Da Redação
Presidente afirmou nesta sexta-feira que acredita numa vitória já em 4 de outubro e convocou apoiadores a intensificar a mobilização nos últimos dias da campanha. A declaração ocorre após o Datafolha registrar Lula com 40% e Flávio Bolsonaro com 36%. Os números mostram concentração crescente do voto nos dois primeiros colocados, mas não sustentam uma conclusão sobre o resultado: para encerrar a eleição no primeiro turno, Lula precisa superar 50% dos votos válidos.
Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom da campanha nesta sexta-feira, 25 de setembro, e colocou uma meta explícita diante de seus apoiadores: terminar a eleição presidencial sem precisar disputar o segundo turno.
“Eu vou ganhar as eleições no primeiro turno”, afirmou durante comício no Recife, em Pernambuco, numa fala em que misturou confiança eleitoral, defesa de seu governo, críticas aos adversários e um chamado para que a militância intensifique a campanha nos nove dias restantes até a votação.
Não foi uma projeção baseada em resultado eleitoral conhecido nem uma conclusão que possa ser extraída das pesquisas disponíveis. Foi uma afirmação política do candidato e uma estratégia de mobilização na reta final. O levantamento mais recente do Datafolha, realizado nos dias 22 e 23 de setembro com 2.002 eleitores em 125 municípios, registra Lula com 40% das intenções de voto, contra 36% de Flávio Bolsonaro. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Augusto Cury aparece com 5%, Ronaldo Caiado com 4% e Renan Santos com 3%.
O Datafolha mostra, portanto, Lula numericamente à frente no primeiro turno, mas não permite afirmar que a eleição terminará nessa etapa. Pesquisa mede preferências no momento em que é realizada; não antecipa o resultado das urnas.
A declaração no Recife revela, sobretudo, a estratégia que passa a orientar os últimos dias da campanha: convencer eleitores que já rejeitam Flávio Bolsonaro, mas ainda estão distribuídos entre outras candidaturas, de que a concentração de votos em Lula poderia encerrar a disputa em 4 de outubro.
É a batalha pelo chamado voto útil.
Lula pede mobilização e tenta transformar liderança nas pesquisas em vitória no dia 4
O comício pernambucano teve um componente pessoal importante para Lula. O presidente falou sobre sua rotina de campanha e destacou o volume de viagens realizadas nos últimos dias. Segundo o relato do Brasil 247, ele disse ter passado por compromissos em São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York e Pernambuco, numa tentativa de mostrar disposição física e política na reta final.
Mas a parte eleitoralmente mais importante foi o pedido para que seus apoiadores não tratem a liderança nas pesquisas como resultado consumado.
É uma preocupação compreensível dentro da lógica de qualquer campanha. O Datafolha desta quinta-feira mostrou Lula oscilando de 39% para 40%, enquanto Flávio permaneceu em 36%. Ao mesmo tempo, a soma das demais candidaturas caiu à medida que os dois principais concorrentes concentraram maior parcela do eleitorado.
O dado essencial está justamente nessa concentração.
Lula e Flávio somam atualmente 76% das intenções de voto no Datafolha. Cury, Caiado, Renan, Zema, Samara Martins e os demais candidatos disputam uma parcela muito menor do eleitorado. Brancos e nulos aparecem com 5%, enquanto 2% não sabem em quem votar.
Para Lula, entretanto, não basta chegar em primeiro lugar.
A Constituição estabelece que o presidente é eleito no primeiro turno quando obtém maioria absoluta dos votos válidos — mais da metade, excluídos brancos e nulos. Caso nenhum candidato alcance essa marca, os dois mais votados disputam o segundo turno.
Por isso, os 40% registrados pelo Datafolha não podem ser comparados diretamente aos 50% necessários para vencer. Uma parcela dos entrevistados declara voto branco ou nulo, e esses votos não entram no cálculo dos votos válidos. Ainda assim, mesmo retirando-os da conta, os dados disponíveis não permitem afirmar que Lula tenha hoje mais da metade dos votos válidos.
Outra pesquisa recente ajuda a mostrar como diferentes metodologias produzem fotografias distintas. O AtlasIntel/Bloomberg divulgado nesta semana calculou Lula com 46,3% dos votos válidos e Flávio com 43,9%. Também nesse levantamento Lula aparece abaixo dos 50% necessários para uma vitória imediata.
A campanha, portanto, trabalha politicamente para produzir nos próximos dias um movimento que as pesquisas ainda não registram de forma suficiente para encerrar a disputa.
O próprio Lula vinha adotando uma formulação mais cautelosa. Em entrevista à Rádio Itatiaia no dia 17, afirmou acreditar que a eleição poderia ser decidida no primeiro turno, mas recordou que nunca venceu uma disputa presidencial nessa etapa. “Primeiro ou segundo turno, nós ganharemos”, disse naquela ocasião.
No Recife, oito dias depois, a formulação mudou: “Eu vou ganhar as eleições no primeiro turno.”
A mudança de linguagem importa porque acontece justamente quando a campanha entra em sua última semana.
A disputa pelo voto útil envolve os dois lados
A estratégia não pertence apenas ao campo de Lula.
A campanha de Flávio Bolsonaro também procura convencer eleitores de candidaturas menores a concentrarem votos em seu nome. A Folha de S.Paulo informou nesta sexta-feira que, depois da divulgação do Datafolha, aliados de Flávio interpretaram os números como sinal de estabilidade e mantiveram a aposta numa campanha de voto útil junto ao eleitorado de outros candidatos, especialmente aqueles situados à direita.
Isso produz uma dinâmica particular.
Lula tenta atrair eleitores suficientes para ultrapassar a barreira da maioria absoluta já no primeiro turno. Flávio procura ampliar sua votação, reduzir a diferença para o presidente e disputar o eleitorado que hoje está com candidaturas menores.
Cury, Caiado, Renan Santos e Zema têm, naturalmente, interesse contrário: preservar seus próprios eleitores e impedir que a polarização esvazie suas candidaturas antes da votação.
A eleição entra, assim, numa fase em que a disputa não ocorre apenas entre Lula e Flávio. O voto destinado aos candidatos menores passa a ser objeto de pressão dos dois polos.
O fenômeno também ajuda a entender por que o percentual de eleitores com decisão consolidada se tornou importante. Segundo o Datafolha, 80% dizem estar totalmente decididos, enquanto 20% admitem alguma possibilidade de mudar. Entre os eleitores de Lula, 87% afirmam estar totalmente decididos; entre os de Flávio, 85%.
Isso significa que existe uma parcela potencialmente móvel do eleitorado, mas não indica antecipadamente para onde ela irá.
Também recomenda cautela diante da retórica das campanhas.
Em agosto, o próprio Flávio Bolsonaro declarou ao Jornal Nacional: “Eu não vou perder essa eleição. Vou ganhar no primeiro turno.”
Agora Lula faz afirmação semelhante.
As duas declarações são manifestações de confiança eleitoral feitas pelos candidatos. Nenhuma delas constitui previsão independente ou evidência de que a eleição será efetivamente resolvida em 4 de outubro.
Recife vira palco de uma campanha mais ofensiva
Lula aproveitou o ato desta sexta-feira para ir além da matemática eleitoral.
Segundo o relato do Brasil 247, o presidente voltou a atacar politicamente seus adversários e retomou o tema da soberania nacional, que havia ocupado espaço central em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Também criticou aquilo que considera tentativas de interferência estrangeira no processo político brasileiro.
Esse eixo — soberania, relação com os Estados Unidos e oposição ao bolsonarismo — passou a ocupar espaço crescente na campanha depois da viagem de Lula à ONU.
Ao mesmo tempo, o presidente intensificou ataques relacionados ao caso Banco Master. Nesta sexta-feira, associou politicamente a família Bolsonaro a Daniel Vorcaro e ao escândalo do INSS. São acusações feitas por Lula em campanha; relações específicas, responsabilidades individuais e eventuais ilícitos precisam ser avaliados com base nas investigações e provas correspondentes, e não pela associação retórica entre personagens.
A campanha de Flávio prepara sua própria ofensiva. Segundo a CNN Brasil, aliados do senador pretendem responder explorando temas relacionados ao PT, ao STF e ao filho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva.
O resultado é uma reta final cada vez menos concentrada na apresentação de novos programas e cada vez mais dominada pelo confronto direto entre os dois principais candidatos.
Há um dado adicional que torna essa dinâmica diferente de eleições presidenciais anteriores: o primeiro turno de 2026 teve, até esta semana, apenas um debate televisionado entre presidenciáveis, sem a presença de Lula e Flávio. O cenário pode mudar com o debate da TV Globo previsto para 1º de outubro, mas a participação dos dois ainda vinha sendo objeto de decisões estratégicas das campanhas.
Sem confrontos televisivos frequentes entre os dois líderes, comícios, entrevistas, redes sociais e propaganda eleitoral ganharam peso ainda maior.
É nesse ambiente que deve ser compreendida a declaração de Lula no Recife.
“Vou ganhar no primeiro turno” funciona simultaneamente como demonstração pública de confiança e como mensagem dirigida ao eleitor que prefere Lula a Flávio, mas ainda considera votar em outro candidato.
A campanha quer transformar preferência potencial em voto imediato.
A campanha de Flávio procura fazer exatamente o mesmo do outro lado.
Os números disponíveis mostram por que os dois estão disputando cada parcela desse eleitorado. No Datafolha de 24 de setembro, Lula tem 40% e Flávio 36%. Num eventual segundo turno, a distância diminui: 47% para Lula e 45% para Flávio, diferença dentro da margem de erro.
Uma semana antes, outras pesquisas também encontraram cenários de segundo turno estatisticamente empatados, embora com pequenas diferenças numéricas dependendo do instituto. Reuters registrou em 21 de setembro que Quaest e BTG Pactual/Nexus apontavam vantagens de apenas um ponto, em direções opostas, ambas dentro das respectivas margens de erro.
Esses levantamentos não dizem quem vencerá.
Mostram apenas por que encerrar a disputa no primeiro turno tornou-se um objetivo tão importante para a campanha governista — e por que impedir esse movimento é central para a estratégia de Flávio Bolsonaro.
No Recife, Lula apresentou sua aposta como certeza: “Eu vou ganhar as eleições no primeiro turno.”
A frase pertence à campanha. A resposta factual virá das urnas em 4 de outubro.






