Da Redação
Em ato simbólico nesta segunda-feira (16/11/2025), o presidente da Venezuela interpretou a canção de John Lennon como forma de apelo à paz em meio a movimentações militares dos EUA no Caribe, reforçando tanto a retórica bolivariana quanto o jogo de imagem internacional do regime venezuelano.
Em um comício realizado no estado de Miranda no sábado (15 de novembro de 2025), o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, protagonizou um gesto carregado de simbolismo: no palco, durante a cerimônia de juramentação dos chamados Comitês Bolivarianos de Base Integral, ele entoou a canção “Imagine”, de John Lennon, reforçando o apelo por “paz, paz, paz” em meio a uma escalada de tensão diplomática e militar com os Estados Unidos.
A cena — Maduro no centro do palco, autoridades ao redor fazendo o gesto da paz com as mãos, a música ao fundo — não passou despercebida. Em seu discurso, o líder venezuelano afirmou que a canção se tornara “uma inspiração para todas as épocas e gerações”, convocando a um “fazer tudo pela paz”, como enfatizou. Ele ainda fez referência direta à ação da Casa Branca, que recentemente fortaleceu a presença militar no Caribe, e acusou Washington de “planejar uma invasão” ou “bombardear” seu país, como parte de uma narrativa recorrente do regime chavista.
Contexto e significado estratégico
O momento se inscreve em um momento de tensão diplomática elevada: os Estados Unidos anunciaram operações conjuntas no mar do Caribe, designadas como parte do combate ao narcotráfico — algo que a Venezuela interpreta como ameaça direta à sua soberania e segurança nacional. Nesse cenário, o ato de Maduro assume dupla função: por um lado, busca passar uma imagem de estadista conciliador que usa a linguagem da paz para apaziguar percepções externas; por outro, reforça internamente a narrativa de que seu governo resiste à hegemonia americana e à intervenção estrangeira.
A escolha da música “Imagine” não é casual. A canção de Lennon, concebida como hino pacifista e de fraternidade global, oferece forte carga simbólica que transcende o território venezuelano. Ao cantar esse trecho, Maduro envia uma mensagem dupla: para o exterior, uma proposta formal de diálogo ou calma; para o público interno, uma reafirmação de poder simbólico — “eu, presidente, canto por paz” — e, ao mesmo tempo, um apelo ao engajamento dos comitês bolivarianos como instrumentos de mobilização política e social.
Repercussões e críticas
Apesar da teatralidade, o gesto não se livra das contradições. Analistas apontam que enquanto Maduro entoa uma música de paz, seu governo segue sendo acusado de graves violações de direitos humanos, repressão de opositores, crise econômica e dependência de modelos de subsistência política que se valem de mobilização de massas. Internamente, para detratores, o momento aparece mais como um ensaio simbólico do que como um compromisso concreto com reformas ou mudança de postura internacional.
Externamente, a mídia internacional reagiu com ceticismo. Algumas publicações classificaram a cena como “estranha” ou “ensaiada”, sugerindo que o teatro da paz pode servir tanto para projetar imagem quanto para distrair da realidade política venezuelana e das dinâmicas geopolíticas reais. A leitura de que o gesto busca mitigar uma escalada militar contra o país por parte dos EUA circulou com força.
Implicações para a geopolítica regional
Para o contexto latino-americano e, por extensão, para o Brasil, o episódio reforça alguns vetores estratégicos:
- Primeiro, que a disputa por hegemonia regional e autonomia informativa não se dá apenas no plano técnico (dados, tecnologia, infraestrutura) mas também no simbólico — canções, mobilização de militância, espetáculos de poder fazem parte da guerra de posição.
- Segundo, que o uso da narrativa de “autonomia frente aos EUA” permanece central para regimes periféricos que buscam legitimação interna e alianças alternativas, como as que o senhor acompanha nos BRICS e no mundo multipolar.
- Terceiro, que mesmo gestos aparentemente inocentes — cantar por paz — podem servir como parte de um repertório maior de diplomacia de espetáculo, que busca moldar percepções globais, ganhar mídia e influenciar narrativas de poder.
Conclusão
O canto de “Imagine” por Maduro é ao mesmo tempo peça simbólica e ato político. Ele encapsula muitos dos dilemas contemporâneos que o senhor, Rey, observa em sua pesquisa: a fusão entre comunicação de massas, poder simbólico e soberania em um mundo dividido entre dominação e autonomia. A performance do presidente venezuelano revela que, hoje, a disputa não está apenas em quão forte é um país militarmente ou tecnologicamente, mas também em como ele se apresenta globalmente, como articula símbolos culturais, e com que narrativa mobiliza as pessoas — tanto internamente quanto no palco internacional.
A canção termina, as luzes se apagam, o show simbólico conclui-se — mas a batalha pela interpretação, pela narrativa e pelo sentido político permanece aberta.



