidente também citou a crise política na Bolívia, defendendo o diálogo como único caminho para sua superação, e destacou a realização das eleições no Peru e na Colômbia como demonstrações da capacidade institucional da região.

Além disso, pediu o fortalecimento das políticas regionais voltadas aos povos indígenas, afrodescendentes, idosos, crianças, pessoas com deficiência e população LGBTQIA+, bem como a criação de um pacto regional de combate à violência contra as mulheres.

Combate ao crime organizado

Outro tema abordado foi o enfrentamento às organizações criminosas transnacionais.

Lula afirmou que o crime organizado controla territórios, destrói o meio ambiente, alimenta a corrupção e amplia sua atuação por meio das tecnologias digitais.

Para enfrentar esse cenário, defendeu maior integração entre os sistemas policiais, judiciais e financeiros dos países sul-americanos.

O presidente destacou a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional em Manaus e anunciou uma nova iniciativa conjunta com a Interpol, cuja sede regional funcionará em Buenos Aires.

Segundo Lula, o Brasil custeará durante um ano a presença de delegados dos doze países sul-americanos na capital argentina para ampliar o combate ao tráfico internacional de drogas e armas.

Anúncio de candidatura

Ao final da fala oficial, Lula deixou o discurso preparado e passou a fazer considerações políticas sobre o Brasil.

O presidente anunciou publicamente que disputará um novo mandato nas eleições de 2026.

“Aos 80 anos, com vitalidade de um jovem de 20, vou concorrer pela quarta vez à Presidência da República do meu país.”

Ao justificar sua decisão, Lula afirmou que retornou ao governo encontrando um país com obras paralisadas, ministérios extintos e retrocessos em diversas áreas.

Também destacou indicadores econômicos e sociais registrados desde 2023.

Segundo ele, o Brasil voltou a retirar milhões de pessoas da fome, alcançou baixos índices de desemprego, ampliou a massa salarial e retomou o crescimento econômico.

Instituições acima dos governos

Nos minutos finais do pronunciamento, Lula fez um apelo para que o Mercosul fortaleça suas instituições permanentes, reduzindo a dependência das mudanças de governo em cada país.

Segundo o presidente, o funcionamento do bloco não pode variar conforme a orientação política dos chefes de Estado eleitos.

“O Mercosul não pode funcionar de acordo com a eleição deste ou daquele presidente.”

Lula afirmou que, independentemente do resultado das eleições brasileiras, o bloco continuará sendo prioridade para o Brasil e pediu que a presidência uruguaia, que assume a coordenação do Mercosul a partir desta cúpula, trabalhe pelo fortalecimento institucional do organismo.

Encerrando sua participação, o presidente reiterou que a integração regional constitui um patrimônio construído ao longo de mais de três décadas e afirmou que o fortalecimento do Mercosul depende da capacidade de seus membros dialogarem, preservarem interesses comuns e ampliarem a cooperação em áreas estratégicas para o desenvolvimento sul-americano.