Da Redação
Presidente recebe nesta segunda-feira alguns dos principais nomes do capital financeiro e empresarial brasileiro em um jantar no Palácio da Alvorada. O encontro reúne executivos ligados a JBS, Cosan, Bradesco e BTG Pactual e deverá colocar frente a frente as prioridades do governo e as preocupações do setor privado sobre juros, situação fiscal, inflação, investimentos e atividade econômica. A escala 6×1, cuja mudança enfrenta resistência de segmentos empresariais, também aparece entre os temas sensíveis dessa interlocução.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abre nesta segunda-feira uma interlocução direta com alguns dos empresários e banqueiros mais influentes do país. O jantar previsto para o Palácio da Alvorada tem uma importância que ultrapassa a reunião social entre o presidente da República e representantes do setor privado: acontece em meio à campanha eleitoral, às discussões sobre juros e contas públicas e ao esforço do governo para sustentar crescimento econômico sem abandonar sua agenda de ampliação da renda, emprego e direitos sociais.
Entre os convidados esperados estão Joesley Batista, vice-presidente do Conselho de Administração da JBS; Wesley Batista, presidente do Conselho da companhia; Rubens Ometto, presidente do Conselho de Administração da Cosan; Luiz Carlos Trabuco, presidente do Conselho de Administração do Bradesco; e André Esteves, sócio sênior do BTG Pactual. São nomes com influência em setores que vão da indústria de alimentos e energia ao sistema bancário e ao mercado de capitais.
A composição da mesa ajuda a dimensionar politicamente o encontro. Lula não está reunindo apenas empresários individualmente importantes, mas representantes de segmentos com enorme peso sobre investimento, crédito, produção, emprego e expectativas econômicas. Ao mesmo tempo, trata-se de setores que nem sempre compartilham a avaliação do governo sobre os rumos da economia e que vêm apresentando preocupações principalmente em relação às despesas públicas e à trajetória dos juros.
Esse contraste é justamente o que torna o jantar relevante. O encontro ocorre num momento em que governo e empresariado concordam sobre a necessidade de crescimento e estabilidade, mas divergem em questões importantes sobre os caminhos para alcançá-los.
Parte do setor privado considera que a evolução das despesas públicas pode pressionar a dívida e dificultar uma redução mais rápida das taxas de juros. Lula rejeita a leitura de que sua administração esteja conduzindo o país para uma deterioração fiscal. É nesse terreno que duas visões sobre a economia brasileira se encontram: de um lado, a pressão empresarial por previsibilidade fiscal, inflação controlada e redução do custo do capital; de outro, a defesa governamental de que equilíbrio econômico precisa coexistir com investimento público, crescimento, geração de empregos e políticas sociais.
A taxa de juros está inevitavelmente no centro dessa equação. Para empresas que dependem de financiamento para investir e expandir sua capacidade produtiva, juros elevados significam crédito mais caro, projetos adiados e maior dificuldade para sustentar novos ciclos de investimento. Para famílias, representam prestações maiores e menor capacidade de consumo. Para o próprio Estado, elevam o custo do serviço da dívida.
Por isso, a discussão entre governo, bancos e grandes grupos empresariais não pode ser reduzida à tradicional oposição entre Estado e mercado. O problema brasileiro é mais complexo: transformar estabilidade macroeconômica em investimento produtivo e fazer com que crescimento, produtividade, emprego e renda avancem conjuntamente.
A escala 6×1 coloca o trabalho dentro da conversa
Há ainda uma questão capaz de tornar o diálogo especialmente delicado: a redução da jornada de trabalho e o fim da chamada escala 6×1.
A proposta enfrenta resistência de segmentos empresariais que argumentam que sua implementação poderá aumentar custos operacionais, sobretudo em atividades que funcionam continuamente, como comércio, serviços, hotelaria, transportes e determinados setores industriais. A preocupação está registrada entre os assuntos que cercam a aproximação entre o governo e o empresariado.
Para os trabalhadores, entretanto, a discussão possui outra dimensão. A escala de seis dias de trabalho para um de descanso passou a ocupar espaço no debate nacional justamente porque envolve qualidade de vida, tempo disponível para a família, saúde, lazer e distribuição dos ganhos de produtividade.
É nessa fronteira que uma negociação econômica se transforma também numa discussão sobre o modelo de desenvolvimento.
Reduzir jornada sem reduzir salário implica discutir produtividade, organização do trabalho, custos empresariais e distribuição dos resultados produzidos pela economia. Para determinados setores intensivos em mão de obra, a mudança pode exigir reorganização de turnos e contratação de trabalhadores. Para seus defensores, entretanto, o debate não pode considerar apenas o custo empresarial e ignorar o custo social de jornadas extensas.
A presença desse tema no ambiente de interlocução com grandes empresários é significativa porque demonstra que o diálogo entre governo e setor privado não acontece apenas em torno das variáveis tradicionais do mercado financeiro. Há uma agenda trabalhista e distributiva avançando paralelamente.
Uma ponte com o grande empresariado
O jantar no Alvorada pode ser apenas o primeiro movimento de uma articulação maior. Segundo as informações publicadas, existe a possibilidade de realização de outro encontro em São Paulo, desta vez reunindo aproximadamente 200 empresários. A intenção seria ampliar a interlocução e ouvir avaliações do setor produtivo sobre situação fiscal, inflação, juros, ambiente de negócios e ritmo da atividade econômica.
Caso essa reunião se concretize, o movimento ganhará uma escala bastante diferente. Em vez de uma conversa reservada com um pequeno grupo de dirigentes empresariais e financeiros, Lula passaria a dialogar com uma representação muito mais ampla do capital brasileiro justamente na reta final da disputa presidencial.
O componente eleitoral desse movimento existe e não precisa ser escondido para que se compreenda sua dimensão econômica. Lula é presidente e simultaneamente candidato à reeleição. Demonstrar capacidade de diálogo com trabalhadores, movimentos sociais e também com grandes empresários faz parte do ambiente político no qual a eleição ocorre. Isso, contudo, não permite concluir antecipadamente que os participantes do jantar estejam oferecendo apoio eleitoral ao presidente; presença numa reunião institucional ou diálogo com o governo não equivale, por si só, a adesão a uma candidatura.
O significado mais imediato do encontro é outro: o Palácio do Planalto procura evitar que diferenças sobre política fiscal, juros ou legislação trabalhista se convertam numa ruptura entre governo e setores relevantes da economia.
Há uma lógica econômica por trás dessa estratégia. Nenhum projeto de expansão sustentada da economia brasileira consegue prescindir do investimento privado. Ao mesmo tempo, a experiência histórica brasileira mostra que crescimento econômico não produz automaticamente desenvolvimento social. A questão fundamental é como combinar investimento empresarial, capacidade de planejamento do Estado, infraestrutura, indústria, inovação tecnológica, aumento de produtividade, salários, emprego e distribuição de renda.
Essa discussão se torna ainda mais importante num mundo marcado por protecionismo, guerras comerciais, disputas tecnológicas e reorganização das cadeias globais de produção. Países que durante décadas defenderam a retirada do Estado da economia passaram a mobilizar subsídios, compras governamentais, crédito público, política industrial e proteção de setores estratégicos. Nesse ambiente, o debate brasileiro já não pode ficar limitado à velha pergunta sobre “mais Estado” ou “mais mercado”. A questão é que Estado e que mercado serão mobilizados para produzir qual modelo de desenvolvimento.
O jantar do Alvorada coloca alguns dos principais representantes desses dois polos na mesma mesa.
Para Lula, interessa demonstrar que crescimento econômico, política social e estabilidade institucional podem caminhar juntos. Para empresários e banqueiros, interessa compreender qual será a trajetória fiscal, quando o custo do crédito poderá cair, quais serão as condições para investir e como mudanças trabalhistas poderão afetar seus setores.
As divergências não desaparecem porque existe diálogo. Em alguns casos, elas podem até se tornar mais evidentes.
Mas existe uma diferença importante entre administrar essas divergências institucionalmente e permitir que elas se convertam em instabilidade permanente.
É aí que o encontro desta segunda-feira adquire seu maior significado. Num país que atravessou na última década recessão, pandemia, polarização política extrema e sucessivos choques internacionais, a capacidade de construir previsibilidade entre governo, trabalhadores e setor produtivo tornou-se também um ativo econômico.
O desafio para Lula será transformar essa interlocução em resultados concretos sem reduzir desenvolvimento à confiança do mercado financeiro nem ignorar que investimento privado, crédito e expectativas empresariais interferem diretamente no crescimento. Para os empresários, o desafio será participar da discussão sobre estabilidade sem tratar salário, direitos trabalhistas e investimento social exclusivamente como custos.
Se o encontro maior previsto para São Paulo avançar, ficará mais claro até onde essa aproximação pode chegar. Por enquanto, o jantar no Alvorada representa a abertura de uma conversa entre um governo que procura sustentar sua agenda econômica e social e uma parcela poderosa do empresariado que deseja influenciar os rumos da política econômica.
No centro da mesa estarão juros, inflação e contas públicas. Mas, por trás desses indicadores, existe uma discussão muito maior: como financiar uma nova etapa de crescimento brasileiro, quem participará dela e como os resultados desse crescimento serão distribuídos pela sociedade.






