Lula prepara reunião com ministros do STF após volta dos EUA em meio à crise aberta pelo caso Master

Da Redação

Encontro ainda não tem data e foi revelado pela jornalista Bela Megale. Presidente já manteve conversas com integrantes da Corte depois da sessão de 15 de setembro, marcada por divergências públicas entre ministros. Documentos oficiais mostram, porém, que o Supremo ainda não entrou no mérito das suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes: o julgamento foi suspenso durante uma discussão processual sobre como devem tramitar os diferentes procedimentos ligados ao celular de Daniel Vorcaro.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende reunir-se com ministros do Supremo Tribunal Federal depois de retornar de Nova York, onde participa da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. A informação foi publicada originalmente pela jornalista Bela Megale, de O Globo, e reproduzida neste domingo pelo Brasil 247. Segundo o relato, Lula comunicou sua intenção a integrantes da Corte com quem conversou na última semana, mas a data do encontro ainda não foi definida.

A reunião, portanto, ainda deve ser tratada como uma articulação relatada por fontes jornalísticas, e não como um compromisso oficialmente realizado ou com pauta pública detalhada. O contexto que a cerca, entretanto, é concreto: o STF atravessa uma das disputas internas mais abertas dos últimos anos, provocada pelos diferentes procedimentos derivados das informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e pela discussão sobre como eventuais referências a integrantes da própria Corte devem ser investigadas.

Lula já havia procurado ministros depois da sessão extraordinária de 15 de setembro para compreender o alcance das decisões em discussão e os possíveis próximos passos. Antes disso, no início do mês, recebeu Gilmar Mendes no Palácio do Planalto em uma conversa fora da agenda oficial, dentro de uma rodada de contatos com integrantes do Supremo sobre a crise.

O encontro que o presidente pretende realizar após voltar dos Estados Unidos ganha peso justamente porque a crise não está resolvida. Ministros ouvidos por Bela Megale já haviam afirmado não esperar que as tensões internas diminuíssem antes das eleições de outubro, num ambiente em que divergências processuais passaram a ser acompanhadas por acusações públicas entre integrantes da Corte.

O que o STF realmente decidiu — e o que ainda não decidiu

A sessão de 15 de setembro precisa ser reconstruída com precisão porque parte da cobertura pública simplificou o episódio como se o Supremo já tivesse votado sobre a abertura de uma investigação criminal contra Alexandre de Moraes.

Não foi isso que ocorreu.

Segundo a comunicação oficial do próprio STF, o Plenário analisava uma questão de ordem sobre a possibilidade de reunião e julgamento conjunto das Petições 16.662 e 16.704. O pedido de vista de Flávio Dino interrompeu a discussão antes que o mérito dos procedimentos fosse examinado. A Corte registra expressamente que “o mérito dos processos não foi examinado”.

A Petição 16.662 tem origem em relatório produzido pela Polícia Federal a partir de dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro. O material continha informações sobre supostos diálogos relacionados a Alexandre de Moraes e acabou remetido à Presidência do Supremo por André Mendonça. A existência desses registros levou à discussão sobre qual autoridade deveria analisá-los e quais providências processuais seriam juridicamente adequadas. Isso não significa que os diálogos, isoladamente, comprovem crime ou irregularidade do ministro.

A Petição 16.704 é mais ampla. Foi instaurada pela Presidência do STF, sob Edson Fachin, para esclarecer a atuação institucional relacionada ao material da investigação. Documentos do processo mostram que Fachin determinou a coleta de informações sobre o tratamento dado pela Polícia Federal a dados envolvendo autoridades com foro, a eventual utilização de credenciais institucionais, possíveis revelações de informações protegidas por sigilo e as circunstâncias de determinadas decisões adotadas durante a investigação.

O procedimento também passou a incorporar documentos encaminhados por Alexandre de Moraes envolvendo questionamentos à atuação de André Mendonça. As acusações feitas entre integrantes da Corte continuam sendo matérias em apuração e não podem ser apresentadas como fatos já comprovados.

Durante a sessão, Gilmar Mendes propôs que os dois procedimentos fossem reunidos, redistribuídos e que fossem certificadas as referências a magistrados sobre os quais eventualmente existissem indícios de recebimento de valores indevidos, com posterior manifestação da Procuradoria-Geral da República e dos próprios magistrados mencionados. Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes acompanharam essa proposta. Fachin e André Mendonça divergiram, e Luiz Fux e Cármen Lúcia anteciparam votos acompanhando Fachin. Nunes Marques declarou impedimento e Dias Toffoli afirmou suspeição. Dino pediu vista, suspendendo a conclusão.

A situação processual é relevante porque mostra que o Supremo enfrenta simultaneamente dois problemas: descobrir o que os dados apreendidos efetivamente demonstram e estabelecer regras para que a própria Corte investigue informações que possam alcançar seus integrantes sem comprometer garantias processuais, imparcialidade ou cadeia de custódia.

Foi durante essa discussão que divergências jurídicas passaram a produzir choques pessoais.

Gilmar Mendes e André Mendonça protagonizaram uma troca pública de acusações durante e depois da sessão. Mendonça respondeu posteriormente às críticas do decano, acusando-o de preocupação seletiva com a exposição dos envolvidos e defendendo sua própria condução do material. Também mencionou a necessidade de um código de ética para o Supremo.

Esse ambiente explica por que a possível reunião de Lula desperta atenção muito além de uma conversa protocolar entre chefes de Poderes.

Novas revelações mantêm a crise aberta

Desde a sessão de 15 de setembro, novos elementos continuaram aparecendo.

Neste domingo, 20, foi divulgado um vídeo em que Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, aparecem desembarcando em agosto de 2025 de uma aeronave relacionada a Daniel Vorcaro. A existência das viagens havia sido noticiada anteriormente, mas o registro visual acrescentou um novo elemento à controvérsia.

O escritório de Viviane Barci afirmou que contratou serviços de táxi aéreo da Prime Aviation, que a empresa responsável pelo transporte escolhia as aeronaves empregadas e que Moraes acompanhou a esposa em algumas viagens. Segundo essa versão, não existia contrato advocatício entre o escritório e a companhia aérea nem aquisição de participação societária nela.

A explicação precisa ser considerada juntamente com os demais documentos. Viajar numa aeronave pertencente ou relacionada a determinado empresário não demonstra, isoladamente, favorecimento judicial, corrupção ou interferência num processo. O significado jurídico do episódio depende das condições da contratação, do conhecimento das partes, da cronologia e da existência — ou não — de decisões ou interesses concretos capazes de estabelecer conflito de interesses.

Essa é a mesma cautela necessária para todas as relações reveladas pelo caso Master.

A imprensa também identificou referências a outros ministros e familiares nos materiais investigativos. Algumas resultaram em declarações de impedimento ou suspeição, outras foram contestadas pelos envolvidos e outras permanecem sem conclusão institucional. A existência de mensagens, encontros ou relações profissionais não pode ser convertida automaticamente em participação criminosa.

O celular de Vorcaro tornou-se, dessa maneira, mais que uma fonte de informações sobre um banco liquidado. Transformou-se num problema institucional para o Supremo porque registra relações de um empresário de grande circulação econômica e política com pessoas situadas em diferentes núcleos do Estado.

A questão deixou de ser apenas quem conhecia Vorcaro.

O que precisa ser determinado é se alguma dessas relações produziu influência indevida, conflito de interesses, violação de dever funcional ou benefício econômico incompatível com a atuação pública de cada pessoa mencionada.

Sem essa etapa, proximidade continua sendo proximidade, e não prova de ilícito.

Lula entra na crise como chefe do Executivo, não como autoridade sobre o Supremo

A reunião pretendida pelo presidente possui um limite institucional claro.

A Constituição estabelece que Executivo, Legislativo e Judiciário são Poderes independentes e harmônicos entre si. Também atribui ao Supremo a função de guarda da Constituição e a competência para processar e julgar, nas hipóteses previstas, inclusive seus próprios ministros. O presidente da República não possui competência para determinar como o STF deve decidir a Petição 16.662, a Petição 16.704 ou qualquer outro processo em curso.

Isso não impede diálogo institucional entre os Poderes. Presidentes da República e ministros do Supremo mantêm reuniões sobre questões institucionais, administrativas e políticas em diferentes governos. Mas uma reunião promovida por Lula não substitui as instâncias processuais nem pode decidir quem deve ser investigado, quem deve ser considerado suspeito ou qual ministro ficará responsável pelos procedimentos.

A distinção torna-se particularmente importante porque Lula deixou de ser apenas observador da discussão sobre o funcionamento do Supremo.

Em entrevista ao SBT no dia 10 de setembro, o presidente — que também disputa a reeleição — afirmou considerar necessária uma discussão sobre mandatos para ministros da Corte. Disse que ninguém deveria permanecer décadas no mesmo cargo e também levantou questionamentos sobre escritórios de advocacia relacionados a integrantes do tribunal. Trata-se de uma posição política de Lula sobre uma eventual reforma institucional; o sistema atual permanece estabelecido pela Constituição, segundo a qual os ministros são nomeados pelo presidente da República depois da aprovação pelo Senado e permanecem no cargo até o limite constitucional de aposentadoria.

Criar mandatos para ministros exigiria mudança constitucional. A declaração presidencial, portanto, não modificou as regras do tribunal e não integra, por si mesma, os processos relacionados ao Banco Master.

Mas mostra que a crise já alcançou uma dimensão que ultrapassa o caso Vorcaro.

Ela passou a alimentar um debate sobre conflitos de interesses, transparência, regras de conduta, impedimento, suspeição e modelo institucional do Supremo.

No Congresso, esse movimento já aparece em dezenas de propostas relacionadas à estrutura e ao funcionamento da Corte. Isso não significa que essas iniciativas serão aprovadas nem que exista consenso sobre elas. Revela, contudo, que o desgaste interno do STF está sendo transformado em matéria política e legislativa.

A proximidade das eleições aumenta a sensibilidade desse ambiente.

O primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro, e eventual segundo turno em 25 de outubro, conforme o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral.

Segundo o relato publicado pelo Brasil 247, integrantes do governo desejam reduzir o espaço ocupado pela crise do Supremo na agenda pública e concentrar a comunicação em ações do Executivo, incluindo políticas sociais, combate às plataformas de apostas, medicamentos no SUS e medidas econômicas. Essa é uma estratégia atribuída a interlocutores do governo, não uma conclusão sobre o efeito eleitoral do caso.

Também não há base para afirmar, neste momento, que a crise do STF determinará o comportamento do eleitorado ou favorecerá uma candidatura específica. A repercussão política existe, mas transformá-la em previsão eleitoral iria além das evidências disponíveis.

É nesse quadro que Lula voltará dos Estados Unidos.

O presidente chegou a Nova York para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas e fará na terça-feira, 22, o tradicional primeiro discurso nacional do Debate Geral. Sua agenda internacional está centrada em soberania, multilateralismo, conflitos, segurança internacional e outros temas previamente indicados pelo governo.

Quando retornar ao Brasil, encontrará a crise do Supremo praticamente no mesmo ponto processual em que a deixou: o pedido de vista de Flávio Dino ainda impede uma decisão definitiva sobre a questão de ordem, o mérito das petições não foi julgado e diferentes frentes relacionadas ao Banco Master continuam produzindo documentos e informações.

Por isso, a reunião que Lula pretende promover terá relevância institucional, mas seu alcance precisa ser medido com cuidado.

Ela pode abrir um espaço de diálogo entre o chefe do Executivo e integrantes de uma Corte marcada por divergências públicas. Não poderá, porém, substituir as respostas que somente os próprios processos, a Procuradoria-Geral da República, as investigações autorizadas e o colegiado do Supremo podem produzir.

A crise desencadeada pelo caso Master chegou a um estágio em que o problema deixou de ser apenas a imagem de um ou outro ministro.

A Corte precisa decidir como investigará informações que atingem seus próprios integrantes, como tratará possíveis conflitos de interesses, quais regras protegerão a imparcialidade das decisões e como distinguirá relações socialmente questionáveis de condutas juridicamente ilícitas.

A reunião planejada por Lula ocorre justamente no momento em que essas respostas ainda não existem.