Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, presidente convoca aliados para discutir mudanças na campanha; combate à abstenção, ampliação das alianças e revisão da comunicação estarão no centro da nova etapa eleitoral
Da Redação
Menos de 24 horas depois de conhecer o resultado que levou a eleição presidencial para o segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva começa nesta segunda-feira, 5 de outubro, uma nova etapa de sua campanha. O presidente convocou aliados para uma reunião em Brasília na qual serão discutidas mudanças de estratégia para as três semanas que antecedem a votação de 25 de outubro. O encontro está previsto para a tarde e deverá reunir integrantes da coordenação eleitoral, dirigentes partidários e aliados que participaram das disputas estaduais e para o Senado.
A reunião acontece num cenário diferente daquele que a campanha de Lula esperava encontrar depois do primeiro turno. O presidente entrou no domingo afirmando confiança na vitória, enquanto levantamentos divulgados na reta final indicavam uma disputa apertada, mas em muitos casos ainda o colocavam numericamente à frente. Quando os votos começaram a ser totalizados, porém, Flávio Bolsonaro apareceu na primeira posição e permaneceu nela até o final da apuração.
Lula reconheceu na noite de domingo que esperava outro resultado. Disse que estava convencido de que poderia vencer ainda no primeiro turno, mas afirmou que uma nova eleição começaria imediatamente. Agora, com apenas dois candidatos disputando o Palácio do Planalto, o presidente pretende reorganizar a campanha para o confronto direto com Flávio.
A primeira tarefa da reunião desta segunda-feira será compreender o que aconteceu no domingo.
Integrantes da campanha apontam problemas de comunicação, dificuldades de mobilização em determinados estados e resultados abaixo das expectativas em grandes centros eleitorais. São Paulo e Minas Gerais aparecem entre as regiões que deverão receber atenção especial durante o segundo turno. A própria estrutura de comunicação da campanha, marcada pela existência de diferentes núcleos atuando simultaneamente, também entrou na discussão interna sobre possíveis mudanças.
O encontro de Brasília, portanto, não será apenas uma reunião para organizar agenda de viagens. O primeiro turno obrigou a campanha a revisar premissas construídas antes da votação. Estratégias planejadas para um cenário em que Lula imaginava chegar à segunda etapa na primeira colocação terão de ser adaptadas a uma eleição em que o presidente começa atrás do adversário.
Isso não significa que o resultado do segundo turno esteja determinado. Significa que a campanha entra numa disputa diferente daquela que havia projetado.
Mais de 33 milhões de brasileiros que não foram votar
Um número chamou especialmente a atenção de Lula depois da apuração: a abstenção.
Segundo os dados da Justiça Eleitoral, aproximadamente 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no domingo, correspondendo a 21,08% do eleitorado. Foi a maior taxa de abstenção registrada num primeiro turno presidencial desde 1998. Cerca de 125 milhões de pessoas compareceram para votar, num universo de 158,7 milhões de eleitores aptos.
É um contingente enorme, e Lula deixou claro que pretende dirigir parte importante da campanha a essas pessoas.
Depois da apuração, o presidente afirmou que fará um apelo para que os eleitores que não participaram do primeiro turno compareçam em 25 de outubro. A estratégia parte de uma constatação matemática simples: o número de abstencionistas é muitas vezes superior à diferença de votos que separou os dois candidatos.
Mas abstenção não é sinônimo de voto disponível para qualquer candidatura. Os mais de 33 milhões de ausentes formam um grupo heterogêneo. Há pessoas que não votaram por dificuldades de deslocamento, problemas pessoais, desinteresse político, ausência do domicílio eleitoral e diferentes outras razões. Não existe base para presumir que esse contingente se inclinaria automaticamente para Lula ou para Flávio Bolsonaro.
Por isso, o objetivo da campanha será tentar transformar parte dessa ausência em comparecimento e, posteriormente, em voto.
A preocupação não é exclusiva do PT. O próprio Tribunal Superior Eleitoral anunciou que pretende reforçar suas iniciativas para reduzir a abstenção no segundo turno. O presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, afirmou depois da votação que o percentual registrado não é considerado ideal e que a Justiça Eleitoral pretende aperfeiçoar mecanismos de incentivo ao comparecimento.
A mobilização dos ausentes será apenas uma das frentes da campanha de Lula. A outra será política: ampliar alianças.
Começa a disputa pelos apoios
Com a eliminação dos demais candidatos presidenciais, milhões de eleitores que votaram em outras candidaturas precisarão fazer uma nova escolha. Ao mesmo tempo, partidos, governadores, senadores e lideranças políticas começam a definir suas posições para o segundo turno.
Essa movimentação já começou.
O PSD anunciou neutralidade nacional entre Lula e Flávio Bolsonaro e decidiu liberar diretórios, parlamentares e filiados para apoiarem individualmente qualquer uma das duas candidaturas. A decisão preserva a autonomia das alianças estaduais e transforma lideranças regionais do partido em potenciais interlocutores das duas campanhas.
Antes mesmo do primeiro turno, integrantes da campanha de Lula já discutiam aproximações com setores do PSD e do MDB, além de contatos com aliados de outras candidaturas. Augusto Cury, que terminou a eleição presidencial na terceira colocação, também aparecia entre os nomes que integrantes da campanha pretendiam procurar.
Agora essas conversas deixam de ser uma preparação hipotética para o segundo turno e passam a fazer parte da disputa concreta.
A reunião desta segunda-feira deverá discutir justamente como ampliar a coalizão de Lula sem depender apenas da estrutura tradicional do PT e dos partidos que já participaram da campanha no primeiro turno. A estratégia envolve procurar lideranças nacionais, mas também reconstruir alianças estaduais capazes de aumentar a mobilização em regiões onde o desempenho do presidente ficou abaixo das expectativas da campanha.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro também começou imediatamente sua articulação. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, reeleito no domingo, viaja nesta segunda-feira a Brasília para discutir a campanha do candidato do PL. A possibilidade de participação de integrantes da estrutura de marketing utilizada por Tarcísio também está sendo considerada.
As duas campanhas, portanto, utilizam esta segunda-feira para reorganizar suas forças.
Comunicação entra em revisão
Um dos assuntos mais sensíveis para a campanha de Lula deverá ser a comunicação.
Segundo relatos publicados nesta manhã, integrantes do grupo presidencial avaliam que houve dificuldades de coordenação entre diferentes estruturas responsáveis pela mensagem eleitoral. A campanha reuniu núcleos de marketing, produção audiovisual, redes sociais e comunicação política que nem sempre atuaram de maneira integrada.
Também existe uma avaliação de que a campanha demorou a assumir um discurso mais diretamente confrontador em relação a Flávio Bolsonaro. Durante uma parte considerável do primeiro turno, a estratégia esteve concentrada na apresentação das realizações do governo e numa comunicação relativamente positiva. O crescimento do candidato do PL levou posteriormente a uma mudança de tom.
Agora, com apenas dois candidatos na disputa, o formato inevitavelmente muda.
Lula já indicou qual pretende ser uma das linhas da nova campanha. Depois da apuração, afirmou que o segundo turno permitirá apresentar com mais clareza as diferenças entre os dois projetos políticos. A campanha deverá explorar comparações entre propostas, trajetórias e experiências administrativas, enquanto Flávio Bolsonaro deverá fazer movimento semelhante a partir de sua própria narrativa eleitoral.
Será uma campanha muito mais diretamente confrontada.
Não haverá mais uma dezena de candidatos dividindo o palco. Os debates serão entre Lula e Flávio. O horário eleitoral será concentrado nos dois concorrentes. A cobertura jornalística também será dominada pelo confronto direto entre as duas candidaturas.
Essa nova configuração altera completamente a comunicação.
Uma campanha começa praticamente do zero
Lula utilizou uma metáfora esportiva ao falar sobre o segundo turno. Disse que considera ter bom desempenho em disputas de “mata-mata” e afirmou que a nova etapa será um confronto direto entre os dois candidatos.
A expressão traduz o espírito que a campanha tenta adotar depois do resultado inesperado, mas não altera a situação objetiva produzida pelas urnas. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança. Lula terminou em segundo. Em 25 de outubro, entretanto, os votos serão novamente registrados numa nova eleição, agora limitada aos dois candidatos.
Historicamente, o candidato que terminou o primeiro turno presidencial brasileiro na primeira posição também venceu o segundo desde a retomada das eleições diretas. É um dado histórico, não uma regra capaz de determinar o resultado de 2026.
As três semanas seguintes decidirão se esse padrão será mantido.
Para Lula, isso significa buscar votos em pelo menos três grandes grupos: eleitores que escolheram candidatos eliminados, brasileiros que se abstiveram e pessoas que votaram em Flávio Bolsonaro, mas poderiam reconsiderar sua escolha. Para Flávio, a lógica será semelhante: preservar os votos recebidos no primeiro turno e procurar ampliar sua vantagem entre os demais segmentos do eleitorado.
As campanhas também precisarão interpretar as mudanças produzidas nas eleições estaduais e parlamentares. Governadores eleitos no primeiro turno passam a possuir capacidade de mobilização regional. Candidatos derrotados ficam livres para participar da disputa presidencial. Novos senadores e deputados também começam a tomar posição.
A eleição nacional entra, assim, numa fase de intensa reorganização política.
O primeiro turno terminou; a estratégia anterior também
A reunião desta segunda-feira em Brasília simboliza justamente essa mudança.
Lula não pode conduzir as próximas três semanas simplesmente repetindo a campanha que terminou ontem. O resultado das urnas produziu novas informações sobre o comportamento do eleitorado, mostrou regiões onde sua candidatura teve dificuldades e revelou a necessidade de mobilizar eleitores que não compareceram.
É isso que seus aliados tentarão transformar numa nova estratégia.
O presidente também deverá intensificar viagens pelo país. Estados populosos e regiões em que houve perda de apoio em comparação com eleições anteriores deverão receber atenção especial. Ao mesmo tempo, o Nordeste, onde Lula manteve importantes bases eleitorais, continuará sendo decisivo para a tentativa de ampliar sua votação.
Nada disso garante o resultado.
Campanhas podem elaborar estratégias, escolher mensagens, construir alianças e mobilizar estruturas partidárias. Quem decide a eleição são os eleitores.
Essa diferença será especialmente importante numa disputa em que a distância do primeiro turno foi pequena diante do tamanho do eleitorado brasileiro.
Na noite de domingo, Lula reconheceu que o resultado não foi aquele que esperava. Nesta segunda-feira, reúne seus aliados para decidir o que fazer com essa informação.
Flávio Bolsonaro faz o mesmo com os seus.
Daqui a vinte dias, os dois voltarão a se enfrentar nas urnas.
Até lá, haverá debates, viagens, negociações, apoios, propaganda, pesquisas e uma nova disputa por milhões de brasileiros que ainda podem alterar sua escolha ou que sequer participaram da primeira votação.
O primeiro turno colocou Flávio Bolsonaro na frente e Lula na segunda posição.
Agora começa outra campanha.
E a primeira reunião para definir como Lula pretende conduzi-la acontece nesta segunda-feira, em Brasília.
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