Lula traça perfil de sucessor: “Vocês precisam viajar o Brasil”

Presidente cita Camilo, Haddad e outras lideranças, mas afirma que um nome nacional precisa conhecer o país, compreender as desigualdades e conquistar a confiança dos eleitores

Da Redação

O Presidente Lula afirmou que o campo progressista possui nomes capazes de disputar sua sucessão em 2030, mas advertiu que essas lideranças ainda precisam ultrapassar suas fronteiras estaduais e construir presença nacional. Para ele, não basta administrar uma cidade ou um estado: quem pretende governar o Brasil precisa percorrer o país, conhecer suas desigualdades e estabelecer uma relação direta com a população.

A avaliação foi apresentada durante entrevista às Cunhãs, conduzida pelas cearenses Inês Aparecida e Hébely Rebouças, com a participação da podcaster Deia Freitas. Questionado sobre o perfil desejável para sua sucessão, Lula citou o ex-ministro da Educação, Camilo Santana, o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e outros quadros progressistas, mas evitou apontar um nome preferido.

“Nós temos muitas figuras boas. Eu tenho dito para eles: vocês precisam sair do gueto de vocês e viajar o Brasil”, afirmou.

Segundo Lula, o país não possui o hábito de formar lideranças verdadeiramente nacionais. Governadores, prefeitos e dirigentes partidários costumam permanecer associados aos próprios estados, sem construir reconhecimento político em outras regiões. O presidente citou sua trajetória e a de Jair Bolsonaro como casos recentes de lideranças com presença eleitoral em todo o território brasileiro.

Ao tratar dos possíveis nomes do campo progressista, Lula mencionou o desempenho de Camilo Santana como governador do Ceará e destacou a existência de jovens quadros em outros estados. Mais adiante, ao ser questionado diretamente sobre Haddad, reconheceu que o ministro possui capacidade para crescer politicamente.

“Haddad é uma delas. É um companheiro com um potencial de crescimento extraordinário”, declarou. Lula ponderou, contudo, que a preparação de um sucessor exige mais do que experiência administrativa, projeção institucional ou a ocupação de um cargo importante.

Conhecer o país

Para explicar como uma liderança deixa de ser regional e passa a ser nacional, Lula recordou as viagens que fazia quando ainda construía sua trajetória política. Segundo ele, reuniões pequenas em lugares distantes tiveram tanta importância quanto os grandes atos públicos que realizaria posteriormente.

“Eu, para me tornar líder, saía de São Paulo, pegava um voo da Transbrasil, andava quatro horas para chegar ao Acre, para fazer reunião com 40 pessoas no meio do sol, e me esgoelava como se tivesse um milhão me ouvindo”, contou.

A experiência serve, na avaliação do presidente, como orientação aos nomes que pretendem disputar a Presidência no futuro. Conhecer o Brasil, para Lula, significa compreender as diferenças entre as regiões e observar de perto as condições concretas enfrentadas pelos brasileiros.

“O cara tem que ter uma compreensão do Brasil. O cara tem que ter uma compreensão das desigualdades sociais neste país e trabalhar para acabar com elas”, afirmou.

Lula citou desigualdades relacionadas à renda, à alimentação, ao acesso à educação, ao gênero e à raça. O futuro candidato, segundo ele, deverá enfrentar os privilégios que restringem direitos e impedem grande parte da população de acessar condições dignas de vida.

Liderança não é cargo

O presidente também diferenciou liderança de exercício administrativo. Para ele, ocupar uma prefeitura ou um governo estadual não transforma automaticamente uma pessoa em líder político nacional.

“Um governador não é líder. Um governador é governador. Um prefeito não é líder. Um prefeito é prefeito. Liderar é outra coisa”, declarou.

Lula recorreu à experiência no movimento sindical para explicar sua concepção. Durante a organização das greves no ABC Paulista, os trabalhadores eram orientados a escolher representantes confiáveis, capazes de transmitir informações sem distorções. Segundo ele, os escolhidos raramente eram os mais falantes ou aqueles que tentavam se apresentar como donos das respostas.

“O pessoal nunca escolheu o mais falante, nunca escolheu aquele cara que parece vanguarda, aquele que sabe tudo. Normalmente, as pessoas escolhiam o mais sábio, uma pessoa tranquila, em quem confiavam”, relatou.

Na avaliação de Lula, uma liderança não se estabelece por decisão própria nem pode ser fabricada apenas pela exposição pública. “O líder não é aquele que quer ser líder. O líder é escolhido pelos seus liderados”, resumiu.

Disposição para servir

O presidente acrescentou que o sucessor precisará demonstrar disposição para participar da vida política sem exigir tratamento privilegiado. Na definição apresentada por ele, um líder deve chegar antes dos demais, permanecer até o final das atividades e assumir tarefas que normalmente seriam delegadas.

“Para ser líder, você tem que ser o primeiro a chegar e o último a sair. Tem que estar disposto a carregar as cadeiras para sentar. Tem que estar disposto a repartir as coisas com as pessoas”, afirmou.

Lula também defendeu que uma liderança precisa ter coragem para tomar decisões difíceis, inclusive quando elas desagradam parte de seus apoiadores. Como exemplo, mencionou a responsabilidade de dirigentes sindicais que convocam uma greve, mas também precisam saber quando encerrá-la.

A fala estabelece critérios para a sucessão sem antecipar uma escolha. Lula reconhece a existência de quadros competitivos, entre eles Camilo e Haddad, mas condiciona a consolidação de qualquer candidatura à capacidade de adquirir projeção nacional, compreender o país e conquistar confiança fora dos espaços onde esses nomes já são conhecidos.

“O Brasil é muito grande e nós precisamos nacionalizar essas pessoas”, afirmou. Para Lula, sem esse trabalho, o espaço político pode ser ocupado por personagens produzidos pela exposição nas redes sociais, que classificou como “falsos líderes” e “especialistas em falar bobagem”.

O climão com o repentista e o recado sobre falar menos

A discussão sobre a sucessão também recuperou um episódio ocorrido na convenção petista no Centro de Eventos do Ceará. Na ocasião, o repentista Rodolfo Poeta ganhou destaque nacional ao homenagear o Presidente Lula e o governador Elmano de Freitas. A apresentação exaltou programas sociais, pediu a continuidade do governo cearense e terminou convocando quem apoiava Lula e Elmano a levantar as mãos.

Em outro momento da participação, Camilo Santana foi apresentado como possível sucessor de Lula, afirmação que provocou visível desconforto no presidente. O episódio foi lembrado por Hébely durante a entrevista: “Nós temos o sucesso do Camilo no Ceará como governador, que foi colocado lá no Ceará como seu sucessor pelos repentistas”.

A resposta veio na semana seguinte, durante a convenção do PT em São Paulo. Ao mencionar nomes com condições de crescer nacionalmente e disputar a Presidência no futuro, Lula deixou Camilo por último. O gesto chamou atenção de quem acompanhava o evento na restrita plateia instalada no palco e foi interpretado como uma reação à tentativa de antecipar sua sucessão no Ceará.

Na conversa com as Cunhãs, Lula voltou ao assunto de forma indireta ao explicar que uma liderança não se consolida por proclamação, exposição ou excesso de discurso. Para sustentar essa avaliação, recordou como os trabalhadores escolhiam seus representantes durante sua atuação sindical no ABC Paulista.

“O pessoal nunca escolheu o mais falante, nunca escolheu aquele cara que parece vanguarda, aquele que sabe tudo. Normalmente, as pessoas escolhiam o mais sábio, uma pessoa tranquila, em quem confiavam”, afirmou.

O recado ajuda a compreender a resistência de Lula à indicação antecipada de um herdeiro político. Para ele, o sucessor não será definido por um anúncio feito no palanque, nem apenas pelo cargo que ocupa. Precisará percorrer o país, compreender suas desigualdades e conquistar a confiança dos eleitores. “O líder não é aquele que quer ser líder. O líder é escolhido pelos seus liderados”, resumiu.

O “sumiço” de Camilo após a entrada de Luizianne

A indicação de Luizianne Lins para a chapa governista também produziu um movimento difícil de ignorar: o “sumiço” de Camilo Santana. Antes tratado como principal articulador da sucessão estadual e presença obrigatória ao lado de Elmano, Camilo praticamente deixou de aparecer nas imagens públicas da campanha após a confirmação da ex-prefeita como candidata ao Senado. Nas fotografias divulgadas pela chapa, sua ausência chama atenção tanto quanto uma declaração.

Camilo afirmou publicamente que não apresentou objeção ao nome de Luizianne e participou da reunião que confirmou a composição. Ainda assim, o desaparecimento das fotos sugere que a solução aceita formalmente não foi assimilada com a mesma naturalidade no plano político. Luizianne chegou à chapa depois de resistências prolongadas e de uma articulação que expôs os limites da influência de Camilo sobre a composição final.

A ausência se torna ainda mais significativa porque Camilo vinha sendo apresentado como uma das figuras centrais do grupo governista e chegou a ser lançado por um repentista, diante de Lula, como possível sucessor do presidente. Pouco depois, Lula respondeu que as lideranças interessadas em alcançar projeção nacional deveriam “sair de seus guetos e viajar o Brasil”. Ao listar os nomes disponíveis, mencionou Camilo sem lhe conceder qualquer condição especial.

Não há declaração de Camilo que autorize falar em rompimento, boicote ou recusa à candidatura de Luizianne. Politicamente, porém, fotografia também comunica posição. Quando um dos principais articuladores de uma chapa deixa de aparecer justamente após perder a disputa em torno de sua composição, a ausência passa a integrar a mensagem, mesmo sem legenda oficial.

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