Lula, nos braços do povo

Luiz Inácio Lula da Silva vence Flávio Bolsonaro e conquista um histórico quarto mandato presidencial. A vitória coroa uma trajetória que começou na pobreza do Nordeste, atravessou as fábricas do ABC, enfrentou a ditadura e chegou ao Palácio do Planalto. Mas a celebração também anuncia um novo desafio: diante de um Congresso dominado por forças conservadoras, o presidente precisará da participação organizada da sociedade, nas ruas, nas comunidades e nos movimentos sociais, para sustentar suas propostas e enfrentar os conflitos políticos dos próximos quatro anos.

Da Redação

O menino pobre que saiu do sertão de Pernambuco em um caminhão pau de arara, conheceu a fome, trabalhou como metalúrgico, enfrentou a ditadura, ajudou a reconstruir a democracia brasileira e se tornou presidente da República venceu mais uma eleição. Luiz Inácio Lula da Silva derrotou Flávio Bolsonaro neste domingo, 25 de outubro de 2026, segundo projeção de vitória divulgada pelo Datafolha, e conquistou o direito de governar o Brasil pela quarta vez. Aos 80 anos, às vésperas de completar 81, Lula escreve um capítulo singular da história política nacional. Sua vitória representa, para milhões de brasileiros que reconhecem nele uma referência de suas próprias trajetórias, muito mais do que a continuidade de um governo: é a expressão de uma longa relação entre a organização popular, a luta por direitos e a possibilidade de transformar as instituições por meio da participação democrática.

Há algo profundamente brasileiro nessa história. Um país marcado durante séculos pela escravidão, pela concentração da terra, pelas desigualdades e pela exclusão de trabalhadores dos espaços de decisão viu um antigo operário chegar repetidamente à Presidência da República pelo voto popular. Lula não nasceu entre as famílias que tradicionalmente controlaram a política nacional. Sua formação aconteceu entre trabalhadores, nas assembleias sindicais, nas greves, nos bairros populares e nos conflitos que acompanharam a industrialização brasileira. A conquista de um quarto mandato acrescenta um novo capítulo a essa trajetória, cuja dimensão histórica ultrapassa as fronteiras partidárias.

O Brasil que o elegeu pela primeira vez, em 2002, não é o mesmo que volta a escolhê-lo em 2026. Mudaram as relações de trabalho, os instrumentos de comunicação, as disputas internacionais e a própria composição da sociedade. Permanecem, entretanto, questões que atravessaram toda a vida pública do presidente: a pobreza, a desigualdade, o acesso à educação, a distribuição da riqueza, a capacidade de desenvolvimento econômico e o direito dos trabalhadores de participar das decisões que determinam suas condições de existência.

A vitória deste domingo foi construída numa eleição particularmente difícil. Lula chegou ao segundo turno depois de terminar atrás do adversário na primeira votação. Enfrentou uma campanha polarizada, críticas à administração federal, forte mobilização conservadora e um ambiente digital marcado por disputas intensas. Precisou reorganizar sua estratégia política, ampliar a presença nas ruas e procurar novamente os movimentos sociais, estudantes, trabalhadores, artistas e organizações populares que historicamente participaram de suas campanhas.

Foi nesse processo que as manifestações de outubro ganharam importância. A Avenida Paulista, Copacabana e espaços públicos de diferentes cidades receberam concentrações de apoiadores que transformaram caminhadas eleitorais em encontros políticos e culturais. Pessoas idosas que acompanharam as lutas pela redemocratização dividiram esses espaços com jovens que nasceram muito depois da primeira vitória presidencial de Lula. Trabalhadores, estudantes universitários, representantes de sindicatos, coletivos culturais e movimentos sociais participaram de uma mobilização que combinou a tradição das manifestações de rua com novas formas de organização pelas plataformas digitais.

A diversidade dessas presenças ajuda a compreender o significado atribuído à vitória pelos apoiadores do presidente. Para alguns, Lula permanece associado à valorização do salário mínimo e à expansão do mercado de trabalho. Para outros, sua trajetória está ligada ao Bolsa Família, à chegada das universidades federais ao interior, à ampliação dos institutos de educação profissional e às políticas que permitiram a jovens de famílias de baixa renda ingressar no ensino superior. Também estão entre seus apoiadores pessoas que valorizam a defesa das instituições democráticas, a política externa de aproximação com o Sul Global e a ampliação da capacidade brasileira de participar das decisões internacionais.

São experiências diferentes, reunidas por uma história política comum, embora nem sempre pelas mesmas expectativas. A vitória eleitoral não elimina essa diversidade, tampouco significa que todos os brasileiros concordem com o projeto do presidente. O país chega ao novo mandato profundamente dividido, e essa realidade será uma das condições determinantes do próximo governo.

A trajetória de Lula já havia atravessado acontecimentos que pareciam capazes de encerrar definitivamente sua vida pública. Durante a ditadura militar, foi preso por liderar greves operárias. Depois da redemocratização, enfrentou sucessivas derrotas presidenciais antes de conquistar o governo. Mais tarde, atravessou os escândalos políticos que atingiram o PT, deixou a Presidência, foi condenado e preso em processos posteriormente anulados pelo Supremo Tribunal Federal e recuperou seus direitos políticos. Voltou às urnas, venceu em 2022 e agora conquista uma nova vitória.

Essa sucessão de acontecimentos não apaga as controvérsias, os conflitos e as contradições que marcaram seus governos. Mas ajuda a explicar a permanência de sua liderança no centro da política brasileira. Poucos personagens participaram durante tanto tempo de disputas tão diferentes, atravessando a ditadura, a transição democrática, a consolidação das instituições republicanas e as crises políticas do século XXI.

O retorno de Lula à Presidência em 2023 também ocorreu num momento extraordinariamente delicado. Poucos dias depois de sua posse, as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília, numa ofensiva contra as instituições que produziu investigações e processos judiciais de grande repercussão. Aquele episódio tornou ainda mais visível a importância do respeito às eleições, à Constituição e às regras de alternância do poder.

Agora, a conquista de um quarto mandato recoloca essas questões num ambiente político diferente, mas igualmente complexo. O presidente terá diante de si uma Câmara dos Deputados e um Senado com forte presença de partidos conservadores e de direita, muitos deles críticos a suas propostas. A vitória presidencial não altera automaticamente essa correlação de forças. O resultado das urnas assegura o mandato, mas a transformação das propostas de governo em leis, investimentos e políticas públicas dependerá de negociações institucionais e de uma disputa permanente sobre as prioridades do Estado.

É nesse ponto que a mobilização popular ganha uma dimensão que ultrapassa a campanha eleitoral.

Lula venceu a eleição. Governar será outra disputa.

A experiência brasileira demonstra que vitórias presidenciais não garantem, por si mesmas, maiorias parlamentares capazes de sustentar todas as iniciativas do Executivo. O Congresso possui competências próprias, controla etapas fundamentais do orçamento, participa da definição das leis e exerce poderes de fiscalização. Um presidente pode receber amplo apoio popular e, ainda assim, enfrentar obstáculos para aprovar medidas sobre direitos trabalhistas, tributação, desenvolvimento econômico e financiamento dos serviços públicos.

Para os movimentos sociais que apoiaram Lula, a continuidade da mobilização aparece, portanto, como uma questão decisiva. A presença nas ruas durante a campanha pode transformar-se em participação organizada na discussão das políticas públicas, no acompanhamento das decisões parlamentares e na cobrança de compromissos assumidos pelo governo. Sindicatos, organizações comunitárias, movimentos estudantis, coletivos culturais e entidades de defesa dos direitos sociais possuem instrumentos legítimos para influenciar esse debate.

Essa participação não precisa significar concordância automática com todas as decisões presidenciais. A história dos próprios movimentos populares brasileiros mostra que organizações sociais preservam sua importância quando mantêm autonomia para apoiar propostas, apresentar reivindicações e criticar medidas que considerem inadequadas. Governar com participação social significa reconhecer os cidadãos como sujeitos políticos também depois da eleição, e não apenas como eleitores convocados durante a campanha.

Para Lula, que começou sua vida pública numa organização sindical, essa relação possui significado particular. Sua trajetória nasceu da capacidade dos trabalhadores de se reunir, formular reivindicações, enfrentar conflitos e construir representação coletiva. A experiência das grandes assembleias do ABC demonstrou que a organização popular pode alterar relações de poder e abrir caminhos institucionais antes considerados improváveis. Décadas depois, a necessidade de diálogo entre governo e sociedade continua presente, embora as formas de trabalho e mobilização tenham se transformado profundamente.

O próximo mandato também exigirá respostas para problemas que permanecem no cotidiano de milhões de famílias. A redução da pobreza e os avanços no emprego não eliminaram a insegurança econômica, as dificuldades de moradia, a desigualdade patrimonial, a precariedade de parte dos serviços públicos nem a preocupação com o endividamento das famílias. A ampliação dos direitos dependerá da combinação entre crescimento econômico, políticas distributivas, investimentos públicos e decisões fiscais capazes de sustentar essas iniciativas.

A soberania nacional constitui outra dimensão dessa agenda. Num mundo atravessado pela competição tecnológica, pelas disputas comerciais, pelas transformações energéticas e por conflitos geopolíticos, o Brasil enfrentará decisões importantes sobre indústria, ciência, recursos naturais, segurança alimentar e relações internacionais. A defesa dos interesses nacionais envolve escolhas concretas sobre produção, emprego, tecnologia e inserção do país nas cadeias globais de valor. Não se resolve apenas por declarações diplomáticas, mas também pela capacidade de produzir conhecimento, financiar investimentos e ampliar oportunidades para a população.

A trajetória internacional de Lula está associada à defesa do multilateralismo, à aproximação com países da América Latina, da África e da Ásia e à busca de maior participação das economias emergentes nas decisões globais. O novo mandato ocorrerá num ambiente em que essas relações continuarão submetidas a pressões e negociações. O presidente precisará lidar simultaneamente com os interesses econômicos internos, as demandas sociais e as transformações da ordem internacional.

Nada disso será decidido exclusivamente no Palácio do Planalto.

As políticas públicas são produzidas por instituições, governos, parlamentos, trabalhadores, empresas, organizações sociais e cidadãos. A democracia é também o espaço em que esses interesses se confrontam e procuram construir soluções. A vitória eleitoral estabelece quem exercerá a Presidência, mas não encerra os debates sobre a sociedade que o Brasil deseja construir.

Há uma imagem que ajuda a sintetizar a dimensão humana deste domingo. O mesmo homem que, décadas atrás, falava a milhares de metalúrgicos reunidos em assembleia volta a receber da população um mandato para governar o país. Entre esses dois momentos existe uma longa história de mudanças, conflitos, derrotas e conquistas. Existe também a transformação de gerações que tiveram experiências diferentes com o Brasil e reconhecem em sua trajetória significados igualmente distintos.

Para os apoiadores de Lula, a reeleição representa uma celebração carregada de memória. Não é apenas a satisfação de vencer uma disputa eleitoral. É a lembrança das primeiras campanhas, das greves reprimidas, dos anos de oposição, da chegada ao Planalto, das políticas sociais que marcaram seus governos e dos períodos em que sua própria continuidade na vida política parecia incerta.

A vitória assume um significado ainda mais particular porque ocorre na passagem de Lula para os 81 anos. O presidente completa aniversário na terça-feira, dois dias depois da eleição. Trata-se de uma coincidência biográfica que acrescenta emoção a uma trajetória já singular: o antigo menino de Garanhuns chega a mais um aniversário tendo conquistado, por decisão das urnas, a possibilidade de iniciar seu quarto mandato.

Mas a passagem do tempo também impõe uma pergunta sobre o futuro das forças políticas e sociais construídas ao longo de sua liderança. Nenhum projeto coletivo pode depender permanentemente de uma única personalidade. A renovação das organizações populares, a formação de novas lideranças e a participação das gerações mais jovens serão questões importantes para os próximos anos. A experiência acumulada por Lula pode contribuir para esse processo, mas não substitui a necessidade de fortalecer instituições e criar condições para que novos representantes participem da vida pública.

É precisamente nessa relação entre história e futuro que a vitória deste domingo encontra uma de suas dimensões mais profundas. Lula representa uma geração que viveu a ditadura, enfrentou a repressão e participou da reconstrução democrática. Muitos jovens que estiveram nas manifestações de outubro conheceram essa história por relatos familiares, livros, documentos e imagens. Agora, essas experiências se encontram novamente na disputa sobre os rumos do país.

A celebração da vitória encerra uma campanha, mas também inaugura um período de grandes responsabilidades. O presidente terá de governar para uma sociedade plural, incluindo aqueles que não votaram nele. Precisará construir relações institucionais, responder às demandas econômicas e sociais e preservar as liberdades democráticas. Seus apoiadores, por sua vez, continuarão tendo o direito de participar, cobrar, propor e se organizar, assim como os cidadãos que integram a oposição.

A participação popular não pertence a um partido ou governante. É uma conquista democrática cuja importância se manifesta justamente na possibilidade de a sociedade influenciar as decisões do poder público, acompanhar a utilização dos recursos coletivos e questionar os rumos do Estado.

A vitória de Lula recoloca essa relação no centro da política brasileira. O presidente que nasceu politicamente nas assembleias operárias inicia um novo capítulo em condições muito diferentes das que encontrou durante sua primeira passagem pelo governo. O país é outro, o Congresso é outro, as relações internacionais mudaram e os movimentos populares enfrentam desafios próprios de uma sociedade profundamente transformada pela tecnologia e pela reorganização do trabalho.

Ainda assim, permanece uma continuidade histórica entre o metalúrgico de São Bernardo do Campo e o presidente que conquista seu quarto mandato: a presença da organização coletiva como elemento fundamental de sua trajetória.

Neste domingo, o Brasil acrescenta uma nova página à história de Luiz Inácio Lula da Silva. O antigo operário volta a receber a confiança eleitoral necessária para governar, depois de atravessar algumas das maiores crises políticas do país.

A emoção da vitória pertence àqueles que a celebram. A responsabilidade do governo pertence ao presidente e às instituições. A construção do futuro, entretanto, continuará sendo uma tarefa coletiva de todos os brasileiros.

Lula chega ao quarto mandato com uma história extraordinária. A partir de agora, começa o desafio de transformar uma nova vitória eleitoral em decisões capazes de responder às necessidades do país — com instituições democráticas, participação social e o povo como protagonista de sua própria história.