Atitude Popular

Lula e Modi consolidam eixo Brasil–Índia e ampliam parceria estratégica do Sul Global

Da Redação

Às vésperas da visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, a agenda bilateral com o primeiro-ministro Narendra Modi ganha centralidade na política externa brasileira. Comércio, energia, agricultura, minerais críticos, tecnologia e inteligência artificial aparecem como pilares de uma parceria que fortalece o Sul Global e reposiciona Brasil e Índia na disputa por autonomia econômica e soberania geopolítica.

O calendário diplomático desta semana coloca Brasil e Índia no centro de um movimento estratégico que vai além do protocolo. A visita de Estado do presidente Lula à Índia, programada para começar nos próximos dias, foi desenhada para produzir resultados concretos — e, sobretudo, para sinalizar que as duas maiores democracias do Sul Global pretendem atuar com mais coordenação num mundo atravessado por guerras, protecionismo, disputas tecnológicas e tentativas recorrentes de tutela sobre países periféricos.

A agenda prevê encontro bilateral entre Lula e Modi durante a visita, além de participação do presidente brasileiro em um grande evento de inteligência artificial. Na prática, isso significa que a diplomacia econômica e a diplomacia tecnológica caminham juntas: de um lado, abrir mercados e reduzir barreiras; de outro, aproximar estratégias nacionais de inovação para que o Sul Global não seja apenas consumidor de tecnologia alheia, mas produtor de capacidades próprias.

Há um motivo estrutural para essa ênfase. Brasil e Índia somam escala demográfica, peso agrícola, densidade industrial e capacidade científica, mas ainda operam aquém do potencial na integração bilateral. Por isso, o objetivo de elevar o comércio para patamares mais ambiciosos vem se repetindo nas sinalizações políticas recentes e aparece como um norte explícito de médio prazo, inclusive com metas numéricas ventiladas por fontes indianas.

No eixo comercial, o que está em disputa é simples e gigantesco: acesso a mercados de massas. A Índia é uma potência consumidora de alimentos, insumos industriais e energia; o Brasil é uma potência produtora em agroindústria, mineração e cadeias de valor baseadas em recursos naturais. Quando a parceria funciona, ela cria “ganhos de escala” para os dois lados. Para o Brasil, isso significa ampliar o leque de destinos além de rotas tradicionais; para a Índia, diversificar fornecedores e reduzir vulnerabilidades externas, num ambiente global cada vez mais instável.

Mas a parceria não é apenas comércio. Ela é também “arquitetura de futuro”. A presença de temas como minerais críticos e tecnologia na pauta indica que Brasil e Índia pretendem dialogar sobre as cadeias produtivas do século XXI — baterias, eletrificação, defesa, semicondutores, infraestrutura digital e transição energética. Ao colocar esse assunto na mesa, Brasília sinaliza que quer negociar como país soberano: não apenas exportar matéria-prima, mas construir caminhos de industrialização e agregação de valor com parceiros que também buscam autonomia estratégica.

Nesse ponto, o tema das terras raras e de outros minerais estratégicos ganha relevo. Não se trata de uma pauta “técnica”: trata-se de poder. Quem controla o processamento, o refino e as tecnologias associadas controla preço, oferta e dependência. O Brasil entra nesse debate com potencial geológico; a Índia entra com ambição tecnológica e industrial. E, para o Sul Global, a mensagem é inequívoca: não dá mais para aceitar a velha divisão internacional do trabalho em que o Sul exporta bruto e importa caro.

A dimensão político-diplomática é igualmente decisiva. Brasil e Índia têm tradição de coordenação em fóruns multilaterais e compõem arranjos que funcionam como contrapesos à ordem centrada no Atlântico Norte. A parceria tende a ganhar ainda mais densidade quando articulada com a lógica de reformas na governança global — finanças, comércio, clima e tecnologia — temas nos quais países do Sul Global insistem em maior voz e em regras menos assimétricas.

Outra camada do encontro Lula–Modi é simbólica. Em tempos de guerra comercial, sanções e pressões políticas travestidas de “valores universais”, uma aproximação Sul-Sul robusta comunica resistência: cooperação sem tutela, desenvolvimento sem submissão, e soberania como princípio. Para o Brasil, isso conversa com um projeto de política externa que busca autonomia por diversificação; para a Índia, conversa com a noção de autonomia estratégica e de reforço da sua base produtiva.

Há, por fim, o fator tecnologia e inteligência artificial. O fato de a visita dialogar com uma cúpula de IA reforça uma tese central: o século XXI será decidido também por infraestrutura de dados, capacidade computacional, modelos, padrões de segurança e regras internacionais. Brasil e Índia, juntos, podem defender um caminho em que a IA sirva ao desenvolvimento — e não a novas formas de dependência tecnológica. E isso importa especialmente para sociedades com desigualdades históricas: tecnologia, aqui, não é fetiche; é instrumento de soberania econômica, social e informacional.

Em síntese, o encontro previsto entre Lula e Modi não é apenas uma fotografia de cúpula. Ele representa a construção paciente de um eixo capaz de entregar resultados materiais (comércio, investimentos, energia, agricultura) e também de disputar o futuro (minerais críticos, IA, indústria, transição). Para o Sul Global, é uma aposta clara: quanto mais densas forem as parcerias entre grandes países periféricos, menor é o espaço para coerções externas e maior a chance de uma multipolaridade que não seja apenas discurso, mas capacidade real.

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