Carreata virtual reúne personagens vestidos de vermelho, bandeiras e muita criatividade na reta final da eleição. Depois das ruas, das redes sociais, dos podcasts e do TikTok, a política brasileira descobriu que também existe vida eleitoral no Roblox
Da Redação | Atitude Popular
A campanha presidencial brasileira já passou por quase todos os lugares possíveis. Teve comício, caminhada, carreata, bandeira na janela, adesivo no carro, santinho, podcast, TikTok, Instagram, YouTube, WhatsApp, meme e discussão política em grupo de família. Quando parecia que não havia mais território a conquistar, apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontraram um que estava esquecido pelos estrategistas eleitorais: o Roblox.
Sim, teve carreata de Lula no Roblox.
As imagens que começaram a circular nas redes mostram uma turma de avatares reunida dentro do jogo, muitos vestidos de vermelho, carregando bandeiras e símbolos de apoio ao presidente. É uma cena ao mesmo tempo engraçada e familiar. Quem olha rapidamente entende o que está acontecendo porque os jogadores conseguiram transportar para aquele universo de bonequinhos uma das tradições mais antigas das campanhas brasileiras: juntar gente, vestir as cores do candidato e ocupar a rua. A diferença é que, desta vez, a rua não existe, os carros não gastam gasolina e nenhum militante precisa passar a tarde seguinte tentando descobrir onde estacionou.
Não há indicação de que a iniciativa tenha sido organizada oficialmente pela campanha de Lula. O que apareceu publicamente foi uma mobilização de jogadores e apoiadores, e talvez seja justamente isso que torne a história tão simpática. Alguém, em algum lugar do Brasil, entrou no Roblox e aparentemente concluiu que aqueles avatares estavam precisando urgentemente de atividade política. Chamou a turma, apareceram as bandeiras, chegaram os personagens vestidos de vermelho e pronto: estava inaugurada uma nova modalidade de militância eleitoral brasileira.
É difícil não imaginar a conversa. “Vai ter carreata hoje?” Vai. “Onde?” No Roblox. “Que horas a gente se encontra?” Entra no servidor. “Precisa abastecer?” Não. “Vai fechar a rua?” Tecnicamente, a rua nem existe.
A brincadeira seria apenas uma ótima curiosidade eleitoral se não revelasse também alguma coisa interessante sobre a maneira como uma nova geração vive a internet. Para milhões de jovens, Roblox não é simplesmente um videogame no sentido tradicional. É também um espaço de convivência. As pessoas entram para jogar, mas também para conversar, encontrar amigos, criar personagens, construir ambientes e participar de comunidades. Existem cidades inteiras produzidas pelos próprios usuários, com casas, escolas, lojas, festas, veículos e todo tipo de experiência imaginável. Se as pessoas convivem nesses lugares, era provavelmente uma questão de tempo até levarem a política junto.
E levaram com um entusiasmo muito brasileiro.
A carreata apareceu justamente na reta final de uma eleição marcada pela enorme importância das plataformas digitais. A política brasileira, que durante décadas dependeu fundamentalmente de comícios, rádio e televisão, agora circula por uma rede muito mais complexa. Um candidato pode estar numa entrevista de podcast enquanto um trecho da conversa vira vídeo no TikTok, é transformado em meme no X, reaparece num grupo de WhatsApp e, algumas horas depois, acaba recriado dentro de um videogame. A comunicação deixou de seguir uma linha reta. O público recebe a mensagem, modifica, brinca com ela e devolve alguma coisa completamente nova.
Foi exatamente isso que aconteceu no Roblox. Ninguém precisou reproduzir um discurso presidencial de quarenta minutos. Os jogadores pegaram um elemento imediatamente reconhecível da cultura eleitoral brasileira, a carreata, e traduziram para sua própria linguagem. O resultado é uma pequena festa política digital, com a vantagem de que ninguém precisa comprar combustível, trocar óleo ou ligar para a seguradora se o carro bater num poste virtual.
A coincidência com o encerramento da campanha de rua tornou tudo ainda mais curioso. Neste sábado, Lula participou de uma grande caminhada em São Paulo, acompanhado de aliados e de milhares de apoiadores. Enquanto pessoas de carne e osso ocupavam as ruas da região da Avenida Paulista e seguiam em direção ao centro da cidade, uma versão muito diferente da mobilização política circulava pelas redes: avatares faziam campanha dentro de um mundo digital.
As duas cenas parecem pertencer a épocas diferentes, mas estão acontecendo simultaneamente. De um lado, uma das formas mais antigas de fazer política, gente ocupando fisicamente a rua. Do outro, personagens controlados por jogadores espalhados sabe-se lá por quantas cidades, reunidos num lugar que só existe num servidor. Na caminhada real, há quilômetros percorridos, carros de som, polícia, trânsito e uma operação urbana inteira. Na manifestação virtual, se alguém cansar de caminhar basta provavelmente apertar uma tecla.
Mas as pessoas por trás dos avatares são reais. E é aí que a brincadeira ganha interesse político.
Há muito tempo se fala sobre a dificuldade dos partidos de conversar com eleitores jovens. O episódio do Roblox mostra que talvez parte do problema esteja na pergunta. Em vez de pensar apenas em como levar os jovens aos espaços tradicionais da política, é preciso observar os espaços que eles próprios já construíram. Uma geração que cresceu em mundos digitais não estabelece necessariamente a mesma separação entre “internet” e “vida real” que existia vinte anos atrás. Um encontro dentro de um jogo pode ser brincadeira, convivência e manifestação cultural ao mesmo tempo.
Isso não significa que um avatar substitua um militante nas ruas, muito menos um eleitor diante da urna. Significa apenas que a política acompanha as pessoas. Ela passou da praça para o rádio, do rádio para a televisão, da televisão para a internet e agora começa a aparecer dentro de ambientes virtuais que possuem suas próprias comunidades e códigos.
A história também oferece uma pequena amostra da dor de cabeça que provavelmente espera a Justiça Eleitoral nos próximos anos. Uma manifestação espontânea de jogadores é uma coisa. Mas o que acontecerá quando campanhas começarem a investir profissionalmente nesses ambientes? Um comitê eleitoral construído dentro do Roblox é propaganda? Uma camiseta virtual de candidato distribuída gratuitamente conta como material de campanha? Se alguém comprar moeda do jogo para promover um evento político, isso entra na prestação de contas? E se um influenciador receber dinheiro para levar seus seguidores até um comício virtual?
Hoje essas perguntas soam engraçadas. Daqui a algumas eleições talvez exista advogado eleitoral especializado justamente em respondê-las.
Por enquanto, porém, vale aproveitar a leveza da cena. Depois de uma campanha longa, dura, polarizada e cheia de episódios tensos, um grupo de bonequinhos vestidos de vermelho conseguiu produzir uma das imagens mais inesperadas da reta final. Não resolve os problemas do Brasil, não substitui debate político e certamente não decide eleição, mas lembra que participação política também pode nascer da criatividade, do humor e da vontade das pessoas de ocupar os espaços em que vivem, inclusive quando esses espaços são feitos de pixels.
A carreata virtual também tem uma vantagem irresistível sobre sua versão tradicional. Ninguém precisou acordar cedo para buscar o carro. Ninguém ficou parado duas horas no trânsito. Ninguém discutiu sobre quem pagaria a gasolina. Não houve pneu furado, estacionamento, pedágio nem aquele momento inevitável em que alguém perde o resto da carreata num semáforo e passa meia hora tentando reencontrar o grupo. No Roblox, até a logística eleitoral parece funcionar melhor.
Neste domingo, entretanto, haverá uma tarefa que nenhum avatar poderá cumprir. O personagem pode carregar bandeira, vestir vermelho, entrar na carreata, dirigir um carro virtual e fazer praticamente tudo aquilo que os programadores do jogo permitirem. Mas ele não possui título de eleitor. Quando as seções eleitorais abrirem, quem terá de decidir será a pessoa que está atrás da tela.
Talvez essa seja a melhor imagem para encerrar essa história. Durante algumas horas, jogadores conseguiram levar uma eleição do mundo real para dentro de um universo virtual. Amanhã, precisarão fazer o caminho inverso: fechar o jogo, levantar da cadeira e voltar ao mundo onde os votos são contados de verdade.
Até lá, a carreata do Roblox já garantiu seu pequeno lugar entre as cenas mais divertidas desta campanha. Em algum servidor, os carros virtuais rodaram, os avatares levantaram suas bandeiras e uma turma decidiu que até um mundo feito de blocos precisava entrar no clima da eleição.
Depois disso, fica difícil imaginar algum território ainda intocado pela política brasileira.
Se houver uma rua, haverá passeata. Se houver um carro, haverá carreata. Se houver uma rede social, haverá discussão. E, como acabamos de descobrir, se houver um servidor de Roblox, alguém vai aparecer vestido de vermelho fazendo campanha.
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