Lula manda recado a Flávio enquanto atos expõem diferença de mobilização na largada da campanha

Presidente inicia campanha diante de milhares de apoiadores na Vila Euclides e ironiza adversário; em Copacabana, lançamento do candidato do PL registra público inferior às mobilizações bolsonaristas realizadas anteriormente no local

Da Redação

O primeiro domingo da campanha eleitoral de 2026 colocou frente a frente, também nas ruas, os dois candidatos que lideram as pesquisas presidenciais. O Presidente Lula abriu sua campanha no Estádio 1º de Maio, a Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) escolheu a Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para seu primeiro ato oficial.

Segundo a Revista Fórum, a diferença entre as mobilizações chamou atenção nas redes sociais. O estádio em São Bernardo teve arquibancadas e gramado ocupados por apoiadores de Lula, enquanto o evento de Flávio concentrou um público menor em um trecho da orla carioca, tradicionalmente utilizada para grandes manifestações organizadas pelo bolsonarismo.

Lula manda recado direto a Flávio

Durante o discurso em São Bernardo, Lula mencionou diretamente o principal adversário e aproveitou a largada da campanha para provocar Flávio. O presidente busca um quarto mandato e chega ao período oficial da disputa à frente do senador na maior parte dos levantamentos nacionais, embora pesquisas indiquem uma eleição competitiva.

A provocação ocorreu em um discurso no qual Lula também recuperou sua trajetória sindical, defendeu políticas para as mulheres, prometeu ampliar o enfrentamento ao crime organizado e apresentou a soberania nacional como um dos temas de sua campanha.

A Genial/Quaest divulgada às vésperas do início da campanha mostrou Lula com 43% e Flávio com 40% em uma simulação de segundo turno, configurando empate técnico dentro da margem de erro. O início da propaganda eleitoral abre uma nova etapa para os candidatos, que passam a disputar também a capacidade de ocupar as ruas e mobilizar suas bases.

Copacabana não repete grandes atos bolsonaristas

Flávio escolheu um dos principais locais das manifestações realizadas por seu pai nos últimos anos. Copacabana recebeu atos com dezenas de milhares de apoiadores de Jair Bolsonaro e tornou-se uma referência para demonstrações públicas de mobilização da direita no Rio de Janeiro.

O lançamento da candidatura do senador, porém, não reproduziu as imagens dessas manifestações. A baixa adesão foi destacada pela Revista Fórum e rapidamente virou assunto nas redes sociais, onde circularam comparações entre o público reunido em Copacabana e a ocupação da Vila Euclides.

Uma estimativa independente divulgada pela Folha de S.Paulo calculou aproximadamente 8,9 mil pessoas no ato de Flávio. A medição utilizou imagens aéreas e metodologia baseada em inteligência artificial. O número não deve ser confundido com uma contagem oficial das autoridades.

Flávio recorre a áudio do pai

O lançamento também mostrou o tamanho da presença política de Jair Bolsonaro na campanha do filho. Flávio reproduziu durante o ato um áudio antigo do ex-presidente, atualmente inelegível, e voltou a apresentar sua candidatura como continuidade do movimento liderado pelo pai.

O senador concentrou boa parte do discurso na segurança pública. Prometeu endurecer o enfrentamento às facções criminosas e classificá-las como organizações terroristas caso seja eleito. Também fez críticas ao governo Lula e ao Supremo Tribunal Federal.

Flávio ainda saiu em defesa de Alfredo Gaspar, seu candidato a vice-presidente, que foi citado em uma denúncia de estupro de vulnerável apresentada pela senadora Soraya Thronicke. A Procuradoria-Geral da República solicitou diligências sobre a denúncia. Gaspar nega a acusação.

Lula volta ao lugar onde começou sua projeção nacional

Em São Bernardo, a campanha de Lula adotou uma estratégia diferente. O evento recebeu o nome “Lula: onde tudo começou” e recuperou as grandes assembleias dos metalúrgicos realizadas na Vila Euclides durante a ditadura.

O presidente já havia explicado que a escolha tinha como objetivo apresentar sua trajetória às gerações que não acompanharam as greves do ABC. “É preciso conhecer a história”, afirmou Lula ao comentar anteriormente sua decisão de retornar ao estádio.

Janja homenageou Marisa Letícia e recuperou a participação das mulheres nas greves. Fernando Haddad, candidato ao Governo de São Paulo, falou sobre sua convivência com Lula, enquanto Geraldo Alckmin concentrou sua participação na defesa da reindustrialização e da soberania.

Dois atos também anteciparam temas da campanha

Além da diferença de público, os eventos mostraram algumas das prioridades que devem aparecer nos próximos meses. Flávio concentrou seu lançamento na segurança pública, nas críticas ao governo federal e na associação com Jair Bolsonaro.

Lula apresentou propostas relacionadas à industrialização dos minerais críticos, prometeu criar o Ministério da Segurança Pública caso a PEC da Segurança seja aprovada e defendeu maior investigação sobre os financiadores do crime organizado. Também direcionou parte importante de sua campanha às mulheres, que representam a maioria do eleitorado brasileiro.

A largada deste domingo ofereceu ainda o primeiro teste da capacidade de mobilização presencial de Flávio sem Jair Bolsonaro como candidato. Ao escolher Copacabana, um dos locais mais associados às grandes manifestações bolsonaristas, o senador estabeleceu uma comparação inevitável com os atos realizados anteriormente pelo pai. As primeiras imagens mostraram que, ao menos no início da campanha, essa capacidade de convocação ainda não foi transferida na mesma proporção para o filho.